
A primeira-ministra da Escócia e líder do Partido Nacional Escocês (SNP), Nicola Sturgeon, fala aos delegados na conferência anual de seu partido em 10 de outubro de 2022 em Aberdeen - AFP
O cenário político do Reino Unido entrou em ebulição nesta segunda-feira (14), quando os líderes da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales assinaram um memorando de entendimento. O documento insta o governo britânico a se preparar para uma mudança constitucional, defendendo o direito à autodeterminação que pode levar a referendos de independência para as nações constituintes.
A iniciativa ocorre após o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, declarar no sábado (12) que uma Irlanda unificada seria “fantástica”, reacendendo o debate sobre a soberania regional.
O que aconteceu
- Líderes da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales assinam declaração conjunta exigindo direito à autodeterminação do Reino Unido.
- O movimento se fortalece após as eleições regionais e, pela primeira vez, todos os primeiros-ministros das “nações celtas” são favoráveis à independência.
- O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, rejeita os debates constitucionais, focando na crise do custo de vida.
A declaração conjunta foi formalizada por Rhun ap Iorwerth, primeiro-ministro do País de Gales e líder do partido Plaid Cymru; John Swinney, primeiro-ministro da Escócia e líder do Partido Nacional Escocês (SNP); e Michelle O”Neill, primeira-ministra da Irlanda do Norte e vice-presidente do Sinn Féin.
Para esses políticos nacionalistas, cujos partidos obtiveram um fortalecimento significativo nas eleições de maio, o cenário político atual está em constante transformação. Eles argumentam que suas nações “têm o direito de determinar seu próprio futuro, por meios democráticos e de acordo com os desejos de seu povo”.
Por que o movimento separatista ganhou força agora?
O movimento pela autodeterminação ganhou um impulso inédito com os resultados eleitorais recentes. Pela primeira vez desde o início da devolução de poderes, em 1997, as três “nações celtas” – Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales – são governadas por primeiros-ministros abertamente favoráveis a se desligar do Reino Unido.
O acordo conjunto não poupa críticas ao sistema central de poder, afirmando que “o tempo de Westminster [o sistema parlamentarista do governo britânico] está chegando ao fim”. Após a assinatura do memorando em Cardiff, o primeiro-ministro escocês John Swinney foi ainda mais enfático, sugerindo que o atual premier Andy Burnham será o último primeiro-ministro de um Reino Unido como o conhecemos.
Swinney expressou confiança na vontade popular escocesa. “O povo da Escócia, se tiver a escolha da independência em um referendo, aceitará essa escolha, porque todas as informações que vemos diante de nós sobre as tendências nas pesquisas de opinião indicam que essa é a preferência do povo escocês”, declarou o líder do SNP.
Na Irlanda do Norte, Michelle O”Neill destacou como as recentes declarações de Donald Trump, em apoio à unidade irlandesa, mantêm o debate “muito vivo”. “Acho que isso nos mostra onde estamos, em que ponto de vista está o pensamento sobre qual é o grande prêmio aqui para o nosso povo, e o grande prêmio aqui é a unificação. (…) É um novo começo em uma nova Irlanda”, afirmou O”Neill, vice-presidente do Sinn Féin.
Qual a posição do governo britânico?
Após a reunião dos líderes nacionalistas, Downing Street, sede do governo do Reino Unido, reagiu à iniciativa. O primeiro-ministro Andy Burnham reafirmou sua forte crença na União e seu foco em aliviar a crise do custo de vida para famílias em todo o país, em vez de se engajar em “debates constitucionais”.
Um porta-voz oficial de Burnham reiterou que o primeiro-ministro “está comprometido em promover mudanças em todas as quatro nações do Reino Unido e acredita fortemente na União”.
O grupo que assinou o memorando, que se reuniu na condição de líderes partidários e não como autoridades governamentais, defende que existe um caminho melhor. Eles propõem que suas nações trabalhem juntas como iguais, compartilhando ideias e expertise, e construindo relacionamentos baseados no respeito mútuo e em interesses comuns.
“O Reino Unido está em seu melhor quando as pessoas se unem em torno de nossos valores compartilhados e da resolução de problemas, em vez da divisão, e o Primeiro-Ministro continuará a aliviar as pressões sobre as finanças familiares e a proporcionar maior segurança econômica, em vez de participar de debates constitucionais ou novos referendos”, concluiu o comunicado do governo britânico.
A última vez que um referendo sobre independência ocorreu no Reino Unido foi em setembro de 2014, na Escócia. Naquela ocasião, a proposta de separação foi rejeitada, com 45% dos votos a favor e 55% contra a independência.
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