Atuação:
Consultoria multidisciplinar, onde desenvolvemos trabalhos nas seguintes áreas: fusão e aquisição e internacionalização de empresas, tributária, linhas de crédito nacionais e internacionais, inclusive para as áreas culturais e políticas públicas.
Os
portos brasileiros bateram recorde de movimentação de cargas em 2024,
com um total de 1,32 bilhão de toneladas. Os números foram apresentados
pelo governo federal em evento na Agência Nacional de Transportes
Aquaviários (Antaq). Apesar de números mistos entre as diferentes
categorias de terminais e cargas, o saldo final ficou 1,18% acima do
volume verificado em 2023.
Os portos públicos registraram 474,38 milhões de toneladas, aumento de 5,13% em comparação com o ano anterior.
Dentre
esses, o Porto de Santos, em São Paulo, destacou-se com a maior
movimentação, alcançando 138,69 milhões de toneladas, crescimento de
2,05%. O Porto de Salvador, na Bahia, apresentou o maior crescimento
porcentual, com acréscimo de 41,18% na comparação com 2023, totalizando
6,60 milhões de toneladas.
“O crescimento nos portos públicos
mostra o trabalho que tem sido feito pelas autoridades portuárias”,
disse o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho.
Ele
prometeu empenho do governo para manter as condições de avanço do
setor. “Criar cada vez mais segurança jurídica para quem quer
empreender”, afirmou.
Costa Filho disse que, ao lado de Antaq e do
Tribunal de Contas da União (TCU), busca acelerar a carteira de
concessões e arrendamentos. Os terminais autorizados experimentaram leve
retração, movimentando 845,98 milhões de toneladas, redução de 0,91% em
relação ao período anterior.
No
segmento, o Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, no Maranhão, foi o
destaque positivo, com 175,78 milhões de toneladas movimentadas,
acréscimo de 5,68%.
Quanto ao tipo de navegação, o transporte de
longo curso contabilizou 948,17 milhões de toneladas, crescimento de
2,29%. A cabotagem, que é a navegação entre os portos brasileiros, viu
um acréscimo de 0,92%, totalizando 293,56 milhões de toneladas. A
navegação interior, em cursos d’água internos como por rios, teve
redução de 9,58%, movimentando 75,93 milhões de toneladas.
Em
relação ao tipo de carga, o transporte de granel sólido teve queda de
0,25%, com 788,50 milhões de toneladas, enquanto o de granel líquido
diminuiu 3,78%, somando 313,10 milhões de toneladas. Já a carga
conteinerizada, experimentou um acréscimo de 20%, alcançando 153,33
milhões de toneladas.
Dentre as cargas em destaque, o trigo
liderou com um aumento de 39,51%, totalizando 9,03 milhões de toneladas.
O gás de petróleo apresentou crescimento de 35,31%, com 5,29 milhões de
toneladas movimentadas. Os combustíveis, óleos e produtos minerais
registraram um aumento de 23,63%, somando 4,06 milhões de toneladas.
Remédios empilhados em farmácia (Crédito: Agência Brasil)
Da redação com Reutersi
A
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou nota técnica
nesta segunda-feira, 17, informando que o Fator Y, um dos componentes
para o cálculo do reajuste anual dos preços dos medicamentos no país, será zero para 2025/2026.
O
teto do reajuste para remédios em 2025 deve ser anunciado pelo governo
até o final de março. Para decidir sobre o tamanho dos reajustes, a
Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) usa a fórmula IPCA
– Fator X + Fator Y + Fator Z.
O
Fator X, que mensura a produtividade da indústria farmacêutica no país,
foi definido pela CMED no mês passado em 2,459% para o período de julho
de 2024 a junho de 2025.
O Fator Y, conforme a nota técnica da
Anvisa, é definido como o ajuste de preços entre o setor farmacêutico e
os demais setores da economia, calculado com base nos custos não
recuperados pelo IPCA.
Tal
ajuste, explicou a agência, permite minimizar o impacto desses custos
que não são captados diretamente no cálculo do índice de inflação e que
possuem impacto relevante sobre a estrutura de custo da indústria
farmacêutica.
Enquanto isso, o Fator Z é um fator de ajuste de preços relativos intrassetores.
Projeção do mercado
Analistas
do Itaú BBA afirmaram que o Fator Y ficou dentro das suas expectativas,
mas abaixo do que veem como esperado pelo mercado, em torno de 1%. A
partir dos fatores já publicados, eles calculam que o reajuste final dos medicamentos deve ficar em torno de 3,7%.
Confirmada as expectativas, o reajuste dos remédios também ficará abaixo da inflação oficial do país do ano passado que ficou em 4,83%.
“Para
a Hypera, estimamos que menos de 40% das receitas da empresa estão
expostas ao aumento de preços da CMED”, acrescentaram Vinicius
Figueiredo e equipe em relatório enviado a clientes no final da
segunda-feira.
“Dessa forma, há espaço para a empresa compensar
esse efeito aumentando os preços no restante de seus produtos não
regulados por preços.”
Reflexos para as farmácias
Em
relação aos potenciais efeitos em drogarias, os analistas do Itaú BBA
desta vez liderados por Rodrigo Gastim avaliaram negativamente um
potencial reajuste abaixo da inflação, destacando que contrasta com os
últimos dois anos, quando os ajustes estavam virtualmente em linha com o
IPCA.
“Tal cenário pode prejudicar a capacidade das farmácias de
entregar alavancagem operacional, particularmente no segundo semestre de
2025, pois esperamos que a inflação acelere ao longo do ano”, afirmaram
os analistas, em relatório separado.
Após a definição do fator Y,
e também considerando outras premissas, os analistas do Itaú BBA
reduziram a previsão para o lucro líquido da RD Saúde em 7% para 2025 e
em 8% para 2026.
Gastim e equipe ainda chamaram a atenção para
outra medida que impacta os preços que ocorrerá simultaneamente neste
ano: a resolução que reduz os preços máximos dos medicamentos para
refletir uma diminuição de carga tributária ocorrida anos atrás – ou
seja, a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins.
Isso,
na visão dos analistas, pode levar a uma redução de preços ao consumidor
de até 2,59%, dependendo da carga tributária específica de cada
produto.
A
montadora francesa Renault e o grupo chinês Zhejiang Geely Holding
fecharam um acordo para produzir e vender de forma conjunta carros
elétricos e de baixa emissão de carbono no Brasil, segundo comunicado
divulgado nesta segunda-feira, 17. As negociações ainda estão sujeitas a
um acordo definitivo e a aprovação de autoridades relevantes.
De
acordo com a Renault, a parceria permitirá que o Geely acesse o complexo
industrial Ayrton Senna, em São Jose dos Pinhais, no Paraná, incluindo
áreas de produção, vendas e redes de serviços no Brasil. Em troca, o
grupo Geely será uma investidora minoritária na filial da francesa no
Brasil.
“A
Renault do Brasil se tornará uma distribuidora do portfólio de veículos
do Geely Holding no país, por meio do seu ecossistema de distribuição
existente”, descreve a nota. “Por meio desta parceria, ambas as empresas
serão capazes de expandir seus poderes de marca e se tornarão players
centrais no Brasil, mercado que representa 44% das vendas automotivas na
América Latina.”
O grupo Geely detém diversas marcas de carros ao
redor do mundo, incluindo a montadora de veículos elétricos da China,
Zeekr, e a sueca Volvo.
O
ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, voltou a pedir
publicamente pela emissão da licença ambiental que vai permitir à
Petrobras perfurar e procurar petróleo na chamada Margem Equatorial, no
litoral nordeste e norte do País. “A Petrobras já entregou os estudos
complementares ao Ibama e chegou a hora de essa chave virar”, disse
Silveira em evento organizado pela Petrobras em Angra dos Reis, no Rio
de Janeiro.
E continuou: “Queremos pesquisar a Margem Equatorial
de maneira ambientalmente sustentável. Temos que aproveitar mais essa
fonte de riqueza nacional e gerar empregos em todo o País. Os resultados
positivos de nossas reservas vão acelerar a transição energética no
Brasil.”
Em seguida, ele afirmou que perfurar a Margem Equatorial é uma questão de “soberania nacional”.
Silveira
também disse que a produção de óleo e gás em águas contíguas à Margem
Equatorial brasileira está “mudando a realidade de países vizinhos”.
“O
PIB da Guiana cresceu 50% no ano passado. O Brasil merece viver essa
transformação. É uma arrecadação de mais de R$ 1 trilhão que precisa ser
destinada à saúde e educação. Não podemos aceitar mais de R$ 350
bilhões em investimentos parados”, reclamou o ministro.
Antes
dele, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, já havia feito
pressão pela licença do Ibama em discurso no mesmo evento. Nas últimas
semanas, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e membros
do governo também têm sido mais vocais nesse sentido.
Silveira
foi o pivô da última troca de comando na estatal, após conflitos
sucessivos com o antecessor de Magda, Jean Paul Prates.
Indústria Naval
Silveira também saudou os esforços do governo federal e da Petrobras em retomar a indústria naval.
“Essa
indústria foi desmantelada pelo governo anterior. A Petrobras não
renovava frota marítima há 10 anos”, disse Silveira ao elogiar as
encomendas de momento da Petrobras e o lançamento de novo edital para
incrementar a frota da subsidiária de transporte da Petrobras, a
Transpetro. “Temos que defender as políticas públicas que voltaram para o
Brasil”, disse, sobre o movimento da estatal que, segundo ele, dá
tranquilidade por ter atualmente uma “diretoria harmoniosa”.
Ao fundo, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario
Durigan. Na frente, o Diretor de Política monetária do Banco Central,
Nilton David (esq.) e o CEO da Amcham Brasil, Abrão Neto (dir.)
(Crédito: Amcham Brasil/Divulgação)
Eduardo Vargasi
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan,
disse nesta segunda-feira, 17, que o governo mira aumentar a tributação
para as classes mais altas e, em contrapartida, ‘beneficiar cerca de 10
milhões de brasileiros’ com a ampliação da faixa de isenção do Imposto
de Renda.
“Você
estaria beneficiando 10 milhões de brasileiros a mais com a
contrapartida de estar tributando, com imposto mínimo, uma alíquota teto
de 10% sobre os mais ricos, que envolve um universo de 150 mil ou 160
mil pessoas, que hoje têm uma média de contribuição do imposto de renda
muito abaixo do que um trabalhador comum paga”, disse secretário,
durante participação de evento promovido pela Amcham Brasil.
O número 2 de Haddad no Ministério da Fazenda participou de painel com Nilton David, Diretor de Política Monetária do Banco Central (BC).
Segundo
o secretário, existe uma ‘discrepância grande’ no pagamento de
tributos, com mais ricos pagando cerca de 2%, ao passo que o brasileiro
médio paga uma alíquota efetiva de 12%.
As
duas iniciativas dependem da aprovação do Congresso Nacional e aguardam
o envio da proposta oficial do governo de reforma do Imposto de Renda.
‘Falta de isonomia na tributação’
Sobre a reforma tributária recém aprovada, Durigan
declarou que a nova regra ‘simplifica o sistema brasileiro’, que
admitiu ser ‘áspero e difícil de navegar’. “Teremos muito ganho de
produtividade e de eficiência [com a reforma]”, disse.
Durigan ainda frisou que um dos pontos relevantes do texto aprovado é a redução da ‘guerra fiscal’.
“Temos
muita falta de isonomia na tributação brasileira. Discutindo outros
pontos, muita gente me trás: ”Olha, as empresas brasileiras pagam 34%’
[de alíquota]’. Isso, em tese. Quando olhamos para tributação efetiva,
quando avaliamos mesmo, fica muito distante de 34%. As empresas no
Brasil pagam, na média, 22%.”
O secretário do Ministério da Fazenda
ainda bateu na tecla da sonegação, que a pasta considera um problema
crítico. Em sua fala, citou um relatório recente do Fórum Brasileiro de
Segurança Pública (FBSP) que cita o setor de combustíveis como vinculado
ao crime organizado.
Segundo Durigan, a reforma deve criar novos
mecanismos de acumulo de crédito com base no pagamento de tributos,
combatendo a sonegação.
O
economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, avalia que o Brasil
deve ter um 2025 de ‘juro para valer’, reiterando as projeções do banco
de uma Selic de 15,25% no pico, e de 14,75% ao fim do
ano – após um corte no segundo semestre. O executivo participou do
evento Plano de Voo 2025, da Amcham Brasil, que ocorre nesta
segunda-feira, 17.
Apesar
do comentário, reiterando o cenário de Selic, Honorato analisa que
ainda há pouca previsibilidade para firmar expectativas acerca da
política monetária, e que o início de uma nova administração nos Estados
Unidos também pesa na balança.
“É
consensual que juros serão mais altos [globalmente], principalmente se
Trump ‘chacoalhar’ mais – e nós emergentes sabemos melhor o valor da
previsibilidade. Mas nem essa premissa podemos tomar como verdade. Ainda
falta uma âncora sólida. O preço dos ativos pode ir de um lado para
outro, como vimos ocorrer com o dólar. Essa desancoragem é o que vai
mais dificultar a vida do Banco Central“, disse.
Ana
Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, complementou a fala
citando que o fiscal de 2026 deve ficar no radar para projeções
macroeconômicas – considerando que já nos próximos meses há datas chave
para o tema.
“Depois que aprovar o orçamento, tivermos Lei de
Diretrizes Orçamentárias para 2026 aprovada, que acontece em abril, o
orçamento de 2026 sendo detalhado em agosto, teremos mais fricções de
informações sobre política fiscal, o que é importante nesse cálculo dos
riscos dos ativos.”
Nesse
sentido, Vescovi ressalta que o Santander enxerga ‘boas chances’ de o
governo cumprir as metas fiscais, mas com desafios. A visão da casa é de
que o Governo precisará realizar um contingenciamento de gastos entre
R$ 17 bilhões e R$ 25 bilhões.
Dólar mais baixo deve ser fruto de fiscal controlado
Honorato, do Bradesco, aponta que os modelos sugerem um dólar
mais próximo de R$ 5 do que de R$ 6, mas que o fiscal deve ser um
componente relevante para reduzir a volatilidade e a depreciação da
moeda.
“Moeda
depende de muitos fatores. Se nos próximos 3 ou 4 anos tivermos um
ajuste fiscal mais profundo, aí poderemos apostar em um dólar mais
próximo da média histórica”, disse, após citar que a média histórica do
dólar desde 1980 é de R$ 3,93, subindo paulatinamente conforme a janela
de comparação fica mais curta.
Vescovi pontua que os ‘choques’ no
câmbio não são sustentáveis, relembrando os episódios recentes que
fizeram o dólar bater R$ 6,30, e perder fôlego constantemente logo em
seguida.
“Falando de uma visão mais distanciada. O que vemos,
quando colocamos nos modelos é que, quando há um choque no mercado
cambial, ele não persiste. Em algum momento ele volta. No longo prazo
pode ter tendência de depreciação, claro, mas quando víamos o dólar a R$
6,30 ou até acima disso, é perceptível que os modelos não se sustentam.
Tem várias reações que trazem esse dólar para um patamar mais
‘comportado’, digamos assim.”
Mercado vê Selic terminal de 15%
Conforme a edição mais recente do Boletim Focus, o consenso do mercado financeiro projeta uma taxa Selic terminal de 15% em 2025. A projeção é mantida há seis semanas consecutivas.
Já
para o ano que vem, o mercado financeiro espera uma taxa básica de
juros em 12,50% – projeção 0,25 ponto percentual (p.p.) maior do que há
quatro semanas, quando o Focus apontava para 12,25% de Selic.
Não tem mais Eataly no Brasil. Pelo menos, não mais a marca.
O local em São Paulo segue operando normalmente com seu empório e
estrutura gastronômica de restaurantes, café e padaria. Mas sem poder
exibir a marca italiana que tem 40 unidades espalhadas em mais de uma
dezena de países pelo mundo, entre Ásia, Oriente Médio, Europa e
Américas.
Na última semana, a franqueada perdeu o direito de uso da marca em um processo arbitrário iniciado pela franqueadora italiana.
O caso corre em segredo judicial e a empresa não quis dar mais
detalhes, declarando apenas que a perda da marca “não é definitiva”.
Enquanto isso, o imponente prédio envidraçado segue como um “anônimo”
famoso.
A perda do nome foi mais um episódio envolvendo a franquia
no Brasil. A empresa – que tem 10 anos de história no país – está em
seu terceiro grupo de gestores. Hoje os responsáveis são o fundo Wings e
um family office, com a operação liderada pelo CEO Marcos Calazans, que
está tendo que lidar com um processo de recuperação judicial iniciado
com dívidas somando os R$ 55 milhões. Segundo a empresa, R$ 20 milhões
foram quitados e a operação segue cumprindo seus compromissos
financeiros.
A
franquia foi trazida para o Brasil pelo Grupo St Marche, dono da rede
de supermercado de mesmo nome e pelo Empório Santa Maria, sob a gestão
de Bernardo Ouro Preto e Victor Leal. A história é que o próprio
fundador do Eataly, Oscar Farinetti, e o então CEO da marca
internacional, Luca Baffigo, teriam escolhido a dupla, com direito a
viagem até o Brasil para acompanhar de perto os preparos da operação
tropical, a primeira na América Latina. O investimento foi 60% de sócios
estrangeiros – entre americanos e italianos – e 40% dos brasileiros.
“Ele
[grupo St Marche] enxergou o modelo como um varejo alimentar. Mas não é
só alimentar, tinha a parte importada, vinhos, um jogo bem conhecido
por eles, e fácil de operar. Mas mesmo o St Marche tendo essa expertise,
o Eataly é enorme, com confeitaria, padaria, restaurantes, gastronomia.
Foram inteligentes em trazer o apoio de especialistas nessas outras
áreas”, lembra Cristina Souza, CEO da Gouvêa Foodservice, especialista
em varejo alimentar.
Mas
ela ressalta também que o modelo Eataly é um misto do conceito de mall
(ou shopping center) com foodhall (área de alimentação). “Um mall tem
que buscar sempre a criatividade pra trazer tráfego, com promoções. Essa
mentalidade é muito importante e supermercadista não tem essa mesma
mentalidade de mall”, avalia Souza. Entre outros desafios que a
especialista acredita que podem ter impactado a operação brasileira
estaria a própria localização. “Consideraria o local, com custo alto de
estacionamento e que não tem outras ofertas como o shopping que está a
uma distância de 5 minutos de caminhada”.
Fachada
do Eataly em São Paulo em imagem do Google Street View antes da perda
do direito à marca (Crédito:reprodução Google Street View)
E o principal. “No meio do caminho teve uma pandemia“, quando não apenas se represou a circulação de pessoas no mundo como também fez explodir a inflação e o câmbio,
que na época da inauguração da loja estava no patamar de 3 reais,
segundo dados do Banco Central, e saltou para o patamar na faixa dos 5-6
reais no auge da crise sanitária.
Pesquisando o histórico da inauguração por aqui, talvez a palavra mais usada para definir o empreendimento tenha sido “ousado“, com destaque para o prédio de 4,5 mil metros quadrados com fachada envidraçada
na Avenida Juscelino Kubitschek, uma das regiões mais caras da capital
paulista, e que, de um lado, está a poucos metros de um dos shoppings de
luxo da cidade, o JK Iguatemi, e com mais alguns
passos, de onde ficava a famosa loja Daslu. Para o outro lado, são cinco
minutos andando até o cruzamento com a também conhecida Avenida
Brigadeiro Faria Lima.
Quando chegou à capital paulista em 2015, carregava o peso da fama de suas pares, especialmente as unidades de Roma e Nova York,
já conhecidas pelos brasileiros de maior poder aquisitivo, público-alvo
da rede por aqui. O “frisson” (adjetivo para os mais velhos) ou o
“hype” (para os mais novos) era claro, com o ambiente sempre muito
movimentado e, como qualquer sucesso paulistano, com filas.
Na
época, destacava-se que seria a 29ª loja da marca no mundo, com
investimentos de R$ 40 milhões, mais de sete mil produtos, boa parte
importados e de alto padrão, e mais de 500 funcionários. E ainda a projeção de expansão da marca para outras cidades do país, que nunca se concretizou.
“A
ideia era muito boa. Juntar experiências gastronômicas com
supermercado, com aulas de culinárias, é algo diferente. Agora, é
preciso entender também que o posicionamento da marca, é para um público
mais abastado, os restaurantes, tanto em Nova York como em Roma, são de
padrão mais elevado. E todas as operações se dão em espaços nobres,
então o custo do metro quadrado é alto. Uma operação dessa natureza
requer volume”, aponta Claudio Felisoni, presidente do Ibevar (Instituto
Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo) e professor da
FIA Business School.
Mas Felisoni lembra, em meio a oferta de
produtos e serviços diferenciados e, por sua vez, de maior custo, o
consumidor brasileiro teve um golpe no poder de compra, especialmente
nos últimos anos, com inflação e juros em patamares elevados. “Isso diminuiu muito o potencial de atratividade da marca”.
Outro
ponto contra, cita Felisoni, é que a cidade de São Paulo oferece uma
ampla oferta de opções de bons restaurantes (osterias, trattorias etc.) e
empórios (como Santa Luzia, que segue firme e forte) para o público AB.
Sob várias mãos
O
Eataly ficou sob o comando do St Marche até 2022, quando passou para o
controle da operadora multimarcas SouthRock, que carregava a expertise
do varejo alimentar, sendo a responsável por Starbucks, Subway e TGI no
Brasil, além da BAR (Brazil Airport Restaurants), focada em alimentação
em aeroportos.
Contudo, em 2023, a Southrock entrou em
recuperação judicial, alegando dívidas de R$ 1,8 bilhão. O Eataly não
foi incluído no processo de recuperação da SouthRock, e pouco depois
passou para a gestão da Wings, que agora tem a recuperação judicial para
lidar.
Procurado para comentar a situação da empresa no país, o
Eataly afirma que o processo não impacta as operações da empresa, nem
interfere no cumprimento de obrigações contratuais, fluxos regulares de
pagamento ou nas condições previamente acordadas com parceiros e
fornecedores (leia a íntegra da nota abaixo).
“O Eataly Brasil
mantém, ainda, seu compromisso integral com seus colaboradores e com a
excelência que caracteriza a experiência oferecida aos clientes. A
empresa segue atuando com responsabilidade e consistência, com foco na
sustentabilidade e no crescimento do negócio, reafirmando sua dedicação a
todos os seus públicos”, diz ainda o texto.
Nova vida
Os especialistas ouvidos pela IstoÉ Dinheiro
apontam para o grande desafio que a marca tem pela frente para se
recuperar e manter sua operação sustentável, especialmente se
considerarmos que o cenário econômico segue apertado, com juros em
patamares elevados, câmbio desfavorável e pressão inflacionária.
“Os
desafios para a continuidade do Eataly Brasil são grandes, exigindo
estratégias sólidas para manter sua presença no mercado, acompanhada de
uma gestão financeira mais eficiente”, aponta Samuel de Jesus Monteiro
de Barros, reitor do Ibmec-RJ e especialista em Finanças.
Por
outro lado, pondera, a marca é um forte ativo – apesar de ele estar em
suspenso agora – que pode favorecer. “Sob a ótica financeira, dois
aspectos se destacam. O primeiro é o valor estratégico da marca. O nome
“Eataly” representa um ativo relevante para os investidores, atraindo
consumidores que buscam uma experiência gastronômica de padrão
internacional. Além disso, no terceiro trimestre de 2024, a operação
brasileira voltou a atingir o break-even, mesmo com um faturamento
abaixo da média histórica — um indicativo de viabilidade para o
negócio”.
Contudo, diz Cristina, da Gouvêa, o cenário econômico
apertado vale para todos os players. A solução agora, diz, passa por
investimento em marketing e em gerar fluxo.
“Aquele lugar precisa de muito tráfego. Então precisa atrair as
pessoas, lançar promoções, mais atrativos. Por mais que a empresa tenha
10 anos de presença no Brasil, são 10 anos de muitos solavancos também.
Precisa de um trabalho de recuperação e investimento em marketing,
brigar por produto e tráfego. E tirar vantagem de que o local também é
atrativo turístico. O consumidor gosta de ver as coisas vivas e
pujantes, e eles têm que entregar essa experiência”.
Já
Claudio Felisoni, do Ibevar, vê com mais reticência o futuro da empresa
por aqui. “O conceito que eles estão trouxeram de fora não deu certo.
Essa experiência da forma como foi estruturada não funcionou. Esse
modelo, em que pese o fato da pandemia, inflação e renda real
comprimida, mercado competitivo, tudo isso é verdade. Mas esse modelo
não funcionou. Eu diria que eles teriam que repensar, tem que repensar o
modelo. Não vai ser fácil encontrar investidor”.
Filiais da Itália pelo mundo
O
Eataly nasceu em Turim, na Itália, em 2007, fundado por Oscar
Farinetti. Atualmente tem mais de 40 unidades pelo mundo, sendo
considerado o maior centro gastronômico italiano do mundo. Suas lojas,
principalmente nos Estados Unidos e na Itália, costumam ser ponto
turístico das cidades.
Confira a nota do Eataly na íntegra:
O
Eataly Brasil informa que a questão relacionada ao direito de uso da
marca no país está em processo de arbitragem. O caso permanece sob
sigilo, sem decisão definitiva até o momento, e será analisado pelas
instâncias competentes. A empresa reafirma seu compromisso em cumprir
integralmente a legislação vigente e respeitar as determinações
judiciais e arbitrais aplicáveis.
Além disso, o Eataly
Brasil solicitou um pedido de Recuperação Judicial com o propósito de
viabilizar a continuidade do processo de mediação com credores, buscando
a melhor solução para créditos em aberto. Essa decisão reflete o
compromisso da empresa com uma negociação estruturada, que proporcione
um acordo seguro, ágil e equilibrado para todas as partes envolvidas.
É
importante destacar que esse processo não impacta as operações da
empresa, nem interfere no cumprimento de obrigações contratuais, fluxos
regulares de pagamento ou nas condições previamente acordadas com
parceiros e fornecedores.
O Eataly Brasil mantém, ainda,
seu compromisso integral com seus colaboradores e com a excelência que
caracteriza a experiência oferecida aos clientes. A empresa segue
atuando com responsabilidade e consistência, com foco na
sustentabilidade e no crescimento do negócio, reafirmando sua dedicação a
todos os seus públicos.