terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Brasil bateu recorde de cargas portuárias em 2024, com 1,32 bilhão de t, mostra Antaq

 Portos brasileiros em destaque

Os portos brasileiros bateram recorde de movimentação de cargas em 2024, com um total de 1,32 bilhão de toneladas. Os números foram apresentados pelo governo federal em evento na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Apesar de números mistos entre as diferentes categorias de terminais e cargas, o saldo final ficou 1,18% acima do volume verificado em 2023.

Os portos públicos registraram 474,38 milhões de toneladas, aumento de 5,13% em comparação com o ano anterior.

Dentre esses, o Porto de Santos, em São Paulo, destacou-se com a maior movimentação, alcançando 138,69 milhões de toneladas, crescimento de 2,05%. O Porto de Salvador, na Bahia, apresentou o maior crescimento porcentual, com acréscimo de 41,18% na comparação com 2023, totalizando 6,60 milhões de toneladas.

“O crescimento nos portos públicos mostra o trabalho que tem sido feito pelas autoridades portuárias”, disse o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho.

Ele prometeu empenho do governo para manter as condições de avanço do setor. “Criar cada vez mais segurança jurídica para quem quer empreender”, afirmou.

Costa Filho disse que, ao lado de Antaq e do Tribunal de Contas da União (TCU), busca acelerar a carteira de concessões e arrendamentos. Os terminais autorizados experimentaram leve retração, movimentando 845,98 milhões de toneladas, redução de 0,91% em relação ao período anterior.

No segmento, o Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, no Maranhão, foi o destaque positivo, com 175,78 milhões de toneladas movimentadas, acréscimo de 5,68%.

Quanto ao tipo de navegação, o transporte de longo curso contabilizou 948,17 milhões de toneladas, crescimento de 2,29%. A cabotagem, que é a navegação entre os portos brasileiros, viu um acréscimo de 0,92%, totalizando 293,56 milhões de toneladas. A navegação interior, em cursos d’água internos como por rios, teve redução de 9,58%, movimentando 75,93 milhões de toneladas.

Em relação ao tipo de carga, o transporte de granel sólido teve queda de 0,25%, com 788,50 milhões de toneladas, enquanto o de granel líquido diminuiu 3,78%, somando 313,10 milhões de toneladas. Já a carga conteinerizada, experimentou um acréscimo de 20%, alcançando 153,33 milhões de toneladas.

Dentre as cargas em destaque, o trigo liderou com um aumento de 39,51%, totalizando 9,03 milhões de toneladas. O gás de petróleo apresentou crescimento de 35,31%, com 5,29 milhões de toneladas movimentadas. Os combustíveis, óleos e produtos minerais registraram um aumento de 23,63%, somando 4,06 milhões de toneladas.

Preços de remédios devem ter reajuste menor em 2025; entenda

 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou nota técnica nesta segunda-feira, 17, informando que o Fator Y, um dos componentes para o cálculo do reajuste anual dos preços dos medicamentos no país, será zero para 2025/2026.

O teto do reajuste para remédios em 2025 deve ser anunciado pelo governo até o final de março. Para decidir sobre o tamanho dos reajustes, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) usa a fórmula IPCA – Fator X + Fator Y + Fator Z.

O Fator X, que mensura a produtividade da indústria farmacêutica no país, foi definido pela CMED no mês passado em 2,459% para o período de julho de 2024 a junho de 2025.

O Fator Y, conforme a nota técnica da Anvisa, é definido como o ajuste de preços entre o setor farmacêutico e os demais setores da economia, calculado com base nos custos não recuperados pelo IPCA.

Tal ajuste, explicou a agência, permite minimizar o impacto desses custos que não são captados diretamente no cálculo do índice de inflação e que possuem impacto relevante sobre a estrutura de custo da indústria farmacêutica.

Enquanto isso, o Fator Z é um fator de ajuste de preços relativos intrassetores.

Projeção do mercado

Analistas do Itaú BBA afirmaram que o Fator Y ficou dentro das suas expectativas, mas abaixo do que veem como esperado pelo mercado, em torno de 1%. A partir dos fatores já publicados, eles calculam que o reajuste final dos medicamentos deve ficar em torno de 3,7%.

O teto para reajuste de medicamentos em 2024 ficou em 4,5%.

Confirmada as expectativas, o reajuste dos remédios também ficará abaixo da inflação oficial do país do ano passado que ficou em 4,83%.

“Para a Hypera, estimamos que menos de 40% das receitas da empresa estão expostas ao aumento de preços da CMED”, acrescentaram Vinicius Figueiredo e equipe em relatório enviado a clientes no final da segunda-feira.

“Dessa forma, há espaço para a empresa compensar esse efeito aumentando os preços no restante de seus produtos não regulados por preços.”

Reflexos para as farmácias

Em relação aos potenciais efeitos em drogarias, os analistas do Itaú BBA desta vez liderados por Rodrigo Gastim avaliaram negativamente um potencial reajuste abaixo da inflação, destacando que contrasta com os últimos dois anos, quando os ajustes estavam virtualmente em linha com o IPCA.

“Tal cenário pode prejudicar a capacidade das farmácias de entregar alavancagem operacional, particularmente no segundo semestre de 2025, pois esperamos que a inflação acelere ao longo do ano”, afirmaram os analistas, em relatório separado.

Após a definição do fator Y, e também considerando outras premissas, os analistas do Itaú BBA reduziram a previsão para o lucro líquido da RD Saúde em 7% para 2025 e em 8% para 2026.

Gastim e equipe ainda chamaram a atenção para outra medida que impacta os preços que ocorrerá simultaneamente neste ano: a resolução que reduz os preços máximos dos medicamentos para refletir uma diminuição de carga tributária ocorrida anos atrás – ou seja, a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins.

Isso, na visão dos analistas, pode levar a uma redução de preços ao consumidor de até 2,59%, dependendo da carga tributária específica de cada produto.

Renault e Geely fecham plano conjunto para produzir e vender carros no Brasil

 

A montadora francesa Renault e o grupo chinês Zhejiang Geely Holding fecharam um acordo para produzir e vender de forma conjunta carros elétricos e de baixa emissão de carbono no Brasil, segundo comunicado divulgado nesta segunda-feira, 17. As negociações ainda estão sujeitas a um acordo definitivo e a aprovação de autoridades relevantes.

De acordo com a Renault, a parceria permitirá que o Geely acesse o complexo industrial Ayrton Senna, em São Jose dos Pinhais, no Paraná, incluindo áreas de produção, vendas e redes de serviços no Brasil. Em troca, o grupo Geely será uma investidora minoritária na filial da francesa no Brasil.

“A Renault do Brasil se tornará uma distribuidora do portfólio de veículos do Geely Holding no país, por meio do seu ecossistema de distribuição existente”, descreve a nota. “Por meio desta parceria, ambas as empresas serão capazes de expandir seus poderes de marca e se tornarão players centrais no Brasil, mercado que representa 44% das vendas automotivas na América Latina.”

O grupo Geely detém diversas marcas de carros ao redor do mundo, incluindo a montadora de veículos elétricos da China, Zeekr, e a sueca Volvo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Margem Equatorial: Ministro pressiona Ibama e diz que ‘chegou hora de chave virar’

 

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, voltou a pedir publicamente pela emissão da licença ambiental que vai permitir à Petrobras perfurar e procurar petróleo na chamada Margem Equatorial, no litoral nordeste e norte do País. “A Petrobras já entregou os estudos complementares ao Ibama e chegou a hora de essa chave virar”, disse Silveira em evento organizado pela Petrobras em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

E continuou: “Queremos pesquisar a Margem Equatorial de maneira ambientalmente sustentável. Temos que aproveitar mais essa fonte de riqueza nacional e gerar empregos em todo o País. Os resultados positivos de nossas reservas vão acelerar a transição energética no Brasil.”

Em seguida, ele afirmou que perfurar a Margem Equatorial é uma questão de “soberania nacional”.

Silveira também disse que a produção de óleo e gás em águas contíguas à Margem Equatorial brasileira está “mudando a realidade de países vizinhos”.

“O PIB da Guiana cresceu 50% no ano passado. O Brasil merece viver essa transformação. É uma arrecadação de mais de R$ 1 trilhão que precisa ser destinada à saúde e educação. Não podemos aceitar mais de R$ 350 bilhões em investimentos parados”, reclamou o ministro.

Antes dele, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, já havia feito pressão pela licença do Ibama em discurso no mesmo evento. Nas últimas semanas, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e membros do governo também têm sido mais vocais nesse sentido.

Silveira foi o pivô da última troca de comando na estatal, após conflitos sucessivos com o antecessor de Magda, Jean Paul Prates.

Indústria Naval

Silveira também saudou os esforços do governo federal e da Petrobras em retomar a indústria naval.

“Essa indústria foi desmantelada pelo governo anterior. A Petrobras não renovava frota marítima há 10 anos”, disse Silveira ao elogiar as encomendas de momento da Petrobras e o lançamento de novo edital para incrementar a frota da subsidiária de transporte da Petrobras, a Transpetro. “Temos que defender as políticas públicas que voltaram para o Brasil”, disse, sobre o movimento da estatal que, segundo ele, dá tranquilidade por ter atualmente uma “diretoria harmoniosa”.

Governo mira taxar 150 mil ‘ricos’ e tirar 10 milhões do Imposto de Renda, diz nº 2 de Haddad

 

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, disse nesta segunda-feira, 17, que o governo mira aumentar a tributação para as classes mais altas e, em contrapartida, ‘beneficiar cerca de 10 milhões de brasileiros’ com a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.

“Você estaria beneficiando 10 milhões de brasileiros a mais com a contrapartida de estar tributando, com imposto mínimo, uma alíquota teto de 10% sobre os mais ricos, que envolve um universo de 150 mil ou 160 mil pessoas, que hoje têm uma média de contribuição do imposto de renda muito abaixo do que um trabalhador comum paga”, disse  secretário, durante participação de evento promovido pela Amcham Brasil.

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O número 2 de Haddad no Ministério da Fazenda participou  de painel com Nilton David, Diretor de Política Monetária do Banco Central (BC).

Segundo o secretário, existe uma ‘discrepância grande’ no pagamento de tributos, com mais ricos pagando cerca de 2%, ao passo que o brasileiro médio paga uma alíquota efetiva de 12%.

As duas iniciativas dependem da aprovação do Congresso Nacional e aguardam o envio da proposta oficial do governo de reforma do Imposto de Renda.

‘Falta de isonomia na tributação’

Sobre a reforma tributária recém aprovada, Durigan declarou que a nova regra ‘simplifica o sistema brasileiro’, que admitiu ser ‘áspero e difícil de navegar’. “Teremos muito ganho de produtividade e de eficiência [com a reforma]”, disse.

Durigan ainda frisou que um dos pontos relevantes do texto aprovado é a redução da ‘guerra fiscal’.

“Temos muita falta de isonomia na tributação brasileira. Discutindo outros pontos, muita gente me trás: ”Olha, as empresas brasileiras pagam 34%’ [de alíquota]’. Isso, em tese. Quando olhamos para tributação efetiva, quando avaliamos mesmo, fica muito distante de 34%. As empresas no Brasil pagam, na média, 22%.”

O secretário do Ministério da Fazenda ainda bateu na tecla da sonegação, que a pasta considera um problema crítico. Em sua fala, citou um relatório recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) que cita o setor de combustíveis como vinculado ao crime organizado.

Segundo Durigan, a reforma deve criar novos mecanismos de acumulo de crédito com base no pagamento de tributos, combatendo a sonegação.

Brasil terá ‘juro para valer’ em 2025 e há pouca previsibilidade, diz economista do Bradesco

 

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, avalia que o Brasil deve ter um 2025 de ‘juro para valer’, reiterando as projeções do banco de uma Selic de 15,25% no pico, e de 14,75% ao fim do ano – após um corte no segundo semestre. O executivo participou do evento Plano de Voo 2025, da Amcham Brasil, que ocorre nesta segunda-feira, 17.

Apesar do comentário, reiterando o cenário de Selic, Honorato analisa que ainda há pouca previsibilidade para firmar expectativas acerca da política monetária, e que o início de uma nova administração nos Estados Unidos também pesa na balança.

“É consensual que juros serão mais altos [globalmente], principalmente se Trump ‘chacoalhar’ mais – e nós emergentes sabemos melhor o valor da previsibilidade. Mas nem essa premissa podemos tomar como verdade. Ainda falta uma âncora sólida. O preço dos ativos pode ir de um lado para outro, como vimos ocorrer com o dólar. Essa desancoragem é o que vai mais dificultar a vida do Banco Central“, disse.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, complementou a fala citando que o fiscal de 2026 deve ficar no radar para projeções macroeconômicas – considerando que já nos próximos meses há datas chave para o tema.

“Depois que aprovar o orçamento, tivermos Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2026 aprovada, que acontece em abril, o orçamento de 2026 sendo detalhado em agosto, teremos mais fricções de informações sobre política fiscal, o que é importante nesse cálculo dos riscos dos ativos.”

Nesse sentido, Vescovi ressalta que o Santander enxerga ‘boas chances’ de o governo cumprir as metas fiscais, mas com desafios. A visão da casa é de que o Governo precisará realizar um contingenciamento de gastos entre R$ 17 bilhões e R$ 25 bilhões.

Dólar mais baixo deve ser fruto de fiscal controlado

Honorato, do Bradesco, aponta que os modelos sugerem um dólar mais próximo de R$ 5 do que de R$ 6, mas que o fiscal deve ser um componente relevante para reduzir a volatilidade e a depreciação da moeda.

“Moeda depende de muitos fatores. Se nos próximos 3 ou 4 anos tivermos um ajuste fiscal mais profundo, aí poderemos apostar em um dólar mais próximo da média histórica”, disse, após citar que a média histórica do dólar desde 1980 é de R$ 3,93, subindo paulatinamente conforme a janela de comparação fica mais curta.

Vescovi pontua que os ‘choques’ no câmbio não são sustentáveis, relembrando os episódios recentes que fizeram o dólar bater R$ 6,30, e perder fôlego constantemente logo em seguida.

“Falando de uma visão mais distanciada. O que vemos, quando colocamos nos modelos é que, quando há um choque no mercado cambial, ele não persiste. Em algum momento ele volta. No longo prazo pode ter tendência de depreciação, claro, mas quando víamos o dólar a R$ 6,30 ou até acima disso, é perceptível que os modelos não se sustentam. Tem várias reações que trazem esse dólar para um patamar mais ‘comportado’, digamos assim.”

Mercado vê Selic terminal de 15%

Conforme a edição mais recente do Boletim Focus, o consenso do mercado financeiro projeta uma taxa Selic terminal de 15% em 2025. A projeção é mantida há seis semanas consecutivas.

Já para o ano que vem, o mercado financeiro espera uma taxa básica de juros em 12,50% – projeção 0,25 ponto percentual (p.p.) maior do que há quatro semanas, quando o Focus apontava para 12,25% de Selic.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

É o fim do Eataly no Brasil? Entenda a derrocada do centro gastronômico de luxo

 

Não tem mais Eataly no Brasil. Pelo menos, não mais a marca. O local em São Paulo segue operando normalmente com seu empório e estrutura gastronômica de restaurantes, café e padaria. Mas sem poder exibir a marca italiana que tem 40 unidades espalhadas em mais de uma dezena de países pelo mundo, entre Ásia, Oriente Médio, Europa e Américas.

Na última semana, a franqueada perdeu o direito de uso da marca em um processo arbitrário iniciado pela franqueadora italiana. O caso corre em segredo judicial e a empresa não quis dar mais detalhes, declarando apenas que a perda da marca “não é definitiva”. Enquanto isso, o imponente prédio envidraçado segue como um “anônimo” famoso.

A perda do nome foi mais um episódio envolvendo a franquia no Brasil. A empresa – que tem 10 anos de história no país – está em seu terceiro grupo de gestores. Hoje os responsáveis são o fundo Wings e um family office, com a operação liderada pelo CEO Marcos Calazans, que está tendo que lidar com um processo de recuperação judicial iniciado com dívidas somando os R$ 55 milhões. Segundo a empresa, R$ 20 milhões foram quitados e a operação segue cumprindo seus compromissos financeiros.

A franquia foi trazida para o Brasil pelo Grupo St Marche, dono da rede de supermercado de mesmo nome e pelo Empório Santa Maria, sob a gestão de Bernardo Ouro Preto e Victor Leal. A história é que o próprio fundador do Eataly, Oscar Farinetti, e o então CEO da marca internacional, Luca Baffigo, teriam escolhido a dupla, com direito a viagem até o Brasil para acompanhar de perto os preparos da operação tropical, a primeira na América Latina. O investimento foi 60% de sócios estrangeiros – entre americanos e italianos – e 40% dos brasileiros.

“Ele [grupo St Marche] enxergou o modelo como um varejo alimentar. Mas não é só alimentar, tinha a parte importada, vinhos, um jogo bem conhecido por eles, e fácil de operar. Mas mesmo o St Marche tendo essa expertise, o Eataly é enorme, com confeitaria, padaria, restaurantes, gastronomia. Foram inteligentes em trazer o apoio de especialistas nessas outras áreas”, lembra Cristina Souza, CEO da Gouvêa Foodservice, especialista em varejo alimentar.

Mas ela ressalta também que o modelo Eataly é um misto do conceito de mall (ou shopping center) com foodhall (área de alimentação). “Um mall tem que buscar sempre a criatividade pra trazer tráfego, com promoções. Essa mentalidade é muito importante e supermercadista não tem essa mesma mentalidade de mall”, avalia Souza. Entre outros desafios que a especialista acredita que podem ter impactado a operação brasileira estaria a própria localização. “Consideraria o local, com custo alto de estacionamento e que não tem outras ofertas como o shopping que está a uma distância de 5 minutos de caminhada”.

Fachada do Eataly em São Paulo em imagem do Google Street View antes da perda do direito à marca (Crédito:reprodução Google Street View)

E o principal. “No meio do caminho teve uma pandemia“, quando não apenas se represou a circulação de pessoas no mundo como também fez explodir a inflação e o câmbio, que na época da inauguração da loja estava no patamar de 3 reais, segundo dados do Banco Central, e saltou para o patamar na faixa dos 5-6 reais no auge da crise sanitária.

Pesquisando o histórico da inauguração por aqui, talvez a palavra mais usada para definir o empreendimento tenha sido “ousado“, com destaque para o prédio de 4,5 mil metros quadrados com fachada envidraçada na Avenida Juscelino Kubitschek, uma das regiões mais caras da capital paulista, e que, de um lado, está a poucos metros de um dos shoppings de luxo da cidade, o JK Iguatemi, e com mais alguns passos, de onde ficava a famosa loja Daslu. Para o outro lado, são cinco minutos andando até o cruzamento com a também conhecida Avenida Brigadeiro Faria Lima.

Quando chegou à capital paulista em 2015, carregava o peso da fama de suas pares, especialmente as unidades de Roma e Nova York, já conhecidas pelos brasileiros de maior poder aquisitivo, público-alvo da rede por aqui. O “frisson” (adjetivo para os mais velhos) ou o “hype” (para os mais novos) era claro, com o ambiente sempre muito movimentado e, como qualquer sucesso paulistano, com filas.

Na época, destacava-se que seria a 29ª loja da marca no mundo, com investimentos de R$ 40 milhões, mais de sete mil produtos, boa parte importados e de alto padrão, e mais de 500 funcionários. E ainda a projeção de expansão da marca para outras cidades do país, que nunca se concretizou.

“A ideia era muito boa. Juntar experiências gastronômicas com supermercado, com aulas de culinárias, é algo diferente. Agora, é preciso entender também que o posicionamento da marca, é para um público mais abastado, os restaurantes, tanto em Nova York como em Roma, são de padrão mais elevado. E todas as operações se dão em espaços nobres, então o custo do metro quadrado é alto. Uma operação dessa natureza requer volume”, aponta Claudio Felisoni, presidente do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo) e professor da FIA Business School.

Mas Felisoni lembra, em meio a oferta de produtos e serviços diferenciados e, por sua vez, de maior custo, o consumidor brasileiro teve um golpe no poder de compra, especialmente nos últimos anos, com inflação e juros em patamares elevados. “Isso diminuiu muito o potencial de atratividade da marca”.

Outro ponto contra, cita Felisoni, é que a cidade de São Paulo oferece uma ampla oferta de opções de bons restaurantes (osterias, trattorias etc.) e empórios (como Santa Luzia, que segue firme e forte) para o público AB.

Sob várias mãos

O Eataly ficou sob o comando do St Marche até 2022, quando passou para o controle da operadora multimarcas SouthRock, que carregava a expertise do varejo alimentar, sendo a responsável por Starbucks, Subway e TGI no Brasil, além da BAR (Brazil Airport Restaurants), focada em alimentação em aeroportos.

Contudo, em 2023, a  Southrock entrou em recuperação judicial, alegando dívidas de R$ 1,8 bilhão. O Eataly não foi incluído no processo de recuperação da SouthRock, e pouco depois passou para a gestão da Wings, que agora tem a recuperação judicial para lidar.

Procurado para comentar a situação da empresa no país, o Eataly afirma que o processo não impacta as operações da empresa, nem interfere no cumprimento de obrigações contratuais, fluxos regulares de pagamento ou nas condições previamente acordadas com parceiros e fornecedores (leia a íntegra da nota abaixo).

“O Eataly Brasil mantém, ainda, seu compromisso integral com seus colaboradores e com a excelência que caracteriza a experiência oferecida aos clientes. A empresa segue atuando com responsabilidade e consistência, com foco na sustentabilidade e no crescimento do negócio, reafirmando sua dedicação a todos os seus públicos”, diz ainda o texto.

Nova vida

Os especialistas ouvidos pela IstoÉ Dinheiro apontam para o grande desafio que a marca tem pela frente para se recuperar e manter sua operação sustentável, especialmente se considerarmos que o cenário econômico segue apertado, com juros em patamares elevados, câmbio desfavorável e pressão inflacionária.

“Os desafios para a continuidade do Eataly Brasil são grandes, exigindo estratégias sólidas para manter sua presença no mercado, acompanhada de uma gestão financeira mais eficiente”, aponta Samuel de Jesus Monteiro de Barros, reitor do Ibmec-RJ e especialista em Finanças.

Por outro lado, pondera, a marca é um forte ativo – apesar de ele estar em suspenso agora – que pode favorecer. “Sob a ótica financeira, dois aspectos se destacam. O primeiro é o valor estratégico da marca. O nome “Eataly” representa um ativo relevante para os investidores, atraindo consumidores que buscam uma experiência gastronômica de padrão internacional. Além disso, no terceiro trimestre de 2024, a operação brasileira voltou a atingir o break-even, mesmo com um faturamento abaixo da média histórica — um indicativo de viabilidade para o negócio”.

Contudo, diz Cristina, da Gouvêa, o cenário econômico apertado vale para todos os players. A solução agora, diz, passa por investimento em marketing e em gerar fluxo.

“Aquele lugar precisa de muito tráfego. Então precisa atrair as pessoas, lançar promoções, mais atrativos. Por mais que a empresa tenha 10 anos de presença no Brasil, são 10 anos de muitos solavancos também. Precisa de um trabalho de recuperação e investimento em marketing, brigar por produto e tráfego. E tirar vantagem de que o local também é atrativo turístico. O consumidor gosta de ver as coisas vivas e pujantes, e eles têm que entregar essa experiência”.

Já Claudio Felisoni, do Ibevar, vê com mais reticência o futuro da empresa por aqui. “O conceito que eles estão trouxeram de fora não deu certo. Essa experiência da forma como foi estruturada não funcionou. Esse modelo, em que pese o fato da pandemia, inflação e renda real comprimida, mercado competitivo, tudo isso é verdade. Mas esse modelo não funcionou. Eu diria que eles teriam que repensar, tem que repensar o modelo. Não vai ser fácil encontrar investidor”.

Filiais da Itália pelo mundo

O Eataly nasceu em Turim, na Itália, em 2007, fundado por Oscar Farinetti. Atualmente tem mais de 40 unidades pelo mundo, sendo considerado o maior centro gastronômico italiano do mundo. Suas lojas, principalmente nos Estados Unidos e na Itália, costumam ser ponto turístico das cidades.

Confira a nota do Eataly na íntegra:

O Eataly Brasil informa que a questão relacionada ao direito de uso da marca no país está em processo de arbitragem. O caso permanece sob sigilo, sem decisão definitiva até o momento, e será analisado pelas instâncias competentes. A empresa reafirma seu compromisso em cumprir integralmente a legislação vigente e respeitar as determinações judiciais e arbitrais aplicáveis.

Além disso, o Eataly Brasil solicitou um pedido de Recuperação Judicial com o propósito de viabilizar a continuidade do processo de mediação com credores, buscando a melhor solução para créditos em aberto. Essa decisão reflete o compromisso da empresa com uma negociação estruturada, que proporcione um acordo seguro, ágil e equilibrado para todas as partes envolvidas.

É importante destacar que esse processo não impacta as operações da empresa, nem interfere no cumprimento de obrigações contratuais, fluxos regulares de pagamento ou nas condições previamente acordadas com parceiros e fornecedores.

O Eataly Brasil mantém, ainda, seu compromisso integral com seus colaboradores e com a excelência que caracteriza a experiência oferecida aos clientes. A empresa segue atuando com responsabilidade e consistência, com foco na sustentabilidade e no crescimento do negócio, reafirmando sua dedicação a todos os seus públicos.