A
adoção de cotas e tarifas adicionais pela China sobre a importação de
carne bovina, que passou a vigorar em 1º de janeiro, foi uma decisão
difícil, tomada sob forte pressão interna de produtores e governos
provinciais, e não deve ser interpretada como uma ação direcionada
especificamente contra o Brasil.
A avaliação é da sócia-diretora da Vallya Agro, Larissa Wachholz, especialista em China, em entrevista ao Broadcast Agro.
Segundo ela, a medida reflete um processo complexo de acomodação de
interesses dentro do próprio país asiático, diante do avanço das
importações e da insatisfação de segmentos da cadeia produtiva local.
O
governo chinês anunciou no último dia de 2025 a adoção de medidas de
salvaguarda contra a carne bovina importada, com cotas por país e tarifa
adicional de 55% sobre os volumes que excederem esses limites. As
regras valerão até 31 de dezembro de 2028. O Brasil, principal
fornecedor da proteína ao mercado chinês, terá uma cota inicial de 1,106
milhão de toneladas sem tarifa extra em 2026, volume inferior ao já
exportado em 2025, quando os embarques somaram 1,499 milhão de toneladas
até novembro. Outros grandes exportadores, como Argentina, Uruguai,
Austrália, Estados Unidos e Nova Zelândia, também foram atingidos pelas
restrições.
Na avaliação de Larissa, a salvaguarda não é uma
resposta ao Brasil especificamente, mas aos efeitos do crescimento das
importações sobre os produtores chineses, sobretudo em províncias mais
dependentes da produção local. “Os principais exportadores de carne
bovina do mundo estão sendo afetados de forma conjunta. Isso é, na minha
visão, uma reação à demanda dos produtores chineses, especialmente das
províncias, com apoio das autoridades locais”, afirmou.
Ela
destaca que o fato de o Brasil ser hoje o maior exportador mundial de
carne bovina evidencia a competitividade do País, mas também amplia sua
exposição a esse tipo de instrumento comercial. “Somos extremamente
competitivos. Pensando no médio e longo prazo, a questão é como lidar
com esse tipo de situação”, disse.
Para a especialista, uma das
principais respostas estratégicas passa pelo adensamento da relação
bilateral, indo além da simples troca comercial. Larissa defende o
aumento de investimentos cruzados, com empresas brasileiras ampliando
sua presença na China e companhias chinesas investindo mais no Brasil,
sobretudo em projetos voltados à agregação de valor. “Parcerias com
investimento direto podem permitir o desenvolvimento de produtos que
cheguem à China com maior valor agregado, dentro do padrão de gosto e
preferência do consumidor chinês”, afirmou.
Segundo
ela, esse processo tende a ser mais eficiente quando há participação
direta de parceiros chineses nos negócios. “Ter sócios chineses
inseridos no negócio facilita muito a adaptação ao mercado local e à sua
complexidade”, disse.
A executiva também ressaltou que, apesar de
2025 ter sido um ano marcado por pressões tarifárias no comércio global
– intensificadas por mudanças na política comercial dos Estados Unidos
-, a China não parecia inclinada, inicialmente, a adotar medidas
protecionistas. “Não era um bom momento para isso. Por isso, tudo indica
que foi um processo interno difícil, de tentativa de atender diferentes
grupos de interesse”, avaliou.
Ela
lembrou que, mesmo com a investigação de salvaguarda em curso, as
importações chinesas de carne bovina continuaram crescendo ao longo do
ano. Para a especialista, esse movimento demonstra a força da demanda
interna e o interesse dos importadores em manter o abastecimento. “Essas
importações atendem cortes e segmentos que os produtores chineses não
conseguem suprir plenamente e respondem a uma necessidade real dos
consumidores”, explicou.
Na visão da sócia-diretora da Vallya
Agro, o Brasil tem condições de lidar com o novo cenário e a medida não
deve comprometer de forma estrutural a relação bilateral. “O Brasil é
altamente competitivo, e os demais exportadores também estarão sujeitos
às mesmas regras. Não vejo isso como algo que vá prejudicar enormemente
nossa relação com a China”, disse.
Ela
destacou ainda a importância da presença institucional brasileira no
país asiático, citando a abertura de escritórios da Associação
Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e da Associação
Brasileira de Proteína Animal (ABPA) na China. “É fundamental estar
presente localmente para entender o consumidor, o mercado e as
complexidades das negociações internas chinesas. Isso ajuda a amenizar
os potenciais efeitos de medidas como essa sobre as exportações”,
concluiu.