quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Produção nacional da Shein patina com prazos apertados e exigência de preços baixos para produtores

 

Em 2023 a varejista chinesa Shein anunciava um investimento milionário no Brasil: US$ 150 milhões em parcerias com dois mil fabricantes locais, criando 100.000 empregos no setor no Brasil até 2026. 

Em 2024 a produção em território nacional ganhou ainda mais urgência para a plataforma, com a criação da “taxa das blusinhas”, que acabou com a isenção de impostos para compras até US$ 50 em sites internacionais, criando uma taxa de 20%.

Mais de dois anos se passaram e a realidade está bem distante do sonho vendido pela companhia: com prazos muito apertados, preços mais baixos do que os praticados pelo varejo nacional e grandes desafios de logística, os ambiciosos planos da gigante chinesa estão patinando no país. 

A reportagem da Reuters ouviu representantes da indústria e fabricantes que trabalharam na operação da Shein no país. “Uma coisa é trabalhar no Brasil, outra é trabalhar na China. O Brasil tem regramento e normas muito diferentes”, disse Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), que representa mais de 25.000 empresas em todo o Brasil.

Dois executivos familiarizados com a estratégia da Shein no Brasil, que pediram para não ser identificados, confirmaram que a produção local ficou aquém das metas originais da empresa, sem fornecer números.

Dificuldade em atender demanda 

Seis proprietários de fábricas entrevistados pela Reuters disseram que encerraram suas parcerias depois que a Shein exigiu cortes acentuados de preços e prazos mais apertados que consideraram impossíveis de cumprir.

“Para chegar ao preço que eles queriam, teríamos que trabalhar com um outro tipo de tecido”, disse Januncio Nóbrega de Azevedo, proprietário da Nobre Confecções, uma empresa de 59 funcionários que fazia parte de um consórcio de confecções no Nordeste atendendo pedidos da Shein no segundo semestre de 2023.

Depois de produzir para a Shein por seis meses, ele ficou com excesso de material que teve que vender no mercado local por um valor não divulgado.

Por outro lado, a reportagem também ouviu Marco Britto, proprietário da GB Confecções, no Espírito Santo, que segue produzindo para a Shein e elogiou a agilidade no pagamento da plataforma, que paga em 30 dias ao invés dos 90 dias de outras companhias do setor.  “Eles são muito menos burocráticos, é fácil trabalhar com a Shein”, disse.

PMEs operam com margens apertadas

Quatro dos seis ex-fornecedores da Shein entrevistados pela Reuters operam em pequenas cidades focadas na indústria têxtil.

“Tínhamos expectativas altas”, disse José Medeiros de Araújo, proprietário da Zaja, uma fábrica de confecções em Cerro Corá, cidade do Rio Grande do Norte com pouco mais de 11.000 habitantes.

Depois de produzir um pedido inicial para a Shein em meados de 2023, o empresário disse que a varejista repentinamente exigiu prazos de entrega mais rápidos, reduziu seu número total de pedidos e exigiu cortes de preços de até 30%.

Em um caso, foi solicitado que ele reduzisse o preço de atacado de uma saia de R$ 50 para R$ 38, e de uma jaqueta de R$ 65 para R$ 45.

“O plano era crescer”, disse ele. “Mas, para nós, aqui no Nordeste, era inviável”.

“Preço baixo e prazo curto só funcionam em cadeias maduras, previsíveis e capitalizadas. No Brasil, muitas PMEs operam com margens apertadas e pouquíssima gordura financeira para absorver riscos. Quando o grande player ignora isso, ele não torna o fornecedor mais eficiente, ele simplesmente torna a operação insustentável. Velocidade sem base não gera competitividade; gera colapso nessas empresas”, explicou Marcos Freitas, CEO da Seja AP e especialista em evolução empresarial.

A Shein não quis comentar as declarações. 

Progresso mais lento 

Em resposta à reportagem, a Shein admitiu que a entrada no mercado brasileiro não foi como o esperado. “A produção no Brasil exigiu tempo para amadurecer, e logo diferenças na infraestrutura empresarial e industrial se tornaram aparentes”, disse a empresa. “Como tal, o progresso tem sido mais lento e desafiador.”

O resultado foi uma mudança de estratégia da companhia, que agora está adotando uma abordagem mais “seletiva” para aprofundar parcerias com “as fábricas mais capazes”.

A Shein se recusou a dizer quantos fornecedores locais tem atualmente, mas acrescentou que seu marketplace online no Brasil “apoia mais de 45.000 empreendedores e vendedores locais, reforçando o Brasil como um dos mercados mais dinâmicos da empresa em todo o mundo”. 

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