segunda-feira, 16 de março de 2026

Avanço do atacarejo ajuda a entender crise do GPA; veja ranking dos mercados brasileiros

 

A crise do GPA, dono das marcas Extra e Pão de Açúcar, sinaliza também um momento de transformação do setor de varejo alimentar no país. A empresa entrou em recuperação extrajudicial nesta semana, informando uma dívida de R$ 4,5 bilhões a ser renegociada.

Especialistas consultados pela IstoÉ Dinheiro apontam que anos de inflação e juros altos tornaram a população brasileira mais sensível a preço, e fortaleceram o atacarejo, modelo de comércio que mistura atacado e varejo.

A mudança fica evidente no ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) dos supermercados com maior faturamento no país. A última edição, publicada em abril de 2025 e com dados referentes a 2024, mostra o GPA na 5ª posição, atrás do Supermercados BH, Grupo Mateus, Assaí e do primeiro colocado, Grupo Carrefour.

Veja o ranking completo:

#EmpresaFaturamento (R$)
Grupo Carrefour Brasil120,6 bi
Assaí Atacadista80,6 bi
Grupo Mateus36,4 bi
Supermercados BH21,3 bi
GPA (Grupo Pão de Açúcar)20,0 bi
Grupo Muffato17,4 bi
Grupo Pereira15,3 bi
Mart Minas & Dom Atacadista11,4 bi
Cencosud Brasil11,2 bi
10ºGrupo Koch10,3 bi
11ºPlurix9,4 bi
12ºCompanhia Zaffari8,4 bi
13ºDMA Distribuidora8,3 bi
14ºTenda Atacado7,4 bi
15ºCosta Atacadão7,3 bi
16ºSavegnago Supermercados6,9 bi
17ºAtacadão Dia a Dia6,0 bi
18ºSonda Supermercados5,9 bi
19ºNovo Atacarejo5,8 bi
20ºComercial Zaffari5,7 bi
21ºGrupo Líder5,3 bi
22ºSupermercados Andreazza5,2 bi
23ºGrupo ABC4,9 bi
24ºGrupo Supernosso4,7 bi
25ºSupermercados Bahamas4,3 bi
26ºZaragoza (Spani Atacadista)4,2 bi
27ºGiassi Supermercados4,1 bi
28ºRoldão Atacadista4,0 bi
29ºPague Menos3,9 bi
30ºAngeloni3,8 bi

A ascensão do atacarejo

Mistura de atacado com varejo, o segmento “atacarejo” dispensa embalagens enfeitadas, variedade de produtos premium e boa apresentação nas prateleiras. Ao invés disso, o cliente encontra bons preços e promoções para compra em grande quantidade, que atraem, inclusive, comerciantes de pequenos mercados de bairro.

“A escala operacional é o grande motor para que essas grandes varejistas se destaquem. Com essa escala é possível que esses grupos consigam adequar seu modelo de negócio ao ambiente econômico do momento”, analisa o economista Caio Mitsuo, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School.

Campeão no ranking da Abras, o Carrefour conta com uma estratégia multiformato, atendendo também com a marca de atacarejo Atacadão. “Essa diversidade permite capturar diferentes perfis de cliente e gera escala que reduz custos logísticos e de suprimentos”, explica o analista-chefe da Cultura Capital, Gabriel Uarian.

O Assaí opera em um formato “atacarejo puro”. Segundo Uarian, a empresa expandiu agressivamente nos últimos anos, abrindo lojas em pontos estratégicos e alcançando um caixa forte, ainda que com margens menores.

Placa com logo do Assai em unidade em São Paulo. Foto: Paulo Whitaker/Reuters

 

Outra tradicional do atacarejo, o Grupo Mateus foca no Nordeste, onde se posiciona de acordo com preferências regionais e expande através de aquisições. Em uma estratégia similar, o Supermercados BH, apesar de não operar atacarejo, também aposta em grande afinidade com os consumidores de Minas Gerais, crescendo com eficiência em um espaço mais restrito.

A crise do GPA

O especialista em renda variável da Davos Investimentos, Marcelo Boragini, recorda que os problemas do grupo GPA não são recentes, e foram agravados durante tentativas de reorganização dos negócios nos últimos anos. A escalada dos juros atrapalhou ainda mais, aumentando o custo de crédito e o endividamento da empresa.

“Além da mudança do perfil do consumidor e da concorrência mais forte, o GPA enfrenta desafios internos importantes. Os processos de reestruturação estratégica são mais pesados e pressionam margens em um setor que já opera com uma rentabilidade relativamente baixa”, analisa Boragini.

Na tentativa de contornar a crise, o GPA reduziu operações e fechou lojas nos últimos anos. Em 2021, quando ainda operava sob controle do grupo francês Casino, a empresa se desfez da marca Assaí, uma estratégia equivocada de acordo com os analistas.

“O grupo apostou em bandeiras premium como o Pão de Açúcar e em formatos de proximidade. No entanto, o mercado migrou para preço agressivo, e o GPA ficou preso no meio: caro demais para quem busca atacarejo, mas sem o glamour exclusivo que justifica o prêmio em tempos de bolso apertado”, comenta Gabriel Uarian.

Com a expectativa de uma continuidade do crescimento do atacarejo, o GPA terá de criar estratégias para ganhar maior rentabilidade. Solucionar a dívida que o levou a recuperação extrajudicial é apenas parte do caminho até lá.

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