Em
junho de 2025, a hamburgueria iniciou um teste em uma das lojas,
reduzindo a carga de trabalho. “Para compensar a contratação, passamos a
abrir também às segundas-feiras. Deu certo e a unidade passou a ter um
resultado financeiro melhor”, afirma.
Segundo
ele, a mudança não reduziu a lucratividade e ainda contribuiu para
diminuir faltas e trocas de equipe. “Eu mesmo sou professor
universitário há 21 anos. Por esse background, sei o quão importante é
ter condições de trabalho saudáveis.”
O
modelo foi expandido para as demais unidades neste mês e segue em
avaliação. Sobre o fim do atual modelo de escala, ele acredita que terá
mais pontos positivos do que negativos. “Acredito que o grande
empresário não vai quebrar, não vai ser prejudicado. Na pior das
hipóteses, vai operar com uma margem um pouco menor”, opina. Nos
pequenos empreendimentos, diz Fernando, os efeitos tendem a ser
diferentes de acordo com o setor e o nível de organização. “Talvez eles
sejam mais impactados por não terem uma gestão profissional e, até por
isso, o Governo precisa auxiliar de alguma forma.”
A experiência
se soma a outras iniciativas no setor que buscam equilibrar
funcionamento contínuo com jornadas menos extensas, um movimento que
começa a redesenhar a dinâmica do trabalho nesses setores. “É sempre bom
lembrar que as pessoas de folga costumam gastar mais no comércio. É um
dia a mais para ir ao salão de beleza, para ir a um restaurante, para ir
ao comércio fazer compras”, complementa o empresário.
Como empresas adotam a escala 4×3 e 5×2 no atendimento
A
adoção de jornadas reduzidas no comércio não segue um único modelo.
Enquanto parte dos negócios migra para o 5×2, outros avançam para
formatos como o 4×3, com três dias de folga por semana. Em comum, está a
necessidade de reorganizar equipes e turnos para manter o funcionamento
diário.
Em São Paulo, a empresária Isabela Raposeiras, dona da cafeteria Coffee Lab e escola de cafés, decidiu avançar além do 5×2 e implementar a escala 4×3 nas lojas em julho de 2025.
A
mudança partiu de uma decisão de gestão e de experiência própria. Após
anos trabalhando sob regime 6×1, ela optou por não replicar o modelo na
empresa.
“Nunca
fomos 6×1, jamais seria. Todos os meus empregos CLT foram 6×1 e jamais
quis impor esse horror e opressão aos meus funcionários”, diz a
empresária.
Hoje, as unidades
funcionam todos os dias, com equipes em escala rotativa e ao menos duas
folgas consecutivas. Áreas internas, como escritório e torrefação, ainda
operam em 5×2, mas com migração em curso para o 4×3.
Segundo ela,
a motivação principal foi reduzir o desgaste de quem atua diretamente
com o público. “Atender o consumidor é uma atividade exigente. A ideia
foi garantir mais tempo de descanso para melhorar a qualidade do
trabalho”, afirma. A empresária diz que, após ajustes nos processos, a
operação absorveu a mudança sem perda de eficiência.
Os efeitos,
relata, apareceram na rotina e nos resultados. A equipe passou a
apresentar menos erros e maior estabilidade, enquanto o faturamento
cresceu ao longo do ano. Para ela, o modelo exige revisão de processos e
gestão mais detalhada, mas pode ser adotado em diferentes tipos de
negócio.
Em outra frente, redes maiores também testam mudanças na jornada. O restaurante Gurumê,
com unidades no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, iniciou, em junho
de 2025, a implementação da escala 5×2 em parte das unidades, com base
em um redesenho da operação. A proposta parte de um mapeamento da
demanda por turno e por horário, ajustando o número de funcionários à
necessidade real.
“Nosso
objetivo é aumentar a retenção e a performance, criando um equilíbrio
entre vida pessoal e profissional para todas as funções do restaurante.
Isso já se reflete na experiência do cliente”, afirma o sócio-fundador
Jerônimo Bocayuva. A estratégia também responde à dificuldade de
contratação e retenção em funções que exigem treinamento.
A
rede iniciou o projeto em uma unidade piloto e ampliou gradualmente o
modelo, sem aumento do quadro de funcionários. A avaliação é que a
mudança pode melhorar a retenção e a experiência do cliente, embora o
formato não seja necessariamente replicável em operações menores, que
têm menos margem para ajustes.”Por isso, é preciso um alinhamento em
torno da necessidade de se evitar qualquer tipo de imposição ao
empreendedor que não venha acompanhado de contrapartidas capazes de
preservar a sustentabilidade das empresas e os empregos que dependem do
segmento”, pontua Jerônimo.
Produtividade x redução da jornada
A
relação entre menos horas de trabalho e desempenho das empresas não é
automática e depende de como a mudança é implementada. Segundo a
economista Patrícia Tendolini, mestre em Administração e coordenadora
dos curso de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), os efeitos variam
conforme o setor, o porte da empresa e a capacidade de reorganizar
processos.
Em atividades com maior uso de tecnologia, gestão por
metas e menor dependência de presença contínua, a redução da jornada
pode vir acompanhada de ganhos de produtividade. Já em setores
intensivos em mão de obra presencial e com necessidade de cobertura
constante, como parte do segmento de consumo e serviços, o impacto tende
a ser mais limitado.
Estudos recentes apontam que não há relação
direta entre redução da jornada e queda da atividade econômica.
Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgado em
fevereiro de 2026, indica que, com a redução para 40 horas semanais e
manutenção da remuneração, o custo médio do trabalho celetista subiria
7,84%. Ainda assim, ao considerar o peso da mão de obra no custo
operacional total, o impacto agregado em setores como indústria e
comércio ficaria abaixo de 1%.
Os economistas afirmam ainda que
experiências internacionais, como testes no Reino Unido, indicam
manutenção da produtividade, melhora no bem-estar e redução da
rotatividade. Para Nelson Marconi, economista da FGV EAESP, parte desse
efeito passa pelo comportamento do trabalhador. Segundo ele, isso pode
se refletir no desempenho, especialmente quando combinado a mudanças na
organização do trabalho.
Marconi ressalta, no entanto, que
produtividade não depende apenas de esforço individual. O ganho tende a
vir de investimento em tecnologia, reorganização das jornadas e melhor
distribuição das equipes. Em setores de serviços, ferramentas digitais e
automação podem ajudar a sustentar a redução da carga horária.
Além
dos efeitos econômicos, especialistas apontam impactos sociais. A
redução da jornada pode melhorar a qualidade de vida, reduzir
desigualdades e, no longo prazo, gerar ganhos indiretos para empresas e
para o mercado de trabalho.
“A
avaliação não deve se restringir ao desempenho empresarial no curto
prazo. Deve considerar impactos mais amplos, como melhora na qualidade
de vida, maior disponibilidade de tempo para atividades de cuidado e
potenciais efeitos positivos sobre a saúde da população”, diz Tendolini.
Ainda
assim, a sustentabilidade desses efeitos depende de adaptação gradual e
das características de cada setor, afirmam os especialistas.
Desafios para implementação
Se
por um lado experiências práticas e estudos indicam possíveis ganhos, a
implementação de jornadas menores envolve uma série de entraves
operacionais e econômicos. Para Tendolini, da PUCPR, o debate vai além
da simples redução de horas trabalhadas.
Ela aponta que o primeiro
desafio é a definição do modelo. Migrar para 40 horas semanais em
escala 5×2 exige adaptações diferentes de um eventual avanço para 36
horas em 4×3. A diversidade entre setores também pesa: comércio,
indústria e serviços têm estruturas e demandas distintas, o que
dificulta a adoção de uma regra única.
Outro ponto importante,
segundo a economista, é a adaptação das pequenas empresas, que têm menor
margem financeira e mais dificuldade para recompor equipes. A isso se
somam questões como negociação coletiva, segurança jurídica e a
necessidade de compatibilizar diferentes formatos de jornada, como banco
de horas, turnos e horas extras.
Tendolini também destaca a
importância de uma transição gradual e previsível. Para ela, mudanças
desse porte exigem tempo para que empresas invistam em gestão,
tecnologia e reorganização de processos. “Não é apenas sobre trabalhar
menos, mas sobre como reorganizar produção, atendimento e
competitividade sem transferir todo o custo para emprego, preços ou
informalidade”, afirma.
Representantes do setor de bares e
restaurantes, por outro lado, veem riscos mais imediatos. Para Paulo
Solmucci, presidente executivo da Associação Brasileira de Bares e
Restaurantes (Abrasel), a redução da jornada pode ampliar custos e
agravar a escassez de mão de obra, especialmente em funções
especializadas.
Ele afirma que o aumento de custos pode afetar
preços e consumo, sobretudo em regiões de renda mais baixa, além de
pressionar a organização das equipes.
Segundo
Solmucci, trabalhadores que dependem de comissões, como garçons, também
poderiam ter perda de renda com menos dias trabalhados. “A gorjeta de
um dia a menos de trabalho, especialmente nos finais de semana, será
penosa, pois ela chega a representar 2/3 do ganho total”, diz.
Na
avaliação do setor, mudanças na jornada sem mecanismos de compensação
podem levar a ajustes na operação e na distribuição da mão de obra. O
impacto, segundo ele, tende a variar conforme o perfil do negócio e o
público atendido.
Saúde mental em xeque
Além dos efeitos
econômicos, a discussão sobre a redução da jornada tem colocado em
evidência impactos diretos na saúde dos trabalhadores. Para Marconi, a
diminuição dos dias trabalhados tende a influenciar o comportamento no
trabalho.
Segundo ele, com mais tempo livre, o trabalhador fica
mais disposto e engajado, o que pode se refletir no desempenho ao longo
do tempo. Esse efeito não é imediato, mas resultado de uma reorganização
da jornada dentro das empresas. “É um ganho que se sustenta porque vem
de um rearranjo da forma de trabalhar”, afirma.
Marconi também
aponta que jornadas extensas influenciam a dinâmica do mercado de
trabalho. Modelos como o 6×1, diz, dificultam a atração de trabalhadores
para vagas formais e podem estimular a informalidade. A redução da
jornada, nesse sentido, tende a tornar esses postos mais atrativos.
Do
ponto de vista da saúde, os efeitos são mais diretos. A médica do
trabalho Letícia Mameri, doutoranda em Bioética pela Universidade do
Porto (Portugal), explica que jornadas prolongadas, com pouco tempo de
descanso, estão associadas ao aumento do risco de exaustão física e
mental. Segundo ela, trabalhar seis dias consecutivos com apenas um de
descanso eleva o risco de fadiga crônica e compromete o equilíbrio entre
vida pessoal e profissional.
A especialista afirma ainda que
estudos também associam esse tipo de rotina a maior incidência de
ansiedade, depressão, distúrbios do sono e doenças cardiovasculares. Em
contrapartida, escalas mais flexíveis tendem a reduzir o estresse,
melhorar a qualidade de vida e contribuir para a produtividade ao longo
do tempo. “Escalas mais flexíveis trazem ganhos claros: melhor saúde
física e mental, com redução do estresse. Maior produtividade
sustentada, já que trabalhadores descansados rendem mais”, diz.