Em
2023 a varejista chinesa Shein anunciava um investimento milionário no
Brasil: US$ 150 milhões em parcerias com dois mil fabricantes locais,
criando 100.000 empregos no setor no Brasil até 2026.
Em
2024 a produção em território nacional ganhou ainda mais urgência para a
plataforma, com a criação da “taxa das blusinhas”, que acabou com a
isenção de impostos para compras até US$ 50 em sites internacionais,
criando uma taxa de 20%.
Mais
de dois anos se passaram e a realidade está bem distante do sonho
vendido pela companhia: com prazos muito apertados, preços mais baixos
do que os praticados pelo varejo nacional e grandes desafios de
logística, os ambiciosos planos da gigante chinesa estão patinando no
país.
A
reportagem da Reuters ouviu representantes da indústria e fabricantes
que trabalharam na operação da Shein no país. “Uma coisa é trabalhar no
Brasil, outra é trabalhar na China. O Brasil tem regramento e normas
muito diferentes”, disse Fernando Pimentel, diretor-superintendente da
Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), que
representa mais de 25.000 empresas em todo o Brasil.
Dois
executivos familiarizados com a estratégia da Shein no Brasil, que
pediram para não ser identificados, confirmaram que a produção local
ficou aquém das metas originais da empresa, sem fornecer números.
Dificuldade em atender demanda
Seis
proprietários de fábricas entrevistados pela Reuters disseram que
encerraram suas parcerias depois que a Shein exigiu cortes acentuados de
preços e prazos mais apertados que consideraram impossíveis de cumprir.
“Para
chegar ao preço que eles queriam, teríamos que trabalhar com um outro
tipo de tecido”, disse Januncio Nóbrega de Azevedo, proprietário da
Nobre Confecções, uma empresa de 59 funcionários que fazia parte de um
consórcio de confecções no Nordeste atendendo pedidos da Shein no
segundo semestre de 2023.
Depois
de produzir para a Shein por seis meses, ele ficou com excesso de
material que teve que vender no mercado local por um valor não
divulgado.
Por
outro lado, a reportagem também ouviu Marco Britto, proprietário da GB
Confecções, no Espírito Santo, que segue produzindo para a Shein e
elogiou a agilidade no pagamento da plataforma, que paga em 30 dias ao
invés dos 90 dias de outras companhias do setor. “Eles são muito menos
burocráticos, é fácil trabalhar com a Shein”, disse.
PMEs operam com margens apertadas
Quatro dos seis ex-fornecedores da Shein entrevistados pela Reuters operam em pequenas cidades focadas na indústria têxtil.
“Tínhamos
expectativas altas”, disse José Medeiros de Araújo, proprietário da
Zaja, uma fábrica de confecções em Cerro Corá, cidade do Rio Grande do
Norte com pouco mais de 11.000 habitantes.
Depois
de produzir um pedido inicial para a Shein em meados de 2023, o
empresário disse que a varejista repentinamente exigiu prazos de entrega
mais rápidos, reduziu seu número total de pedidos e exigiu cortes de
preços de até 30%.
Em um
caso, foi solicitado que ele reduzisse o preço de atacado de uma saia de
R$ 50 para R$ 38, e de uma jaqueta de R$ 65 para R$ 45.
“O plano era crescer”, disse ele. “Mas, para nós, aqui no Nordeste, era inviável”.
“Preço
baixo e prazo curto só funcionam em cadeias maduras, previsíveis e
capitalizadas. No Brasil, muitas PMEs operam com margens apertadas e
pouquíssima gordura financeira para absorver riscos. Quando o grande
player ignora isso, ele não torna o fornecedor mais eficiente, ele
simplesmente torna a operação insustentável. Velocidade sem base não
gera competitividade; gera colapso nessas empresas”, explicou Marcos
Freitas, CEO da Seja AP e especialista em evolução empresarial.
A Shein não quis comentar as declarações.
Progresso mais lento
Em
resposta à reportagem, a Shein admitiu que a entrada no mercado
brasileiro não foi como o esperado. “A produção no Brasil exigiu tempo
para amadurecer, e logo diferenças na infraestrutura empresarial e
industrial se tornaram aparentes”, disse a empresa. “Como tal, o
progresso tem sido mais lento e desafiador.”
O
resultado foi uma mudança de estratégia da companhia, que agora está
adotando uma abordagem mais “seletiva” para aprofundar parcerias com “as
fábricas mais capazes”.
A
Shein se recusou a dizer quantos fornecedores locais tem atualmente, mas
acrescentou que seu marketplace online no Brasil “apoia mais de 45.000
empreendedores e vendedores locais, reforçando o Brasil como um dos
mercados mais dinâmicos da empresa em todo o mundo”.