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“apocalipse do software” em Wall Street vem se intensificando. Agora,
os investidores debatem se é hora de voltar a investir nas ações que
sofreram forte desvalorização. As consequências para o setor de
software, que inclui algumas ações emblemáticas, refletem a crescente
ansiedade em relação à potencial disrupção causada pela inteligência
artificial, à medida que os investidores dividem cada vez mais o setor
entre vencedores e perdedores.
A volatilidade também ocorre em um
momento em que os investidores se desfazem de suas participações em
tecnologia e migram para outros setores do mercado que, em sua maioria,
apresentaram desempenho inferior nos últimos anos, enquanto aguardam os
balanços trimestrais das empresas, que podem impactar ainda mais os
preços dos ativos.
“A
onda de vendas, que provavelmente começou no último trimestre, é uma
manifestação da conscientização sobre o poder disruptivo da IA…”, disse
James St. Aubin, diretor de investimentos da Ocean Park Asset
Management, em Santa Monica, Califórnia. “Talvez seja uma reação
exagerada, mas a ameaça é real e as avaliações precisam levar isso em
conta.”
Ações desvalorizadas de empresas europeias de serviços
profissionais, como LSEG e RELX, subiram nesta quinta-feira, indicando
que o movimento de queda estava diminuindo. Ambas ainda acumulam baixa
de pelo menos 9% nesta semana.
O
índice de software e serviços do S&P 500 despencou 13% apenas na
última semana, perdendo mais de US$ 800 bilhões em valor de mercado no
período, puxado por quedas acentuadas em empresas como a Intuit,
ServiceNow e Oracle. Em relação ao índice geral S&P 500, o grupo de
software registrou, até esta terça-feira, seu pior desempenho trimestral
desde maio de 2002 — período da crise após o estouro da bolha das
pontocom –, de acordo com estrategistas de ações da Evercore ISI.
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Essas
quedas acentuadas desencadearam sinais técnicos que podem indicar, pelo
menos temporariamente, um piso para o grupo, e alguns gestores de
carteiras têm feito compras modestas das ações desvalorizadas. Os
investidores hesitaram em declarar o fim da crise.
“Há
valor a longo prazo nessas empresas, e elas estão chegando a um ponto
em que as considero mais atraentes”, disse Jake Seltz, gestor de
portfólio da Allspring Global Investments em Minneapolis, que vem
aumentando “marginalmente” suas participações em algumas empresas,
incluindo ServiceNow e Monday.com.
Nos últimos meses, Seltz disse
que estava aguardando catalisadores para comprar de forma mais
agressiva, como empresas de software relatando forte receita com
produtos relacionados à IA ou mais anúncios de clientes corporativos
sobre a implementação desse tipo de software.
Distância das ações de tecnologia
Os
receios sobre as implicações de uma nova ferramenta do modelo de
linguagem Claude, da Anthropic, desencadearam a mais recente onda de
volatilidade, que foi agravada por relatórios de resultados
decepcionantes, incluindo os da gigante de software Microsoft.
O
índice de software do S&P 500 caiu cerca de 25% desde seu pico
recente no final de outubro — um período em que o S&P 500 apresentou
pouca variação. Os operadores de opções demonstraram pouco interesse em
adquirir ações das empresas de software que foram castigadas.
“Isto foi um verdadeiro apocalipse do software”, disse Art Hogan, estrategista-chefe de mercado da B. Riley Wealth.
A
forte queda nas ações de empresas de software também ocorre durante uma
rotação mais ampla do mercado, com uma fuga de empresas de tecnologia e
um aumento na procura por ações de valor e qualidade em outros setores,
como bens de consumo essenciais, energia e indústria.
Estes
papéis até recentemente foram menos favorecidos do que o setor de
tecnologia, durante o “bull market” (período de alta do mercado) que
começou em outubro de 2022.
“O motivo correto para vender essas
empresas caras é que existem outras oportunidades em setores com melhor
avaliação e maior potencial de crescimento, e não porque você está em
pânico com uma possível queda nas empresas de software e tecnologia”,
disse Jim Masturzo, diretor de investimentos da Research Affiliates.
Em busca de pechinchas
O
debate entre os investidores gira em torno da questão de se esse valor
agora se encontra no software. Entre as empresas que mais perderam valor
este ano estão Intuit, ServiceNow e Salesforce.
A Microsoft é a
empresa com o pior desempenho este ano entre as sete maiores empresas de
capitalização de mercado. Outras quedas acentuadas nesta semana
incluíram a empresa de tecnologia e conteúdo Thomson Reuters, que detém a
base de dados jurídica Westlaw e a agência de notícias Reuters.
A
queda acentuada do setor de software significa que o grupo estava
tecnicamente sobrevendido, sugerindo que estava próximo de “pelo menos
um fundo de curto prazo”, disse Walter Todd, diretor de investimentos da
Greenwood Capital, na Carolina do Sul. Sua empresa realizou algumas
compras modestas de ações da ServiceNow e da Microsoft nos últimos dias.
Embora
não queira apostar tudo em software, “acho que ele está começando a
apresentar valor”, disse Todd. “Não acredito que a substituição completa
da infraestrutura de software existente pela solução de IA nessas
situações seja realista.”
Brad Conger, diretor de investimentos da
Hirtle, Callaghan & Co., afirmou que começou a avaliar possíveis
compras de ações, incluindo as da SAP, Adobe e Intuit, que foram
duramente atingidas pela onda de vendas. “Pode-se argumentar que elas
estão prestes a se recuperar.”
Mas ele acrescentou que ainda não
está preparado para comprar nos níveis atuais, pois não se sente
“confortável com o fato de as ações terem atingido um nível em que a
pior ameaça já esteja precificada”.
Para alguns investidores, as
consequências foram semelhantes às quedas repentinas provocadas no ano
passado pelo surgimento do modelo de IA de baixo custo Deepseek, o que
gerou questionamentos sobre o ecossistema financeiro de IA.
“Estamos
começando a entender melhor as capacidades da IA, o mercado está
reajustando os preços, o que sinaliza menos confiança no crescimento
futuro das vendas de software em um mundo impulsionado pela IA”, disse
René Reyna, chefe de estratégia de produtos temáticos e especializados
da Invesco.
“Será que já exageramos? Ainda não sabemos. Mas vender pode gerar mais vendas.”