

Estadão Conteúdoi
O
presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, repetiu nesta
segunda-feira, 30, que a “gordura” gerada pelo nível alto da Selic no
passado permitiu à autoridade monetária iniciar o processo de calibragem
no nível do juro básico. Segundo Galípolo, a avaliação do BC é a de
que, mesmo com novos fatos no cenário global, como a recente guerra no
Oriente Médio, esse processo de calibragem tende a seguir.
“O
que nós estamos comunicando o tempo todo, é o que foi entendido aqui:
essa gordura que foi acumulada com uma posição mais conservadora ao
longo das últimas reuniões de Copom, permitiu, mesmo diante de novos
fatos – e esses novos fatos não alteraram a circunstância como um todo,
do ponto de vista da transmissão da política monetária e das incertezas
que se tem sobre os efeitos de um choque de oferta com petróleo – para
que a gente alterasse a nossa trajetória (de corte na Selic)”, disse
Galípolo, durante participação no Macro Day do J. Safra, em São Paulo.
“Então a gente decidiu seguir com a nossa trajetória e iniciar o ciclo
de calibragem da política monetária”, reforçou.
Neste
cenário, o presidente do BC usou novamente a metáfora de que a
autoridade monetária é mais um transatlântico do que um jet-ski e, por
isso, não faz movimentos bruscos ou extremados.
Galípolo
ainda pontuou que a própria governança do BC ajuda no processo de não
se tomar posições extremadas. “É por isso que tem um ciclo tão longo do
ponto de exposição das apresentações, é por isso que é um colegiado”,
disse Galípolo.
Balanço de riscos
No
mesmo evento, o presidente do Banco Central disse que, na última
reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), foi discutido uma
possível mudança no balanço de riscos para a inflação doméstica, dado os
últimos acontecimentos geopolíticos, como a guerra no Oriente Médio.
Ele pontuou, contudo, que a avaliação final, inclusive com base em
choques recentes, foi a de que era preciso aguardar mais 45 dias, até o
próximo encontro do colegiado, antes de fazer qualquer alteração mais
significativa desses riscos.
“O fato do Banco Central ter
aguardado, incorporado gradativamente, parece ter se mostrado mais
interessante do ponto de vista de não amplificar e reverberar uma
volatilidade que poderia ser gerada. Estamos aprendendo e entendendo
como é que vão ser os impactos, mas primeiro momento a nossa visão é
essa, crescimento para baixo, inflação para cima”, detalhou Galípolo.
Ainda
em relação ao impacto do conflito no Oriente Médio para o Brasil, o
presidente do BC pontuou que, em tese, o País pode se beneficiar, por
ser um exportador líquido de petróleo.
Outro benefício,
acrescentou Galípolo, é o fato do diferencial de juros estar a favor do
Brasil hoje, dado o nível já bastante contracionista da taxa Selic.
“Comparativamente
a outros bancos centrais que estão mais próximos a uma taxa de juros
neutra, acho que também nos coloca em uma posição mais favorável quando
comparado com os pares. Era melhor que a gente não tivesse nenhum tipo
de conflito, nenhum tipo de impacto como esse, mas estamos só comparando
o relativo a partir do impacto”, frisou o banqueiro central.
Produtividade
Galípolo
disse ainda que a discussão sobre a produtividade do trabalho no Brasil
é uma das mais importantes que precisam ser feitas no País hoje. “O
Brasil vem há algum tempo crescendo em um modelo que basicamente tem um
estímulo pelo lado da demanda, seja por causa do crédito, seja por causa
de ganhos reais da remuneração acima da produtividade, inclusive da
população inativa. Com isso, você consegue explicar a maior parte do
crescimento, muito mais porque você está utilizando mais força de
trabalho, mais mão de obra, do que efetivamente houve qualquer tipo de
ganho de produtividade”, explicou.
Para Galípolo é preciso
refletir sobre quais políticas podem transformar o País e torná-lo mais
atraente para o recebimento de investimentos, o que, ao fim, também irá
significar ganho de produtividade.
“Esse é o tema talvez
mais relevante e que explica boa parte da dificuldade, tanto na política
fiscal, quanto na política monetária”, reforçou o banqueiro central.
“Se você ficar produzindo pressões de demanda que decorrem dos dois
vetores que eu comentei estímulo à demanda e ganho de renda acima da
produtividade, provavelmente você vai chegar num ponto em que terá que
subir juros para tentar conter e devolver a inflação para o lugar dela”.
Nesse
cenário, o presidente do BC lembrou que o Brasil não foi muito exitoso
em se integrar às cadeias de valor global nos últimos anos. Essa
situação, pontuou Galípolo, fez com que em momentos recentes, como a
adoção de política tarifária agressiva nos Estados Unidos, o Brasil
também passasse a ser visto como uma nação que sofreria menos com esses
choque