
Presidente do BRB, Paulo Henrique Costa (Crédito: Divulgação)
O anúncio pelo Banco de Brasília (BRB) na sexta-feira, 28, de aquisição de 49% das ações ordinárias (com direito a voto) e 100% das ações preferenciais (sem direito a voto) do Banco Master, em uma transação avaliada em aproximadamente R$ 2 bilhões, causou furor no mercado financeiro ao longo do fim de semana. Executivos de bancos privados passaram a trocar mensagens entre si, analisando a compra do banco público, que ainda precisa ser aprovada pelo Banco Central (BC) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Em entrevista à coluna Guilherme Amado, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, respondeu aos principais pontos que, nessas mensagens, eram levantados para jogar dúvida sobre a transação. Há sinergia entre as operações do Master e do BRB? E os ativos complexos do Master, como os precatórios? Foram observados todas as exigências do BC?
Apesar da parceria, as duas instituições continuarão operando de forma independente, mas sob uma única marca: BRB. Daniel Vorcaro, controlador do Master, permanecerá na posição, que passará a se chamar BRB Banco de Investimentos, mantendo 51% das ações com direito a voto. O BRB, por sua vez, terá direito de veto em decisões específicas.
O Banco Master passará ainda por uma reestruturação societária, na qual algumas participações atualmente sob sua titularidade serão separadas da operação. A transação inclui apenas o banco múltiplo, a fintech Will Bank e a securitizadora Maximainvest.
Abaixo, os principais trechos da conversa com o presidente do BRB.
Algumas
análises de mercado sugeriram que bancos privados teriam optado por não
avançar na operação com o Master por conta de ativos considerados mais
complexos, como a carteira de precatórios. Como o BRB avalia esse
cenário?
No ano passado a gente começou a comprar umas
carteiras de cartão de crédito consignado do Master. E a gente foi se
aproximando do banco, entendendo a forma de operar e vendo que eles
operavam em segmentos que são importantes para a gente e que a gente
nunca tinha conseguido ter uma posição competitiva sólida, como mercado
de capitais, como câmbio, como atacado, como cartão de crédito
consignado. Em outubro do ano passado, a gente começou a ter uma
conversa sobre a possibilidade de fazer uma sociedade. Em janeiro deste
ano, o Banco Master mandou um ofício formalizando essa proposta para que
a gente avaliasse a possibilidade ou de uma parceria estratégica ou de
uma parceria societária. Contratamos alguns assessores, PWC e Lefosse,
para nos auxiliarem nessa análise. A gente se debruçou sobre todos os
ativos e passivos do Master e fizemos um planejamento estratégico e um
plano de negócios para o que seria esse conglomerado que depende de
aprovação regulatória. Nesse sentido, a gente encontrou uma série de
ativos que não fazem parte desse novo escopo de atuação.
Quais ativos?
Notadamente
os precatórios, os direitos creditórios relativos a processos judiciais
e os fundos de investimento em ações de empresas que não fazem parte do
conglomerado. Essa foi a razão de a gente ter definido o perímetro da
transação excluindo esses ativos que representam aproximadamente R$ 23
bilhões. As pessoas estão questionando esses ativos que você chamou de
complexos e que nem fazem parte do escopo da transação.
Houve
comentários de executivos de instituições privadas sobre o fato de a
operação ter sido liderada por um banco público. Qual a sua visão sobre
esse tipo de crítica?
Nesses últimos anos, o BRB mudou o
posicionamento do mercado. A gente passou a crescer, a entrar em novos
segmentos. A gente se tornou líder aqui no DF em crédito imobiliário, em
crédito rural. O nosso cartão de crédito, o Dux, passou a ser
reconhecido como um dos melhores do mercado. O BRB adotou uma posição
mais competitiva. E nesse sentido a gente começou a fazer transações de
M&A, inclusive olhar ativos para compra. O Master é o terceiro banco
que a gente analisa desde 2021 nesse sentido. Isso mostra que não
deveria haver distinção entre a capacidade de competir de um banco
público e de um banco privado. Por ser público, a gente tem algumas
restrições, precisa observar alguns procedimentos adicionais e todos
eles foram observados nessa transação. Muitas vezes a preocupação que
surge é se uma entidade pública está trazendo algum ativo indesejado
para o negócio. E não é o caso. Fizemos uma revisão dos ativos e
passivos, uma due-diligence e selecionamos os ativos que fazem parte
desse novo posicionamento estratégico, desse novo conglomerado que
estamos procurando construir.
Alguns especialistas apontam
dúvidas sobre a existência de sinergias entre o Master e o BRB. Há, de
fato, complementariedade nas operações? Em quais frentes isso se
manifesta?
É super interessante isso, porque o BRB ao longo
desses últimos anos se tornou um banco de varejo completo. A gente atua
na pessoa física, a gente atua na pessoa jurídica, a gente atua em
cartões, atua em seguridade, em investimentos, atua em governos. Mas a
gente não conseguiu entrar em alguns mercados ou segmentos específicos
como atacado, médias e grandes empresas, mercado de capitais, câmbio, o
próprio cartão de crédito consignado que a gente vem tentando entrar no
mercado há algum tempo. O Master possui esses produtos, atua nesses
segmentos. Então existe uma complementariedade de negócios. O BRB se
posiciona no mercado como um banco completo. Um banco que quer ser o
primeiro banco de relacionamento dos seus clientes. E sem esse tipo de
segmento é um tanto difícil da gente alcançar essa posição estratégica
no mercado. Além disso, o Master tem na sua estrutura um banco digital. É
uma fintech que nasceu com a cabeça de banco digital, que entende a
atuação nesse mercado e que nos interessa bastante porque a gente tem
praticamente quatro milhões de clientes que vieram desse mundo de banco
digital. O Master tem determinadas tecnologias, sistemas e conhecimentos
especializados e acesso a conhecimentos especializados que, por
exemplo, como um banco público, a gente também enfrenta limitações.
O
BRB está confiante na aprovação da operação pelos órgãos reguladores? A
operação está alinhada com os critérios e exigências do Banco Central
para esse tipo de transação?
Existe um procedimento
estabelecido nas normas em relação a isso. E nós instruímos, elaboramos
as documentações de maneira que a gente acredita que atende e evidencia a
nossa visão do negócio. Então a gente acredita que o Banco Central e o
Cade se debruçarão atentamente, farão uma análise criteriosa do negócio e
que a gente entende que sim, tem viabilidade econômica e capacidade de
contribuir para os clientes, para a sociedade e para o sistema
financeiro nacional.
Quais os principais benefícios esperados para o BRB com essa movimentação?
Os
principais benefícios são acesso a mercados e segmentos que a gente
hoje não tem uma atuação forte, como é o caso de câmbio, de serviços de
mercado de capitais, de atuação em médias e grandes empresas e, no caso,
cartão de crédito consignado e bancos digitais. Além disso, o Master
aporta acesso à tecnologia, aporta o banco digital e a capacidade de
contratar recursos técnicos especializados que, muitas vezes, nós
enfrentamos restrições como empresa pública.
Na política local de Brasília, a transação passou a ser objeto do jogo político. Como é que você vê esse movimento?
A
nossa decisão é guiada pela lógica negocial, por aquilo que a gente
entende que fortalece a posição competitiva do BRB e que o ajuda a
cumprir seus objetivos como banco e como banco público. Então, a gente
entende que isso não deveria ser politizado.
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