Péter
Magyar promete romper legado antiliberal e se aproximar das pautas da
União Europeia. Aliados regionais, República Tcheca e Eslováquia
calculam impactos políticos e geopolíticos.Péter Magyar conquistou os
eleitores húngaros com o discurso de combate à corrupção e crescimento
da economia, mas se fincou no cenário internacional com a promessa de
reverter o sistema antiliberal e a orientação anti-União Europeia da
Hungria nos 16 anos do governo de Viktor Orbán.
O partido de
centro-direita Tisza, liderado, por Magyar, acabou obtendo dois terços
das cadeiras do parlamento nas eleições de 12 de abril, o que sinaliza,
num primeiro momento, caminhos abertos para o novo governo emplacar
reformas e se descolar da órbita de Moscou.
Os
aliados mais próximos de Orbán, contudo, ainda não deram mostras
contundentes de que irão acompanhar o movimento, caso ele se concretize.
Braço-direito
de Orbán, o primeiro-ministro Robert Fico, da Eslováquia, conhecido por
divulgar longas mensagens em vídeo e extensos comunicados à imprensa,
manifestou-se de forma concisa, por meio de um e-mail para jornalistas.
“Respeito plenamente a decisão dos eleitores húngaros”, disse,
acrescentando estar pronto para uma “cooperação intensa” com o novo
governo em Budapeste.
Líderes nacionalistas e populistas
Andrej
Babis, primeiro-ministro da República Tcheca, conhecido como o “Trump
tcheco” pelas semelhanças ideológica e de conta bancária, fez questão de
mencionar seu velho aliado em sua mensagem de felicitações para Magyar.
“Enfrentar
um adversário tão forte como Viktor Orbán nunca foi fácil, mas ele
conquistou a confiança da maioria dos húngaros e carrega grandes
esperanças e expectativas”, escreveu Babis no X. “Ele não deve
decepcionar.”
Babis fundou, ao lado de Orbán, o grupo eurocético Patriotas pela Europa, em 2024.
Tanto
Babis quanto Fico acompanharam a posição de Orbán de usar seu poder de
veto na União Europeia para bloquear ajuda à Ucrânia, que se defende dos
ataques massivos russos desde 2022.
As respostas cuidadosamente
calibradas de Bratislava e Praga refletem tanto a magnitude da mudança
política em Budapeste quanto a incerteza que agora paira sobre a Europa
Central, onde Orbán há muito tempo era a figura central de uma aliança
informal de líderes nacionalistas e populistas.
Ameaça para Fico
Fico afirmou que as prioridades da Eslováquia não se alteram com a derrocada de Orbán.
Entre
elas estão o renascimento do Grupo de Visegrad – uma aliança informal
entre a República Tcheca, a Hungria, a Polônia e a Eslováquia. Ele citou
ainda a proteção dos interesses energéticos comuns e a restauração do
fornecimento de petróleo russo à Eslováquia e à Hungria por meio do
oleoduto Druzhba.
Esse fornecimento está suspenso desde janeiro,
após o que Kiev descreveu como ataques de drones e mísseis russos a um
trecho do oleoduto na Ucrânia. O presidente ucraniano, Volodimir
Zelenski, afirmou recentemente que os reparos podem começar nas próximas
semanas.
“A maior ameaça para a Rússia é uma Ucrânia livre,
independente e democrática”, disse Martin Poliacik, ex-deputado eslovaco
filiado ao partido de oposição Eslováquia Progressista. “Por extensão, a
maior ameaça para Fico é uma Hungria pró-europeia, porque os eslovacos
viriam que isso é possível”, disse Poliacik à DW.
A derrota de
Orbán também priva Fico de um parceiro-chave no cenário europeu. O líder
húngaro era visto como um interlocutor tanto de Moscou quanto de
Washington.
Fico agora é o homem de Putin na Europa?
Alguns
acreditam agora que a Rússia, pelo menos, voltará toda a sua atenção
para a Eslováquia. Poliacik, no entanto, expressou dúvidas de que Fico
pudesse assumir o lugar de Orbán como o homem de Putin na Europa. “Ele
está cansado”, disse ele, acrescentando que Fico também carece de uma
equipe forte de executores capazes e combativos, ao contrário de Orbán.
O
líder eslovaco havia ameaçado bloquear o empréstimo de 90 bilhões de
euros da UE para Kiev caso Orbán fosse derrotado, mas alguns duvidam que
ele esteja realmente pronto para desafiar o resto da UE sozinho.
Eleição de Magyar trará estabilidade?
Mesmo
com Orbán fora do poder, analistas alertam que a mudança na Hungria
pode não levar a uma estabilidade de longo prazo. “Acho que é realmente
difícil permanecer no poder na Europa neste momento”, disse Poliacik.
“Todo status quo é difícil de manter. É como um pêndulo oscilando.”
Essa volatilidade é bem compreendida em Praga.
Andrej
Babis voltou ao poder no final de 2025 à frente de uma coalizão que
inclui seu movimento Ano, o partido conservador Motoristas por Si Mesmos
e o SPD, de ultradireita e anti-imigração.
Críticos argumentam
que o governo já está buscando reformular elementos-chave do sistema
democrático liberal da República Tcheca, incluindo a mídia pública e o
papel da sociedade civil, seguindo à risca o manual de Orbán. Os
apoiadores – assim como o próprio Babis – rejeitam essa definição.
Desafios para Babis
Analistas
apontam que há limites estruturais ao que Babis pode alcançar no
contexto tcheco. “Babis percebeu durante seu primeiro mandato como
primeiro-ministro que não pode controlar o país da mesma forma que
Orbán”, disse o comentarista político tcheco Jindrich Sidlo.
“Orbán
governou por muito mais tempo, teve resultados eleitorais muito
diferentes, não há Senado na Hungria, e ele conseguiu moldar o sistema
eleitoral a seu favor”, disse ele à DW.
“Isso é algo que Babis
talvez tenha invejado, mas acho que ele agora entende que não é realista
na República Tcheca. Até mesmo mudar a lei eleitoral requer acordo
entre a Câmara e o Senado – não dá para forçar a aprovação”, disse ele.
“Portanto, Babis é, nesse sentido, uma versão muito mais fraca de
Orbán.”
Nova ordem regional
Além da política nacional, a
derrota de Orbán também pode afetar uma rede mais ampla de alianças
construída ao longo da última década.
Andras Lederer, do Comitê
Húngaro de Helsinque, argumenta que a Hungria desempenhou um papel
central no apoio a atores com ideais semelhantes em toda a Europa.
“Orbán ajudou seus aliados política e financeiramente”, disse ele.
Esse
apoio incluiu financiamento para think tanks, grupos de defesa e
iniciativas de mídia alinhados com uma visão mais soberanista da Europa,
segundo o especialista. “Com Orbán fora do poder, essa rede
provavelmente diminuirá significativamente ou até desaparecerá”,
acrescentou Lederer.
Especula-se que o novo cenário político na
Europa Central pode impactar também os modelos de cooperação regional,
como o grupo de Visegrad, praticamente inativo desde que a invasão em
grande escala da Rússia na Ucrânia expôs profundas divisões entre seus
membros.
A Polônia e a República Tcheca têm sido fortes apoiadoras
de Kiev. A Hungria, sob Orbán, e a Eslováquia, sob Fico, assumiram
posições muito mais hostis.
Babis sinalizou interesse em reviver o
grupo de Visegrad, e seu governo já tomou medidas para melhorar as
relações com Bratislava.
Mas sem Orbán, com um novo líder húngaro
buscando melhorar os laços com Bruxelas, e a Polônia sob um governo
liberal-conservador aparentemente desinteressado no formato Visengrad –
pelo menos até novas eleições em Varsóvia –, o bloco parece mais
moribundo do que nunca.