Eduardo Vargas e Érica Poloi
Em
2026, ano de eleição – e de tradicionalmente maior gastança pelos
governos – a meta de resultado primário deve ser cumprida, todavia os
problemas devem ser rolados para 2027 à medida que o arcabouço fiscal se
mostra uma estrutura insuficiente para sanar os problemas das contas
públicas. A visão é de Caio Megale, economista-chefe da
XP, que enxerga em 2026 um ano de relativa previsibilidade nos
indicadores macroeconômicos, mas alguns riscos vindo de Brasília.
O especialista avalia que, a na eventualidade de uma postura reformista do Governo Federal durante o ano de 2027, a Selic pode voltar a ficar em um dígito percentual.
Para este ano, a visão é de que dificilmente a taxa básica de juros ficará longe de 12%. A projeção da XP é de 12,50%, com cinco cortes de 0,50 ponto percentual (p.p.).
Em termos de contas públicas, o economista-chefe da XP
espera R$ 45 bilhões de déficit primário – em uma meta que não
considera ‘excessivamente ousada’ por conta da exclusão de certas
despesas, como uma fatia dos precatórios e gastos parafiscais.
“Para
este ano, fazendo a conta na ponta do lápis, talvez precisemos de um
contingenciamento de despesas na ordem de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões,
que o governo consegue fazer tranquilamente”, diz.
A expectativa é
de que, em 2027, os problemas fiscais se intensifiquem e fiquem mais
evidentes, demandando ajustes. O ano de 2025 foi de recorde de
arrecadação, com aumento de receitas via impostos e tributos, e o cenário deve se repetir em 2026.
Assim,
o Governo deve ter de fazer movimentos que não necessariamente sejam
cortes intensos nos gastos, mas medidas que ‘aumentem o fôlego’ e
garantam uma maior margem de manobra – como a discussão dos mínimos
constitucionais e a indexação de algumas despesas.
A IstoÉ Dinheiro
falou com Caio Megale a respeito dos rumos da macroeconomia e da
política fiscal em 2026 e 2027. Confia abaixo as projeções da XP e os
principais trechos da entrevista.

O
cenário fiscal ganha relevância adicional por 2026 ser ano de eleições
presidenciais, período em que, tradicionalmente, os gastos públicos se
aceleram. Qual é a sua visão sobre o cumprimento das metas e qual é o
caminho que o governo deve tomar? A meta de superavit é considerada
inalcançável?
Projetamos hoje um déficit de R$
45 bilhões. O modelo de equilíbrio fiscal do governo tem se baseado na
aceleração das despesas [estruturais, de forma contínua, para incentivar
a economia] acompanhada de uma busca constante por maior arrecadação.
É
um esforço que tem dado certo. O Congresso tem apoiado medidas de
aumento de receita, como as mudanças nos gastos tributários, a exemplo
do projeto de lei que elevou os juros sobre capital próprio (JCP), que
foram aprovadas na virada do ano, e somaram cerca de R$ 20 bilhões.
Acreditamos que o governo cumprirá a meta fiscal
de 2026 com certa tranquilidade, mas há uma ressalva importante: essa
meta não é excessivamente ousada porque se beneficia da exclusão de
certas despesas, como parte dos precatórios e gastos parafiscais via
fundos públicos.
Então o risco fiscal imediato é baixo?
Para o curto prazo, sim. O tema fiscal
não deve ser o principal foco de instabilidade agora, pois as metas
estão equacionadas. O resumo é que teremos um ano de metas atingidas,
mas com um déficit primário ainda relevante e uma dívida pública que
cresce de dois a três pontos percentuais por ano.
O verdadeiro
desafio migra para 2027. Com o fim do mandato presidencial se
aproximando, a dúvida é se persistiremos nesse modelo de elevar
arrecadação para pagar gastos – o que tem limite – ou se haverá reformas
estruturais nas despesas.
Existe alguma expectativa de que o governo realize cortes de gastos ou ajustes no próprio arcabouço fiscal ainda este ano?
Praticamente
zero. Não haverá ajustes no arcabouço agora porque não será preciso.
Nossos cálculos indicam que, se for necessário algum ajuste “na ponta do
lápis”, um bloqueio de despesas entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões
seria suficiente, algo que o governo faz tranquilamente na gestão de
caixa [para alcançar a meta do ano].
O mercado está relativamente
calmo com 2026. O debate sobre a insustentabilidade do modelo, que gera
déficits e depende de recordes sucessivos de receita, ficará para o
primeiro ano do próximo mandato.
Pensando em médio prazo, o que pode ser feito para evitar problemas fiscais crônicos caso essa mesma dinâmica continue?
O
gargalo não está na receita. O Brasil baterá recorde histórico de
arrecadação em 2026, impulsionado pelas medidas aprovadas e por um
Produto Interno Bruto (PIB) que ainda demonstra resiliência.
Mesmo
com maior arrecadação em caixa, o governo tem pouca margem de manobra. O
problema reside nas despesas, que são altamente indexadas e rígidas. As
reformas necessárias envolvem os valores mínimos definidos pela
Constituição Federal que vão para a saúde e educação, que voltaram a
pressionar o orçamento, e a indexação de benefícios previdenciários ao
valor do salário mínimo. Sem reduzir esse grau de vinculação, a dívida
continuará crescendo de forma insustentável.
Para os juros
básicos, a projeção de vocês é de Selic em 12,50% ao final de 2026. Como
o Banco Central deve calibrar esse corte diante da desaceleração da
inflação?
O Banco Central tem espaço para
retirar o “extra aperto” que foi necessário anteriormente. Vemos uma
possibilidade de corte total na ordem de 2,5 a 3 pontos percentuais ao
longo do ano. O ritmo de 12,50% ainda é um juro real alto para uma
inflação que corre perto de 4,5%.
Se o governo sinalizar reformas
profundas no segundo semestre [administrativa e desvinculação do
orçamento citadas anteriormente], existe espaço para cair até 11% ou
9,5% [próximo ano]. Caso contrário, se o cenário for de “ajustes
insuficientes”, o BC deve ser mais cauteloso e estacionar nos 12,50%.
O fato de o fiscal de 2026 estar “pacificado” garante uma trajetória suave para o Copom?
Para
o curto prazo, sim. As medidas anunciadas e a receita prevista no
Orçamento estão bem equacionadas. O Banco Central tem sinalizado que só
cortará com convicção total. O risco de mudarmos a projeção de 12% para
12,50% ocorreu justamente da percepção de que o espaço está ficando mais
apertado. Há riscos na inflação de alimentos, que é volátil, e na
dinâmica do câmbio caso as commodities voltem a subir.
Como será o ritmo da mudança na Selic, vocês esperam cinco cortes de 50 pontos base para este ano?
Sim,
essa é a nossa base. O BC deve levar a taxa dos atuais níveis para
12,50%. A partir daí, a evolução dependerá muito do cenário
internacional, especialmente da situação política nos Estados Unidos e
das decisões do Fed [Federal Reserve, o Banco Central americano], que
influenciam a nossa margem de manobra por aqui.
Sobre a inflação, vocês reduziram a projeção de 4,2% para 4% em 2026. O que sustenta esse otimismo?
A
alimentação tem vindo com uma dinâmica muito positiva e os bens
duráveis estão sendo beneficiados por importações baratas da China.
Trouxemos a inflação de volta para o intervalo de
tolerância, o que é uma vitória para o Banco Central, embora ainda
estejamos longe da meta de 3%. No entanto, somos cautelosos: não está
claro se o mundo será tão desinflacionário em 2026 quanto foi em 2025.
Alimentos e industrializados podem voltar a pressionar no segundo
semestre.
E quanto ao PIB? A estimativa de 1,7% com viés de alta parece conservadora diante das medidas de estímulo do governo.
Já
colocamos no cálculo o impacto do aumento da faixa de isenção do
Imposto de Renda e outros estímulos diretos. O viés de alta existe caso
medidas adicionais, como o crédito consignado privado e novos apoios ao
mercado imobiliário, ganhem tração. Por outro lado, o endividamento das
famílias ainda é um detrator. O consumo em 2026 será mais sustentado
pela renda corrente [transferências do governo] do que pelo crédito, que
demora a reagir aos cortes de juros.
O câmbio teve um ano anterior volátil. Com o BC iniciando o ciclo de cortes, o diferencial de juros pode elevar o dólar?
O
mercado já precificou esses cortes. Se o BC corta juros com respaldo
técnico e a economia se reequilibra, isso pode até atrair capital e
diminuir prêmios de risco. Não vemos o dólar fazendo movimentos bruscos
de desvalorização global como vimos no passado. Nossa projeção é de um
câmbio entre R$ 5,60 e R$ 5,70. Achamos que o patamar de R$ 5,50 é o
ponto de equilíbrio atual.
Como o cenário político de Brasília e
as eleições devem afetar o dólar no segundo semestre? Vimos muita
volatilidade em anúncios recentes de candidaturas.
As eleições
trazem volatilidade, mas não necessariamente mudam a tendência
estrutural. O câmbio pode “chacoalhar” com as notícias de Brasília, mas o
que dirá se ele volta para R$ 5 ou deprecia mais são as perspectivas de
reformas para 2027. Por enquanto, vemos o câmbio andando de lado,
acompanhando o comportamento do dólar no exterior. O ruído político é
passageiro. A sustentabilidade fiscal é o que define o preço em longo
prazo.
Qual é o balanço final para o investidor que olha para 2026?
É
um ano de “so far, so good” [“até aqui, tudo bem”]. Até onde
conseguimos enxergar, os riscos estão controlados. A inflação está no
intervalo, o PIB cresce moderadamente e o fiscal está garantido por
receitas extraordinárias. O investidor deve aproveitar a clareza do
curto prazo, mas manter os olhos atentos ao “molho” de variáveis que
entrará na conta a partir do segundo semestre: Fed, China e,
principalmente, a agenda de reformas do próximo ciclo presidencial.