
(Foto: REUTERS/Adriano Machado) (Crédito: REUTERS/Adriano Machado)
Pouco mais de uma semana após o início do conflito entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, as cotações do petróleo do mercado internacional chegaram a ultrapassar a barreira dos US$ 100. A escala foi mais rápida do que alguns analistas previam, mas existe quase um consenso de que os consumidores brasileiros sentirão em breve os efeitos dessa alta.
Os contratos futuros de petróleo passaram a ser negociados em queda na segunda-feira, 9, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que considera que a guerra contra o Irã “está praticamente concluída, mas se mantinham acima de US$ 90. Desde que os EUA e Israel bombardearam o Irã em 28 de fevereiro, o Brent subiu até 65% e o WTI 78%.
Cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) indicam que com o barril do petróleo a US$ 108 e o dólar a R$ 5,39 já haveria espaço para que a Petrobras fizesse um reajuste de R$ 1,22 na gasolina e de R$ 2,74 no diesel.
Estimativas indicam que os preços da gasolina no mercado interno estejam cerca de 40% defasados em relação aos praticados no mercado internacional. No caso do diesel, a defasagem já estaria na casa dos 85%.
“Desde que o petróleo chegou a US$ 80, eu acho que a Petrobras já deveria ter reajustado os preços da gasolina e do diesel. Não faz sentido ficar com uma defasagem, porque você inviabiliza a importação por parte de agentes privados e, ao mesmo tempo, corre o risco de desabastecimento em função de o Brasil ser importador”, disse à IstoÉ Dinheiro Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE).
A demora da Petrobras em reajustar os preços dos combustíveis no Brasil tem um motivo claro: o controle da inflação. Um eventual reajuste nessa magnitude nos preços do diesel e da gasolina cairia como uma bomba nos planos de controle inflacionário do governo e na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda mais em se tratando de um ano eleitoral.
“Pelo bom senso, seria inevitável um reajuste, mas em se tratando de Petrobras e do atual governo, acho que bom senso é uma palavra que não está no dicionário”, afirma Pires.
A expectativa é que a defasagem nos preços dos combustíveis não seja resolvida de uma única vez. Para Roberto Padovani, economista do banco BV, um reajuste nos preços dos combustíveis deve acontecer no curto prazo para reduzir a diferença entre os preços praticados no mercado internacional e no mercado doméstico.
Para ele, um repasse mais rápido nos valores do diesel é algo mais claro, até mesmo para evitar um desabastecimento do combustível. Contudo, ele acredita que o atual nível de defasagem da gasolina também já justificaria um reajuste.
“Algum reajuste vem rápido, considerando reduzir essa defasagem. Por mais que a Petrobras se beneficie com a alta do preço do petróleo e tenha caixa, tem também uma mensagem de gestão da companhia, que é aberta”, afirma Padovani.
A Petrobras historicamente evita repassar imediatamente a volatilidade global aos preços locais, segundo reiterou na semana passada a presidente da petroleira, Magda Chambriard. Na ocasião, fontes da companhia também disseram que a Petrobras monitorava de perto os desdobramentos do conflito e previa uma semana de observação no mercado de petróleo antes de uma eventual decisão sobre reajuste.
Em nota, a Petrobras disse que reafirma seu compromisso com a mitigação dos efeitos da volatilidade dos preços em um cenário de guerras e tensões geopolíticas.
“Isso é possível porque passamos a considerar em nossa estratégia comercial as nossas melhores condições de refino e logística, o que nos permite promover períodos de estabilidade nos preços ao mesmo tempo que resguarda a nossa rentabilidade de maneira sustentável. Essa abordagem reduz a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro, garantindo maior previsibilidade e segurança, protegendo nossos clientes de oscilações abruptas que se originam fora do país”, diz a nota da empresa.
Risco de desabastecimento
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que recebeu informações sobre dificuldades pontuais de aquisição de diesel por produtores rurais no Rio Grande do Sul. De acordo com a agência, no entanto, a produção e a entrega do combustível seguem em ritmo regular pelo principal fornecedor da região, a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), da Petrobras.
A Abicom, no entanto, informou que a escalada das tensões no Oriente Médio paralisou o mercado de diesel importado no Brasil. Diante do temor de que a Petrobras não repasse os preços internacionais dos derivados para o mercado interno, os importadores privados suspenderam as compras – uma vez que o preço a ser vendido no Brasil ficaria inviável.
Em nota, a ANP informou que a agência “mantém o monitoramento contínuo do mercado regulado e, até o momento, não identifica restrições à manutenção das atividades ou à disponibilidade de combustíveis no mercado doméstico, considerando as fontes usuais de suprimento do país”. A nota diz ainda que “com relação às importações, até o momento, não há registro de dificuldades nas operações de nacionalização nem de restrições de acesso às fontes de suprimento”.
Diante da conjuntura, o quadro que se desenha para o Brasil é de um mercado doméstico com dois valores. O primeiro, o mercado privado, onde as refinarias que operam no país já repassaram pelo menos parte da recente alta do petróleo e tendem a seguir os preços internacionais. E o segundo, o mercado da Petrobras, onde o governo pode subsidiar o consumo da gasolina e do diesel.
“Não vejo risco de desabastecimento, porque a Petrobras, no limite, vai ser usada para comprar mais caro lá fora e vender mais barato aqui dentro. Agora, você vai ter uma confusão também no mercado interno, porque uma empresa privada não pode segurar os preços como a Petrobras segura, senão ela quebra”, afirma Pires.
Cotas adicionais
Para tentar minimizar o impacto da defasagem de preços, as distribuidoras estão pedindo à Petrobras volumes adicionais de venda de diesel. O objetivo da medida é fazer estoque a preços baixos para tentar preservar as margens.
Fontes ouvidas pela Reuters, no entanto, disseram que a estatal estaria recusando os pedidos por volumes adicionais e mantendo as cotas previstas em contrato. “Agora (com preços altos) não dá para dar cota adicional para o distribuidor comprar nosso diesel barato, se encher de volume, para depois vender… vão fazer estoque e ganhar dinheiro em cima da Petrobras”, disse a fonte à Reuters.
Procurados, o Ministério de Minas e Energia, não retornou ao pedido de comentários da reportagem. O espaço permanece aberto.
https://istoedinheiro.com.br/petroleo-us-100-reajuste-gasolina-diesel
Nenhum comentário:
Postar um comentário