quarta-feira, 4 de março de 2026

Dólar acompanha exterior e fecha em baixa de 0,86%, a R$ 5,21

 

Depois de subir quase 2% na véspera, o dólar fechou a quarta-feira em queda ante o real, em sintonia com o sinal negativo da moeda norte-americana ante outras divisas no exterior em dia de maior apetite global por ativos de risco, ainda que um desfecho para a guerra no Oriente Médio pareça distante.

O dólar à vista encerrou a sessão com baixa de 0,86%, aos R$5,2184. No ano, a divisa acumula agora queda de 4,92%.

+Veja cotações na íntegra

Às 17h05, o dólar futuro para abril — o mais líquido no mercado brasileiro — cedia 1,18% na B3, aos R$5,2560.

A quarta-feira foi marcada pela queda firme do dólar ante divisas de países emergentes como o peso chileno, o rand sul-africano, o peso mexicano e o real.

O movimento ocorreu em paralelo ao avanço dos principais índices de ações na Europa e nos Estados Unidos, com os ativos de risco recuperando parte das perdas recentes. O petróleo, que disparou nas últimas sessões, oscilava perto da estabilidade no fim da tarde.

“A estabilização dos preços do petróleo, depois da forte alta provocada pela escalada das tensões no Oriente Médio, ajudou a aliviar parte da pressão sobre o dólar”, disse Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, em comentário escrito.

“Com isso, investidores passaram a devolver prêmios incorporados na divisa americana em um dia típico (de) ajuste técnico.”

Nesta quarta-feira, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que o país está vencendo a guerra e que pode lutar pelo tempo que for necessário.

Do lado iraniano, reportagem da Reuters informou que a Guarda Revolucionária reforçou seu controle sobre as decisões no cenário de guerra, impulsionando a estratégia linha-dura que está por trás da campanha de drones e mísseis de Teerã em toda a região.

Apesar de as operações militares de EUA e Israel contra o Irã seguirem em curso, os investidores também se apegaram à notícia de que agentes iranianos entraram em contato secretamente com os norte-americanos para buscar negociações para encerrar o conflito — mas as autoridades norte-americanas seguiram céticas quanto à possibilidade de o governo Trump ou o Irã estarem preparados para uma redução do conflito no curto prazo.

Às 17h12, o índice do dólar — que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas — caía 0,32%, a 98,766.

No noticiário brasileiro, sem efeitos sobre o câmbio, o destaque foi a nova fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que levou à prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e também teve como alvos o ex-diretor do Banco Central Paulo Souza e o servidor da autarquia Bellini Santana. Souza foi afastado do BC e precisará usar tornozeleira eletrônica.

No fim da manhã, o Banco Central vendeu 50.000 contratos de swap cambial tradicional para rolagem do vencimento de 1º de abril. À tarde, a instituição informou que o Brasil teve fluxo cambial total positivo de US$5,429 bilhões em fevereiro — antes do início da guerra no Oriente Médio.

Entidades de imprensa repudiam ameaças de Vorcaro contra Lauro Jardim

 

A Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o grupo Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgaram nesta quarta-feira, 4, notas de repúdio contra as ameaças feitas pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, ao jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Em troca de mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF), Vorcaro teria solicitado a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas e ao monitoramento de pessoas, que o jornalista fosse agredido em um assalto forjado.

“Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, disse o banqueiro.

Em nota, a ANJ manifestou solidariedade ao veículo e ao jornalista e classificou o episódio como um ataque à liberdade de expressão. A entidade afirmou que a tentativa de intimidar um profissional da imprensa por meio de violência é incompatível com o estado de direito e comparou o método a práticas mafiosas.

A associação também elogiou a atuação da Polícia Federal pela descoberta das ameaças e destacou as providências adotadas pelo ministro André Mendonça para garantir o livre exercício da atividade jornalística.

A Fenaj, em conjunto com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ), afirmou que ameaças e tentativas de intimidação contra jornalistas fazem parte de um ambiente de hostilidade constante contra a imprensa no país.

A entidade classificou o caso como um ataque direto à liberdade de imprensa, ao direito à informação e aos pilares da democracia.

A Fenaj também cobrou a apuração rigorosa das denúncias e a responsabilização dos envolvidos, além da adoção de medidas efetivas para proteger profissionais da comunicação. Segundo a entidade, atacar um jornalista significa atingir toda a sociedade, que depende de uma imprensa livre, crítica e independente.

Já o grupo Repórteres Sem Fronteiras (RSF) afirmou que trata-se de tentativa de intimidar e calar o jornalismo. Para a entidade, o episódio é pedagógico sobre como comportamentos tipicamente mafiosos operam quando pessoas influentes e poderosas são confrontadas pelo jornalismo de interesse público.

O RSF pediu o esclarecimento completo do alcance desse planejamento e a responsabilização de todos os envolvidos e disse que jornalistas no Brasil convivem regularmente com tentativas de intimidação e silenciamento. (Leia todas as íntegras abaixo.)

Prisão de Vorcaro

A PF prendeu Vorcaro nesta quarta-feira, 4, na terceira fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de irregularidades na gestão do Banco Master.

Ele foi preso em sua residência em São Paulo no início da manhã e encaminhado à Superintendência da PF na capital paulista. Também foram cumpridos outros três mandados de prisão e 15 mandados de busca e apreensão.

A defesa de Vorcaro afirmou que o banqueiro colaborou “de forma transparente com as investigações desde o início e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça”.

Mourão, destinatário das mensagens com as ameaças, também foi preso, além do policial aposentado Marilson Silva.

A Polícia Federal afirmou que o banqueiro Daniel Vorcaro faz parte de uma “organização criminosa” formada por ‘profissionais do crime”, chamada de “A Turma”, que utilizaria violência e coação como uma espécie de “milícia privada”.

Segundo as investigações, o esquema criminoso ligado ao Banco Master tinha quatro núcleos de atuação.

Havia um “núcleo financeiro”, responsável pela estruturação das fraudes contra o sistema financeiro; um “núcleo de corrupção institucional’, voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central; um ‘núcleo de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro”, com utilização de empresas interpostas; e um ‘núcleo de intimidação e obstrução de Justiça’, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.

Esta foi a primeira ação autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, depois que assumiu a relatoria do caso.

O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria das investigações no dia 12 deste mês após uma reunião dos dez ministros da Corte.

O encontro ocorreu após a PF enviar ao tribunal um documento em que lista menções ao ministro no celular de Daniel Vorcaro e também conversas entre o banqueiro e o magistrado, que depois assumiu ter recebido dinheiro de fundo ligado ao Master, mas negou relações com Vorcaro.

Não houve declaração de impedimento ou suspeição do ministro. Como Mendonça integra a Segunda Turma do STF, assim como Toffoli, ele continua apto a votar no processo em caso de julgamento.

Leia as notas na íntegra

ANJ

“A Associação Nacional de Jornais (ANJ) manifesta sua solidariedade ao jornal O Globo e a seu colunista Lauro Jardim e expressa veemente repúdio às intenções criminosas que, segundo decisão do ministro André Mendonça, tinham por objetivo “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”. A determinação do ministro baseou-se na descoberta de um plano do ex-banqueiro Daniel Vorcaro de simular um assalto para “prejudicar violentamente” o jornalista.

A tentativa de intimidar um profissional de imprensa por meio de violência constitui ataque inaceitável à liberdade de expressão. Métodos dessa natureza, próprios de práticas mafiosas, são incompatíveis com o Estado de Direito e merecem a mais firme rejeição da sociedade brasileira.

A ANJ também cumprimenta a Polícia Federal pela descoberta das ameaças e o ministro André Mendonça pelas providências adotadas para salvaguardar o livre exercício da atividade jornalística.”

Fenaj

“A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) manifestam seu mais veemente repúdio às gravíssimas denúncias reveladas pelas investigações da Polícia Federal, que apontam a existência de um plano criminoso para intimidar e agredir o jornalista Lauro Jardim, colunista de O Globo e da Rádio CBN.

Segundo as apurações, o banqueiro Daniel Vorcaro teria articulado ações de monitoramento, perseguição e violência física com o objetivo explícito de calar um jornalista em razão do exercício de sua atividade profissional. Trata-se de um ataque direto à liberdade de imprensa, ao direito à informação e aos pilares fundamentais da democracia.

A FENAJ e o Sindicato reafirmam que qualquer tentativa de intimidação, ameaça ou violência contra jornalistas não é um fato isolado, mas parte de um ambiente de constante hostilidade contra a imprensa no Brasil. Atacar um jornalista é atacar toda a sociedade, que depende da informação livre, crítica e independente.

Exigimos a apuração rigorosa dos fatos, a responsabilização exemplar de todos os envolvidos e a adoção de medidas efetivas de proteção aos profissionais da comunicação. A FENAJ e o SJPMRJ se solidarizam com Lauro Jardim e com todos os jornalistas que, diariamente, seguem exercendo seu trabalho sob risco e pressão.

Não aceitaremos o silenciamento da imprensa. Sem jornalismo livre, não há democracia.”

RSF

“As conversas reveladas hoje [quarta-feira, 4], no âmbito das investigações sobre o caso do Banco Master, evidenciam que o empresário Daniel Vorcaro planejou uma agressão contra o colunista do O Globo, Lauro Jardim, um dos jornalistas mais reconhecidos do país, por se sentir incomodado com a cobertura da imprensa.

É uma clara tentativa de intimidar e calar o jornalismo. Para a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o episódio é pedagógico sobre como comportamentos tipicamente mafiosos operam quando pessoas influentes e poderosas são confrontadas pelo jornalismo de interesse público.

Felizmente, o caso veio à tona. Pedimos que a resposta da Justiça seja exemplar, com o esclarecimento completo do alcance desse planejamento, em que medida ele chegou a ser colocado em prática, e com a responsabilização de todos os envolvidos. Infelizmente, apesar das características que tornam este caso singular, ele não é um episódio isolado. Jornalistas no Brasil convivem regularmente com tentativas de intimidação e silenciamento por parte daqueles que querem manter atividades espúrias longe do escrutínio público.”

 

 

Projeto obriga criação de canal para denunciar violência contra mulher em universidades de SP

 

Um projeto aprovado pela Assembleia Legislativa obriga as universidades públicas e privadas do Estado de São Paulo a adotar um protocolo conjunto de combate à violência contra a mulher. Entre as medidas estão a criação de um canal específico para recebimento de denúncias, rede protetiva com o afastamento do agressor do convívio com a vítima, além de direitos acadêmicos, como abono de faltas. A proposta mira inclusive a violência virtual, com uso de redes sociais.

O projeto foi enviado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) que tem até o próximo dia 15 para sancionar ou vetar a medida. Se for sancionada, as universidades terão 90 dias para implementar as regras – há previsão de penalidades em caso de descumprimento.

As principais universidades estaduais dizem já possuir mecanismos para receber e apurar denúncias de violência de gênero. A reportagem entrou em contato com a entidade que representa as instituições particulares e ainda aguardava um retorno até a publicação deste texto.

Violência física, psicológica e sexual

O PL 196/25 estabelece regras para prevenção, acolhimento e punição de casos de violência no ambiente acadêmico. O projeto define a violência contra a mulher como toda e qualquer conduta, presencial ou virtual, que configure violência física, moral, patrimonial, psicológica ou sexual.

O novo PL amplia o alcance da Lei n.o 17.431/2021 que consolida a legislação estadual sobre proteção e defesa da mulher. O texto determina que o protocolo seja aplicado em espaços físicos e virtuais das instituições e alcance toda a comunidade universitária – gestores, professores, estudantes e funcionários, inclusive terceirizados.

O canal específico para recebimento de denúncias deve ter equipe capacitada e atuação imparcial, além da garantia de atendimento psicológico, jurídico e de saúde às vítimas. É obrigatória a inclusão de representante do centro acadêmico. O projeto também prevê medidas para evitar a revitimização e assegurar celeridade na apuração dos casos.

As universidades deverão ainda promover capacitações anuais, campanhas educativas e ampla divulgação dos canais de denúncia através da afixação de aviso, sob a forma de cartaz físico ou eletrônico, que informe os contatos dos órgãos de recepção.

As novas regras preveem medidas protetivas, como o afastamento do agressor do convívio com a vítima, além de direitos acadêmicos como abono de faltas e possibilidade de realização de atividades alternativas.

“Recentemente, vimos que um aluno foi afastado de uma universidade em Santos após mensagens com ameaça de estupro contra uma colega”, diz o deputado Thiago Auricchio (PL). “Os dados mais recentes revelam que estudantes, professoras e funcionárias têm sido vítimas de constrangimentos e agressões em universidades de todo o Brasil.”

Segundo ele, o protocolo passa a ser um instrumento que garante acolhimento qualificado às vítimas, apuração isenta dos fatos, adoção de medidas protetivas e desenvolvimento de ações informativas, enfrentando a questão de maneira direta.

Em caso de descumprimento, as universidades poderão sofrer penalidades previstas no Código de Defesa do Consumidor, sem prejuízo de outras sanções administrativas, civis e penais.

Principais universidades já adotam medidas

As principais universidades públicas estaduais ouvidas pelo Estadão dizem já ter políticas consistentes de combate à violência de gênero.

USP

A Universidade de São Paulo (USP) informou ter criado em 2025 o Sistema USP de Acolhimento, Registro e Responsabilização para Situações de Assédio, Violência, Discriminações e Outras Violações de Direitos Humanos (SUA), com foco especial na violência de gênero.

O serviço foi criado no âmbito da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP). “O sistema vai além da escuta, que já é realizada por diversos canais existentes na Universidade, e cria uma estrutura para a formação de multiplicadores, orientação às vítimas, registro de denúncias e instauração e acompanhamento de procedimentos disciplinares”, diz, em nota.

Unicamp

A Unicamp diz possuir normas e estruturas institucionais voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência de gênero e sexual no ambiente universitário. Desde 2020, a universidade conta com resolução que estabelece diretrizes e procedimentos para prevenção, acolhimento e encaminhamento de queixas de violência baseada em gênero e sexualidade.

A norma prevê fluxo institucional para recebimento e apuração de denúncias, acolhimento das vítimas e encaminhamento para medidas administrativas cabíveis.

Os diferentes tipos de violência levaram à criação de comissões assessoras (Gênero e Sexualidade, Acessibilidade, Diversidade Étnico-Racial, Povos Indígenas, Justiça Ambiental, além de um Observatório de Direitos Humanos), encarregadas de lidar com questões específicas que afetam diferentes segmentos da universidade.

A Unicamp mantém o Serviço de Atenção à Violência Sexual, responsável pelo acolhimento, orientação e encaminhamento de casos, funcionando como porta de entrada da rede de atenção.

O atendimento envolve uma rede institucional que inclui apoio psicológico, médico e acadêmico. “A Universidade reitera, por meio das ações implementadas e dos processos de aprimoramento em curso, o compromisso institucional com a prevenção, o cuidado e a responsabilização, bem como com a promoção de ambientes acadêmicos seguros e respeitosos”, diz em nota.

Unesp

A Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolve ações educativas e informativas, possuindo normativa interna e grupo de trabalho focado na prevenção de casos de violência contra a mulher, segundo Ana Maria Klein, assessora da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade. Tem ainda em curso o Programa Unesp sem Assédio, voltado ao enfretamento de todos os tipos de violência, em especial as sofridas por mulheres.

O programa “Unesp Sem Assédio – sem medo, sem impunidade” é uma iniciativa institucional que percorre as 34 unidades da Unesp para combater o assédio moral e sexual, promovendo um ambiente acadêmico seguro, inclusivo e ético. Lançado em maio de 2025, o programa foca em prevenção, denúncia e acolhimento através de ações educativas e comissões locais.

No contexto dessa política, foi criada a Comissão Central de Acolhimento às Pessoas Vítimas de Violências na Unesp (Acolhe Unesp), vinculada à Ouvidoria da Unesp. A comissão é composta exclusivamente por mulheres que representam diferentes setores da comunidade universitária, incluindo docentes, estudantes de graduação e pós-graduação, assistente social, profissionais da saúde e técnicas administrativas.

Além disso, a Unesp é signatária do Pacto Ninguém se Cala, iniciativa do Ministério Público do Estado de São Paulo e do Ministério Público do Trabalho, criada em 2023 para fortalecer ações de enfrentamento à cultura do estupro e a diferentes formas de violência de gênero.

Semesp

A reportagem entrou em contato com o Semesp, entidade que representa as instituições de ensino superior privadas no Brasil, inclusive São Paulo, e ainda aguardava retorno até a publicação deste texto.

O que explica a desaceleração do PIB do Brasil em 2025 e o que esperar para 2026

 

O PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil cresceu 2,3% em 2025, no ritmo mais fraco em cinco anos, e a expectativa é que a economia brasileira deve desacelerar ainda mais em 2026, em meio às incertezas geopolíticas provocadas pela guerra no Irã e pelo cenário de eleição presidencial polarizada.

Em meio ao freio provocado pela elevada taxa básica de juros, a economia perdeu fôlego e o resultado do PIB de 2025 só não foi ainda mais fraco em razão do crescimento robusto do agronegócio (11,7%), indústria de extração (8,6%) e nas exportações de bens e serviços (6,2%). Já o consumo das famílias, principal motor do PIB brasileiro há anos, cresceu 1,3% no ano passado, ante 2,1% em 2024.

O Ministério da Fazenda projeta para 2026 um crescimento também de 2,3% para o PIB, e prevê uma “aceleração acentuada” no primeiro trimestre de 2026, em ritmo próximo a 1%, sob efeito, em especial, do aumento da renda disponível com a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda a trabalhadores.

A expectativa de analistas é que a atividade mostre de novo um ritmo mais forte no primeiro semestre, impulsionada pela agropecuária e medidas de incentivo do governo, e esmoreça na segunda metade do ano.

O Itaú manteve a projeção de crescimento do PIB em 1,9% no ano, mas com viés de alta, “dada a possibilidade de adoção de medidas fiscais e desempenho mais robusto do crédito”.

A avaliação é que, embora o Brasil ainda possa se favorecer de certo modo das incertezas geopolíticas geradas pela escalada recente do conflito no Oriente Médio e pelo impacto da alta do petróleo na balança comercial, consumidores, governo e o próprio Banco Central devem se tornar mais cautelosos.

“Vale destacar a surpresa negativa do consumo das famílias no último trimestre de 2025, que fechou o ano com crescimento aquém do esperado, apesar de um mercado de trabalho ainda resiliente”, destacou o Itaú.

O foco agora está sobre os impactos dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, que vêm causando preocupações com uma interrupção do fluxo de petróleo e do gás, nos preços globais e na inflação.

O que esperar para a Selic

Com a disparada dos preços do petróleo e do dólar no Brasil, investidores passaram a elevar as apostas de que o Banco Central cortará a Selic em apenas 25 pontos-base este mês, e não mais em 50 pontos-base. A Selic está atualmente em 15% ao ano.

A expectativa de economistas e investidores é de que o Banco Central comece a reduzir os juros na reunião dos próximos dias 17 e 18 de março. Embora o conflito no Oriente Médio de forma geral não tenha mudado essa visão, a avaliação é que ele impõe cautela e pode afetar o ritmo e a magnitude do afrouxamento.

Andrés Abadía, economista-chefe de América Latina da Pantheon Macroeconomics, destaca que uma escalada adicional do conflito no Oriente Médio ofuscaria as perspectivas, adicionando pressão inflacionária de curto prazo justamente no início do ciclo de afrouxamento. “Embora preços mais altos do petróleo beneficiem a Petrobras e as receitas fiscais, o efeito líquido provavelmente levaria a uma postura de maior cautela e a cortes de juros mais lentos”, avaliou.

“A maior incerteza internacional tende a desestimular investimentos produtivos. Assim, embora o Brasil possa se beneficiar parcialmente como exportador de petróleo, os efeitos inflacionários e financeiros do conflito tendem a limitar o crescimento do PIB no curto e médio prazo”, avalia Peterson Rizzo, Gerente de R.I da Multiplike.

Ano eleitoral

Depois de um início de ano com expectativa de crescimento forte do agro e estímulos do governo que tendem a impulsionar o consumo, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$5 mil mensais, a economia deve enfraquecer no segundo semestre, que terá como ponto focal a eleição presidencial.

“Como é ano eleitoral, os estímulos do governo devem ficar concentrados no primeiro semestre. E no segundo semestre tem desaceleração, …porque no último trimestre tem efeito espera dos agentes econômicos, esperando para ver o cenário eleitoral”, disse Rafael Perez, economista da Suno Research, que calcula um avanço do PIB este ano de 1,8%.

Pesquisas de intenção de voto recentes mostram um empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro em cenário de segundo turno.

Mesmo com a perspectiva de cortes na Selic, a avaliação geral é que o efeito tende a ser mais de impedir uma queda maior do que impulsionar a economia.

“Mesmo com o provável início do ciclo de cortes da Selic em março, os juros permanecerão em patamar elevado, o que deve continuar contribuindo para frear a atividade. Mas não esperamos uma desaceleração forte, uma vez que os estímulos promovidos pelo governo (como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda) e o mercado de trabalho aquecido devem manter a economia brasileira em expansão”, diz Claudia Moreno, economista do C6, que projeta alta de 1,7% do PIB em 2026.

Com informações da Reuters

 

 https://istoedinheiro.com.br/pib-que-explica-desaceleracao-o-que-esperar-para-2026

 

Guerra pode afetar de 30% a 40% da exportação de carne bovina, avalia Abiec

 

São Paulo, 4 – A escalada do conflito no Oriente Médio acendeu um sinal de alerta no setor de carne bovina. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou que de 30% a 40% das exportações brasileiras do produto passam, de alguma forma, pela região, o que amplia de forma significativa o risco para a cadeia produtiva.

Embora cerca de 10% das exportações tenham como destino final o Oriente Médio, o impacto indireto é bem maior, de acordo com Perosa. “Entre 30% e 40% de toda a exportação brasileira de carne passa pelo Oriente Médio, de alguma maneira”, disse. Segundo ele, isso ocorre porque parte das cargas faz escala na região ou depende de empresas sediadas localmente para seguir ao Sudeste Asiático e outros mercados.

De acordo com o presidente da Abiec, os novos embarques estão paralisados. “Não estão tendo bookings. Não tem contêiner disponível pra mandar para a região”, afirmou. Nos poucos casos em que há oferta, as companhias marítimas estão cobrando adicional de até US$ 4 mil por contêiner, uma “taxa de guerra”, o que, segundo ele, “torna inviável enviar esse tipo de mercadoria para lá”.

Caso o impasse se prolongue, o impacto pode ser expressivo. “Se resolver em uma semana, o impacto é diminuto. Se demorar cinco semanas, pode ter o impacto sobre 30% do que a gente exporta no mês”, afirmou. O Brasil tem embarcado entre 200 mil e 250 mil toneladas mensais de carne bovina.

Perosa alertou que a interrupção do fluxo comercial pode provocar um efeito em cadeia. “Se a gente não tem escoamento da venda, o que nós vamos fazer com a carne? Não tem o que fazer. Os mercados estão saturados”, disse. Segundo ele, a redução da demanda externa pode levar à diminuição de abates. “Começa a criar um efeito sistêmico no setor que é muito prejudicial”, afirmou.

Diante do quadro, a Abiec pretende levar formalmente a preocupação ao governo federal. “O que a gente está pedindo é para o governo olhar para um setor que está sendo muito impactado”, afirmou Perosa. Ele defendeu tanto atuação diplomática quanto apoio econômico, caso a crise se prolongue.

Se não houver solução rápida, a entidade avalia a necessidade de medidas de suporte financeiro. “Apoio com crédito é sempre importante para passar por esses momentos turbulentos, para não haver desestruturação da cadeia”, afirmou.

Vorcaro pagava R$ 1 milhão por mês a núcleo de intimidação e obstrução à Justiça

 

Sicário recebia R$ 1 milhão por mês de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pelos serviços prestados pelo núcleo de intimidação e obstrução à Justiça, segundo decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deflagrou a terceira fase da Operação Compliance Zero na manhã desta quarta-feira, 4.

Sicário, que significa assassino de aluguel, é o apelido dado a Luiz Philippi Machado de Moraes Mourão ou apenas Luiz Felipe, como também é tratado nas investigações. A alcunha era um “indicativo da natureza de suas atividades”, como escreve Mendonça.

Procurada, a defesa de Vorcaro disse que “o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça.” Os advogados negam ainda “as alegações atribuídas a Vorcaro” e afirmam que o banqueiro confia que “o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta”. Ele reiterou ainda sua “confiança no devido processo legal e no regular funcionamento das instituições”.

Segundo a decisão, Sicário era o “responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”. A operação ligada ao Master tinha quatro núcleos operacionais: crime financeiro, corrupção, lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial e intimidação.

De acordo com a decisão, Felipe Mourão recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro, por meio de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. Numa das mensagens de WhatsApp detalhadas na decisão, Mourão cobra de Vorcaro o pagamento mensal a ser feito por Zettel, que está atrasado. Em outra, Mourão explica como divide o pagamento entre a equipe.

Numa terceira mensagem citada, Ana Claudia Queiroz de Paiva, funcionária de Vorcaro citada nas investigações, ao pedir instruções para o pagamento, pergunta se “Vai ser 1 mm, como normalmente?”. Ao que Vorcaro responde: “Sim”.

Em seguida, ela faz a transferência bancária e junta o comprovante de pagamento de R$ 1 milhão na conta indicada por Mourão. A conta pertence à empresa King Empreendimentos Imobiliários e Participações Ltda, de Belo Horizonte.

Sicário estava à frente da coordenação de “A Turma”, estrutura utilizada para realizar atividades de vigilância, coleta de informações e monitoramento de indivíduos considerados adversários do grupo.

As informações sigilosas eram conhecidas pela “Turma” por meio da utilização de credenciais funcionais de terceiros. O grupo também obtinha dados pessoais e institucionais de autoridades, jornalistas e outras pessoas que interessavam à organização. Removiam conteúdo e perfis de plataformas digitais usando solicitações de órgãos públicos falsas.

Sicário coordenava ainda a mobilização de equipes responsáveis por atividades de monitoramento presencial e coleta de informações, bem como organizava ações destinadas a pressionar ou intimidar indivíduos que mantinham posicionamento crítico em relação ao grupo investigado.

Um deles foi o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, a quem Vorcaro mandou “dar um pau e quebrar todos os dentes”. Outra foi uma empregada que ameaçava o banqueiro. Em mensagem, ele diz que “tinha de moer essa vagabunda”.

Há várias trocas de mensagem de perseguição a adversários, ex-funcionários, empregados e jornalistas. “Ao longo de toda a representação policial, há inúmeros episódios no mesmo sentido: Vorcaro utilizando Mourão, a “Turma” e os “Meninos” dele, para a prática dos mais variados ilícitos, muitos deles de caráter violento”, escreve Mendonça.

‘Empregados’ de Vorcaro: o que mostra a investigação da PF sobre servidores do BC afastados