quarta-feira, 22 de julho de 2026

Setores reagem à tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos

 

Os mercados mais afetados têm os Estados Unidos como principal destino para suas exportações, mesmo após tarifas impostas no ano passado 
 
 
Indústria da madeira é a mais afetada

 

 

Começa a valer nesta quarta-feira (22), a medida do governo dos Estados Unidos que impõe novas tarifas à importação de produtos brasileiros. A sobretaxa atinge US$ 11 bilhões em exportações brasileiras, o equivalente a 26,2%, e compromete a competitividade da indústria nacional em um dos seus principais mercados. Entre as exportações atingidas, 60,3% correspondem a bens intermediários utilizados pela indústria dos Estados Unidos. Além disso, o Brasil é o principal fornecedor ao mercado norte-americano em 10 dos 13 principais produtos atingidos pela medida.

Setores mais afetados pela tarifa adicional de 25%


Segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI)

  • 83,1% — Madeira
    Moldura de madeira padrão de pinho; estacas, portas de emergência.

  • 56,3%  Minerais não metálicos
    Granito, lajes, pavimentações e azulejos, tijolos, blocos, telhas refratárias.

  • 51,8% — Químicos
    Álcool etílico não desnaturado, peptones e seus derivados, benzeno com pureza de 95% ou mais em peso e preparações para uso no cabelo.

  • 44,8% — Alimentos
    Açúcar de cana em forma sólida bruta; sebo não comestível, açúcares especiais de cana ou beterraba e sacarose quimicamente pura e carne suína congelada.

  • 30,3% — Veículos automotores
    Niveladoras e aplainadoas autopropelidas, veículos motorizados para transporte de mercadorias, pás-carregadoras trator integrais, tratores de esteiras e angulares e tratores de colocação de esteiras.

  • 24,0% — Celulose e papel
    Pasta química de madeira, papel ou cartão para escrita, massa base para caixas de leite e outras embalagens de bebidas, papel com revestimento térmico direto.

  • 12,5% — Máquinas e equipamentos
    Torneiras, válvulas, máquinas de britagem de terra, peças de máquinas para fabricação de açúcar e peças de máquinas de padaria e máquinas para fabricação de macarrão.


Associações industriais manifestam preocupação
Diversas associações setoriais declararam sua preocupação diante da medida, e apelaram ao governo para a continuidade das negociações. Em comum, as entidades criticam a adoção de critérios arbitrários e políticos, em vez de técnicos, por parte do estado americano.

Madeira — Representando o segmento mais impactado, a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), destacou, em nota, a força do impacto sobre o setor, que ainda se recuperava das tarifas impostas em 2025. "A perda de competitividade decorrente dessas novas tarifas compromete a continuidade de negócios construídos ao longo de décadas com os Estados Unidos e coloca em risco investimentos, a produção e postos de trabalho", disse a entidade. Além disso, reforçou a relevância dos produtos brasileiros para o mercado norte-americano, sua complementaridade em relação à produção local, a inexistência de concorrência direta com a indústria dos Estados Unidos e a dificuldade de substituição por fornecedores de outros países.

Revestimentos cerâmicos — O mercado brasileiro de cerâmica também tem como principal mercado os Estados Unidos. A Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos (Anfacer) informou que em 2024, último ano sem a incidência das tarifas adicionais, os Estados Unidos responderam 25% das exportações brasileiras de revestimentos cerâmicos. No ano passado, os efeitos das medidas tarifárias já foram percebidos de forma significativa: as exportações para o mercado norte-americano registraram queda de 31,7% na receita e de 24,2% no volume em relação ao ano anterior. Na comparação entre o primeiro semestre de 2026 e o mesmo período de 2025, as exportações para os Estados Unidos recuaram 48,3% em receita e 45,8% em volume. "Ao longo dos últimos anos, a indústria nacional consolidou sua presença nesse mercado por meio de investimentos contínuos em tecnologia, inovação, sustentabilidade e eficiência produtiva ,tornando o Brasil um dos principais produtores e exportadores mundiais do setor", declarou a Anfacer, em nota.

Indústria química — Em termos de valor exportado, as isenções abrangem entre 64% e 71% das vendas brasileiras ao mercado norte-americano. A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) avalia que a decisão dos Estados Unidos ignora a realidade do comércio bilateral no setor químico, amplia a insegurança para as cadeias produtivas e reforça a necessidade de medidas de mitigação e da continuidade das negociações entre os dois países. Para a entidade, a medida não encontra justificativa na relação comercial entre os dois países e tampouco contribui para ampliar a competitividade da indústria norte-americana.

Plástico — Segundo o presidente do Conselho da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz, a nova tarifa pode comprometer as exportações brasileiras ligadas direta ou indiretamente ao setor plástico, representando perdas estimadas entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões. "A preocupação é ainda maior para pequenas e médias empresas exportadoras que possuem elevada dependência das vendas aos Estados Unidos. Para muitas delas, a perda de competitividade decorrente da tarifa de 25% pode comprometer a manutenção das operações, tornando necessária a adoção de medidas emergenciais de apoio enquanto se busca uma solução definitiva para o impasse comercial", conclui Roriz.

Agronegócio — O agro também não sai ileso. No Rio Grande do Sul, uma nota técnica da assessoria econômica da Farsul revela que, enquanto a medida atinge 38% do valor total das exportações brasileiras aos EUA — o equivalente a US$ 14,3 bilhões —, no Rio Grande do Sul, esse índice chega a 79%, somando US$ 1,3 bilhão. No agronegócio, a disparidade se mantém. A parcela da pauta agropecuária brasileira impactada é de 32,7%, enquanto no estado gaúcho a exposição alcança 70,4%.

Máquinas e equipamentos — Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) disse não estar surpresa com o movimento dos Estados Unidos, mas destacou o impacto negativo para a competitividade da indústria. "Embora a medida represente um fator adicional de preocupação para a indústria brasileira, o resultado preliminar está em linha com as expectativas do setor, que já trabalhava com a possibilidade de tarifas entre 20% e 30%", destaca a nota emitida pela associação.

Têxtil e confecção — A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) declarou que medidas dessa natureza aumentam a insegurança no comércio internacional, reduzem a competitividade das empresas e geram impactos sobre investimentos, produção, emprego e integração das cadeias produtivas.

 

 https://amanha.com.br/categoria/industria/setores-reagem-a-tarifa-adicional-de-25-dos-estados-unidos

Índice de condições financeiras da indústria tem leve avanço

 

Apesar da alta, carga tributária, acesso à matéria-prima e juros travam desempenho do setor 
 
 
O indicador ainda segue abaixo da linha divisória de 50 pontos, revelando insatisfação dos industriais

As empresas industriais tornaram-se menos insatisfeitas com as próprias condições financeiras no segundo trimestre de 2026, aponta a Sondagem Industrial, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta terça-feira (21). No entanto, o peso dos impostos, os juros elevados e o alto custo de insumos e matérias-primas impediram um desempenho melhor do setor. De acordo com o levantamento, o índice que mede a satisfação dos empresários subiu 0,7 ponto, chegando aos 47,9 pontos, em uma escala que vai de 0 a 100. Apesar da alta, o indicador segue abaixo da linha divisória de 50 pontos, revelando insatisfação dos industriais, ainda que em menor intensidade do que no primeiro trimestre.

Os índices de satisfação com o lucro operacional e de facilidade de acesso ao crédito aumentaram 1 ponto e 0,9 ponto, para 42,9 pontos e 39,9 pontos, respectivamente. Contudo, ambos continuam abaixo da linha de 50 pontos. Outra notícia positiva para o setor foi a queda do índice de evolução do preço médio das matérias-primas, que recuou 2 pontos, para 64,1 pontos. O resultado mostra que, para os empresários, o preço dos insumos caiu em relação ao primeiro trimestre, mas seguem elevados. "Os cortes na taxa de juros foram modestos e tiveram pouco impacto sobre a melhora das condições financeiras. O quadro geral mostra que os empresários continuam bastante insatisfeitos com a lucratividade e o acesso ao crédito", afirma Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da CNI.

A Sondagem Industrial mostra que o peso dos impostos continua travando a atividade industrial. Um em cada três empresários (33,3%) apontou a elevada carga tributária como o principal problema enfrentado pelo setor no segundo trimestre. Em meio à guerra no Oriente Médio e ao cenário externo incerto, a falta ou o alto custo da matéria-prima permaneceu na segunda posição do ranking dos principais problemas. O entrave foi mencionado por 31,2% dos industriais. Mesmo com o início do ciclo de cortes dos juros pelo Banco Central, 27,9% dos empresários apontaram as taxas de juros elevadas como o terceiro maior obstáculo ao desempenho das empresas no período.

Em junho, o índice que mede a evolução da produção caiu para 48,4 pontos, refletindo uma queda de 0,5 ponto. O resultado aponta retração da atividade industrial em relação a maio deste ano e é o pior para o mês de junho desde 2022. Já o índice de evolução do número de empregados permaneceu estável após variação negativa de 0,2 ponto, para 48,2 pontos,. A Utilização da Capacidade Instalada (UCI), por outro lado, avançou um ponto percentual, passando de 69% em maio para 70% em junho. 

 

 https://amanha.com.br/categoria/brasil/indice-de-condicoes-financeiras-da-industria-tem-leve-avanco


Grupo Potencial investirá R$ 96,2 milhões em nova planta de biodiesel

 


A planta terá capacidade para produzir até 120 toneladas por dia de glicerina bruta e até 1,2 mil toneladas diárias de biodiesel 
 
 
Recursos serão provenientes de programas voltados para a promoção da economia verde e adoção de fontes de energia limpa

 

O Grupo Potencial investirá  R$ 96,2 milhões na  expansão da capacidade produtiva na cidade de Lapa (PR). O  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) promoveu uma operação de financiamento nesta terça-feira (21), cujos  recursos serão destinados à implantação de uma nova planta industrial de biodiesel do grupo,  que atua na ampliação da oferta de combustíveis renováveis no Brasil.

O empreendimento consolida o Grupo Potencial como um dos maiores complexos produtivos de biodiesel do mundo, alcançando uma capacidade de 3,3 mil toneladas por dia. Em maio, a empres aanunciou um plano de R$ 6 bilhões em investimentos para ampliar a capacidade produtiva. A nova planta será integrada ao complexo industrial da companhia, na Lapa, que já conta com outras duas unidades de produção de biodiesel, duas de refino de glicerina e uma de glicerólise, fortalecendo a verticalização das operações, os ganhos de escala e a eficiência produtiva.

Do total aprovado, R$ 76,9 milhões são provenientes do Fundo Clima, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e operado pelo BNDES. O fundo apoia iniciativas inovadoras de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, conservação e recuperação de florestas, proteção da biodiversidade, além de segurança hídrica e desenvolvimento de soluções capazes de acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. Os outros R$ 19,2 milhões serão disponibilizados pela Finem, que conta com uma linha específica para produção de alimentos e biocombustíveis.

O apoio aprovado pelo BNDES faz parte do investimento total de R$ 230 milhões. A nova planta terá capacidade para produzir até 120 toneladas por dia de glicerina bruta e até 1,2 milhão de toneladas diárias de biodiesel, além de 110 toneladas por dia de óleo sintético. A expansão representa um avanço importante para o fortalecimento da cadeia nacional de biocombustíveis e para o aumento da competitividade da indústria brasileira de energia renovável.

O Grupo Potencial é a 38ª maior empresa da região e também a 13ª maior do Paraná, de acordo com o ranking 500 MAIORES DO SUL, publicado pelo Grupo AMANHÃ com o apoio técnico da PwC Brasil ( veja o ranking completo aqui e o anuário digital completo clicando neste link).


 

 https://amanha.com.br/categoria/negocios-do-sul1/grupo-potencial-investira-r-96-2-mi-para-implantacao-de-nova-planta-de-biodiesel

Santa Catarina poderá ser o estado do Sul mais beneficiado com o acordo Mercosul-UE

 


Perspectiva faz parte de um estudo feito pela Apex-Brasil  
 
 
Santa Catarina lidera em número de itens na região Sul com 167 produtos mapeados

 

 

A consolidação do Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia representa um divisor de águas para o comércio exterior brasileiro, abrindo as portas de um mercado avaliado em US$ 24,2 trilhões. Para garantir que o setor produtivo de todas as regiões brasileiras converta a redução de tarifas em novos negócios, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Atração de Investimentos (ApexBrasil), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), elaborou um estudo que mapeia as oportunidades reais de exportação por estado. Estruturado a partir dos códigos tarifários internacionais, o levantamento identifica nichos de mercado na Europa e orienta a diversificação da pauta exportadora. Mais de 8 mil empresas já exportam ativamente para o bloco europeu, com destaque para São Paulo, que reúne 3.842 empresas exportadoras, seguido por Rio Grande do Sul (885) e Minas Gerais (863).

O estudo traça um diagnóstico do mapa produtivo nacional, destacando o potencial de cada macrorregião. Nesse cenário, o Sul destaca-se como um polo estratégico, evidenciando uma forte integração entre a tecnologia industrial e a produção agroindustrial e contando ainda com uma pauta exportadora marcada pela indústria de transformação (o setor responde por uma fatia entre 73% e 91% do total exportado pelos três estados).

No Paraná, a balança comercial mantém-se predominantemente superavitária, sustentada por um crescimento médio anual das exportações de 4,4%. A estrutura econômica estadual é liderada pela indústria de transformação, responsável por 73,4% das vendas externas, seguida pelo agronegócio, com 25,6%. Com base nos dados de 2025, os principais produtos exportados incluem soja, carnes de aves, farelo de soja, açúcares e milho. O estudo aponta um potencial significativo para o estado, identificando 76 códigos tarifários (SH6) com oportunidades de exportação para a União Europeia, divididos entre 45 produtos industriais e 31 agrícolas. Atualmente, 744 empresas paranaenses já exportam para o bloco, com perspectivas de expansão em setores de maior valor agregado, como o automotivo, a indústria madeireira com compensados e madeiras processadas, além de máquinas, equipamentos, válvulas e bombas, somando-se à força agroindustrial de carnes e derivados de soja e milho.

O Rio Grande do Sul, por sua vez, apresenta um perfil de balança comercial consistentemente superavitário, caracterizado por uma pauta diversificada que funde commodities agrícolas com produtos manufaturados de maior complexidade. A indústria de transformação responde por 76,7% das vendas externas gaúchas. Entre os principais produtos exportados em 2025, destacam-se a soja, o tabaco, o farelo de soja, carnes de aves, celulose e carne suína. O mapeamento da ApexBrasil e do MDIC identificou 74 produtos com potencial para o mercado europeu, sendo 47 na indústria e 27 no agronegócio, mobilizando 885 empresas exportadoras. As oportunidades para o estado concentram-se em manufaturados e insumos industriais, com destaque para partes e acessórios automotivos, polímeros de etileno, derivados de petróleo, calçados de couro e sintéticos, além da oferta contínua de carnes e tabaco processado.

Já Santa Catarina apresenta uma balança comercial deficitária desde 2009, com um ritmo de crescimento das importações (14,8% ao ano) que supera o das exportações (4% ao ano). Entretanto, o estado possui uma base industrial extremamente sólida, com a indústria de transformação representando 91,4% da pauta exportadora. Em 2025, os destaques foram as carnes de aves e suína, geradores elétricos, soja e madeira. Santa Catarina é, inclusive, o estado do Sul com o maior número de oportunidades identificadas pelo estudo, totalizando 167 produtos, dos quais 128 pertencem ao setor industrial e 39 ao agronegócio, com 761 empresas já atuando junto ao bloco europeu. O nicho estratégico catarinense na Europa foca em máquinas e bens de capital, como motores elétricos, peças para motores de pistão e bombas, além de compensados, partes automotivas, artefatos plásticos e, naturalmente, a consolidada produção de proteínas animais.

O acordo Mercosul–União Europeia carrega o potencial de reconfigurar profundamente a economia do Sul do Brasil. Para o economista e geógrafo Roberto Uebel, o Paraná deve se destacar como um dos maiores beneficiários dessa parceria, que promete impulsionar setores estratégicos como o agroindustrial e o automotivo, além de trazer benefícios diretos para as famílias, especialmente as de renda média urbana, com a ampliação do acesso a produtos europeus antes considerados caros ou fortemente tributados. Os impactos esperados e os desafios reais para a região estão detalhados em artigo especial publicado na última edição da Revista AMANHÃ (leia a análise completa clicando aqui).


https://amanha.com.br/categoria/sul-for-export/santa-catarina-podera-ser-o-estado-do-sul-mais-beneficiado-com-o-acordo-mercosul-ue

VOGE chega ao Brasil com concessionária em Curitiba

 


Com foco no segmento premium, marca chinesa de motocicletas inicia expansão pelo Sul do país 
 
 
A escolha pela capital paranaense foi vista como estratégica para o segmento de motos premium

 

A chinesa VOGE escolheu Curitiba para instalar sua primeira concessionária no país. O espaço de 600 metros quadrados traz o conceito que une showroom e oficina especializada. O Grupo Remotors é quem vai comandar a nova operação. A escolha pela capital paranaense não foi por acaso. Rodrigo Moutinho, gerente geral da VOGE Brasil, explica que o mercado local é maduro e estratégico para o segmento premium, especialmente para motos acima de 300 cilindradas. "Os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina têm um público apaixonado por motos adventure e touring, alta densidade de motociclistas experientes, excelente infraestrutura viária e forte cultura de duas rodas. Curitiba, em especial, destaca-se pela qualidade de vida, mobilidade urbana e por ser um importante polo de eventos do setor, funcionando como uma excelente porta de entrada para consolidar a marca na região Sul", afirma Moutinho.

A região Sul é vista como estratégica, também pelas rotas de viagem que os clientes costumam fazer, já que a marca também está presente em países vizinhos como Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru. O plano é consolidar a operação pela região de forma gradual e sustentável. Até 2027, a expectativa é abrir mais três ou quatro unidades espalhadas pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Depois de fortalecer esse pé no Sul, que é um dos mercados mais importantes do país para o setor, a marca pretende levar sua tecnologia e design para outras regiões brasileiras.

A operação brasileira recebeu um aporte inicial de US$ 10 milhões, valor usado em várias frentes, desde a montagem em Manaus em parceria com a Dafra, até a criação de um centro logístico em Itapevi, em São Paulo. O valor também engloba treinamento das equipes e estoque de peças. A montagem da concessionária custou cerca de R$ 5 milhões. 

 

https://amanha.com.br/categoria/empresa/voge-chega-ao-brasil-com-concessionaria-em-curitiba-1

O paradoxo da escolha infinita

 

Por que, quanto mais opções existem, mais valiosas se tornam as marcas que simplificam decisões
 
 

Esse conteúdo é parte integrante da edição 352 de AMANHÃ. Acesse a publicação completa gratuitamente.

 

Durante décadas, o avanço do consumo foi guiado por uma ideia simples e sedutora: quanto mais opções, melhor. A lógica parecia inquestionável. Mais concorrência gera melhores produtos, mais alternativas ampliam a liberdade e, consequentemente, consumidores ficam mais satisfeitos. Foi assim que o mercado evoluiu, saindo de um cenário de escassez para um ambiente de abundância radical. O problema é que essa promessa ignorava um fator central: o funcionamento do cérebro humano. Porque, na prática, a abundância não libertou, ela sobrecarregou.

Hoje vivemos um paradoxo silencioso e profundamente estratégico: nunca tivemos tantas opções e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil escolher. A neurociência e a psicologia comportamental já demonstram com consistência que, diante de muitas alternativas, o cérebro não melhora sua capacidade de decisão. Ele colapsa. O resultado não é uma escolha mais racional, mas sim paralisia, ansiedade e arrependimento antecipado. O consumidor contemporâneo não sofre pela falta de opções, mas pelo excesso delas.

A realidade psicológica aponta em uma direção clara. E a neurociência tem acumulado evidências suficientes para afirmar com segurança: o excesso de opções não gera liberdade. Gera paralisia. Quanto mais opções surgem, mais difícil se torna decidir e mais o cérebro recorre a atalhos de familiaridade e confiança. No século XX, as marcas competiam por espaço físico, posição na gôndola, tamanho do display, visibilidade no ponto de venda. Era uma disputa por atenção passiva em um ambiente de escassez de opções. Hoje, essa lógica foi completamente invertida. O espaço digital é infinito, a oferta é praticamente ilimitada e a concorrência é permanente.

Um paradoxo silencioso e profundamente estratégico: nunca tivemos tantas opções e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil escolher

 

A disputa agora acontece na palma da mão. Um consumidor médio é exposto a mais de 4 mil mensagens publicitárias por dia — a maioria invisível, filtrada automaticamente pelo cérebro antes de chegar à consciência. O TikTok acumula mais de 1 bilhão de visualizações por dia e recebe 34 milhões de novos vídeos nas mesmas 24 horas. O Instagram Reels compete pelo mesmo segundo de atenção. Nesse ambiente, não é o melhor produto que vence, é o mais facilmente reconhecível. O que se tornou escasso não é somente a atenção, é a clareza. E é justamente aí que reside o novo campo de batalha das marcas: não a prateleira, mas a mente. E nela, o recurso mais precioso não é apenas a atenção, mas a capacidade de processamento.

Diante desse excesso, o cérebro faz o que sempre fez para sobreviver: simplifica. Não por estratégia, mas por necessidade. Em ambientes de alta complexidade, o sistema cognitivo ativa atalhos mentais, conhecidos como heurísticas. O consumidor passa a escolher o que já conhece, o que já viu antes, o que parece familiar e o que exige menos esforço. É nesse momento que ocorre uma mudança estrutural no comportamento: o consumidor deixa de decidir ativamente e passa a reagir automaticamente.

 

Paradoxo da escolha


O psicólogo Barry Schwartz foi quem mais sistematicamente documentou esse fenômeno, batizado como paradoxo da escolha. Em seu trabalho seminal de 2004, Schwartz demonstrou que o aumento no número de alternativas disponíveis não eleva a satisfação do consumidor, pelo contrário, frequentemente a reduz. O mecanismo é duplo. Primeiro, há a sobrecarga cognitiva: o cérebro é forçado a processar e comparar um volume de informações para o qual simplesmente não foi evolutivamente preparado. Segundo, e de forma mais insidiosa, emerge o que Schwartz chamou de "custo de oportunidade maximizado" — a certeza crescente de que, qualquer que seja a escolha feita, algo melhor ficou para trás. A abundância gera arrependimento antecipado.

O ambiente que se tornou o novo campo de batalha das marcas: o TikTok acumula mais de 1 bilhão de visualizações por dia e recebe 34 milhões de novos vídeos nas mesmas 24 horas

 

O experimento de referência foi conduzido pelas psicólogas Sheena Iyengar e Mark Lepper em 2000, em uma mercearia de alto padrão em Menlo Park, na Califórnia. Quando expostos a 24 variedades de geleia, os consumidores paravam mais para olhar, mas compravam menos. Quando a mesa exibia apenas seis opções, a taxa de conversão saltava em proporção de dez para um. Décadas depois, o mesmo fenômeno se repete em escala digital: pesquisas de usuários e seus comportamentos revelam que páginas de e-commerce com mais de 12 produtos na tela inicial têm taxa de rejeição 35% superior às que apresentam curadoria reduzida. O algoritmo que entrega "mais relevância" frequentemente entrega mais paralisia.

Esse movimento também demonstra um custo invisível da abundância: quanto mais opções existem, menor tende a ser a satisfação com a escolha feita. A decisão deixa de ser um ponto final e passa a carregar um ruído constante de dúvida. Mais escolha, portanto, não gera mais segurança. Gera mais insegurança. E para compreender por que marcas fortes se tornam tão valiosas nesse contexto, é necessário recuar à arquitetura da tomada de decisão humana. Nos anos 1970, os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram que o cérebro opera fundamentalmente por meio de heurísticas — atalhos mentais que permitem decisões rápidas sem esgotar recursos cognitivos.

O trabalho de Kahneman, premiado com o Nobel de Economia em 2002, formalizou essa divisão no que ficou conhecido como Sistema 1 e Sistema 2. O Sistema 1 opera de forma rápida, automática e associativa. É ele que reconhece rostos, interpreta tons emocionais e, crucialmente, identifica marcas familiares como "seguras". O Sistema 2, lento e deliberativo, entra em ação apenas quando o Sistema 1 sinaliza insuficiência ou risco. Em ambientes de sobrecarga de escolha, o Sistema 2 rapidamente satura. O consumidor não abandona a decisão, pois ele delega ao Sistema 1 que favorece o familiar, o reconhecível, o que já foi experimentado sem decepção. É aqui que reside a verdadeira força das marcas: elas não entram na disputa, elas a encerram.

 

Sistema 1 e Sistema 2: Kahneman demonstrou que a mente opera por atalhos que permitem decisões rápidas sem esgotar recursos cognitivos

 

A neurociência do consumo foi além da psicologia comportamental ao oferecer evidências biológicas desse processo. Estudos com ressonância magnética funcional (fMRI) têm revelado padrões consistentes na forma como o cérebro processa marcas conhecidas versus desconhecidas. Uma pesquisa conduzida pelo neurocientista Read Montague na Baylor College of Medicine tornou-se referência: em testes cegos, as preferências por Coca-Cola e Pepsi eram praticamente equivalentes. Mas quando a identidade das marcas era revelada, o córtex pré-frontal medial, região associada ao pensamento de ordem superior e à memória afetiva, ativava-se de forma significativamente mais intensa para a Coca-Cola. A marca não está no produto. Está na memória. E a memória, no cérebro, tem peso físico e são sinapses reforçadas por repetição e emoção.


Com sobrecarga de escolha, o Sistema 2 rapidamente satura. O consumidor não abandona a decisão, pois ele delega ao Sistema 1 que favorece o familiar, o reconhecível, o que já foi experimentado sem decepção

 

Disputa pelo atalho mental


E é justamente esse princípio que explica por que o famoso case do urso polar da Coca-Cola escolhendo Pepsi transcende a provocação criativa. Lançada no Super Bowl LX, agora em 2026, um dos palcos mais caros e estratégicos da publicidade global, a campanha "The Choice" é, na prática, uma aula sobre como disputar não um produto, mas um atalho mental. A Coca-Cola construiu ao longo de décadas um dos maiores ativos da história do marketing: associação emocional. O urso polar não vende refrigerante, ele ativa memória, afeto, tradição, Natal, pertencimento. Ele é puro Sistema 1. O que a Pepsi faz ao "roubar" esse ícone não é criar um novo símbolo do zero, o que exigiria anos de repetição e investimento.

Ela faz algo muito mais inteligente: se apropria do atalho cognitivo já existente e o ressignifica. A campanha opera em três camadas simultâneas. A primeira é a apropriação cultural inteligente: a trilha I Want to Break Free, da Queen, reforça simbolicamente a ideia de libertação, transformando uma simples escolha de refrigerante em metáfora de ruptura com o óbvio, com o esperado, com o "sempre foi assim". A segunda é o uso de repertório coletivo recente: a referência ao kiss cam do show do Coldplay ancora a campanha no presente, reduzindo o esforço cognitivo. O público não precisa entender a piada, pois ele já a viveu. A terceira é a estratégia de tensão emocional: o conceito de "amor proibido" entre o urso e a Pepsi cria narrativa. E narrativa gera retenção.

Quando o urso, que simboliza tudo que é Coca-Cola, escolhe Pepsi, acontece um curto-circuito cognitivo. O cérebro é forçado a reprocessar uma verdade que parecia estável. E esse momento de quebra é poderoso porque chama atenção em um ambiente saturado, gera compartilhamento espontâneo e insere a Pepsi dentro de um território mental que antes não era dela. O ponto mais sofisticado do case está aqui: a Pepsi não tenta destruir a Coca-Cola. Ela tenta humanizá-la e, ao mesmo tempo, ridicularizar sua previsibilidade. Porque o que está sendo questionado não é o sabor, e sim o comportamento automático do consumidor. Quando esse hábito é exposto, ironizado e colocado em dúvida, abre-se uma janela raríssima no marketing: o consumidor volta a pensar. E quando ele faz isso, a liderança deixa de ser garantida.

Por isso, "The Choice" não disputa market share diretamente, mas sim o momento da decisão. E em um mundo onde existem opções demais, quem consegue interferir nesse microssegundo não só entra na escolha, pode redefini-la. Esse mesmo princípio explica a repercussão desproporcional da polêmica envolvendo a nova camisa da Seleção Brasileira com o estampado "Vai Brasa". A camisa amarela da Seleção não é uma peça de vestuário, é um repositório de memórias coletivas, de Pelé a Ronaldo, de 1970 a 2002. Quando esse repositório é alterado, o que se rompe não é um detalhe estético. É um contrato emocional firmado ao longo de gerações. O fenômeno tem nome na neurociência: violação de expectativa de esquema. O cérebro, ao encontrar algo familiar que se comporta de forma inesperada, gera uma resposta de alerta.

 

Um curto-circuito cognitivo: quando o urso, ícone da Coca-Cola, escolhe Pepsi, o cérebro é forçado a reprocessar uma verdade que parecia estável

 

Não é crítica racional, é desconforto neurológico. Em um ambiente saturado de referências, inputs e possibilidades criativas, decisões que deveriam ser simples passam a se perder em camadas de interpretação e tentativa de agradar múltiplos públicos ao mesmo tempo. Quando tudo é possível, a clareza precisa ser construída e, principalmente, protegida, para que assim se consiga captar a atenção do consumidor. Um dos fenômenos mais bem documentados na psicologia cognitiva que subjaz a tudo isso é o efeito de mera exposição, descrito pelo psicólogo Robert Zajonc em 1968. A descoberta, replicada em centenas de experimentos, é desconcertantemente simples: pessoas tendem a preferir estímulos aos quais foram expostas com maior frequência, independentemente de qualquer avaliação racional de qualidade. O mecanismo está na fluidez de processamento. Quando o cérebro encontra um estímulo familiar, o esforço cognitivo necessário é menor. Esse menor atrito é interpretado pelo sistema límbico como um sinal positivo, algo como "já vi isso antes, sobrevivi, é seguro". A familiaridade é convertida, subconscientemente, em preferência afetiva. Para as marcas, a implicação é direta: consistência de presença ao longo do tempo não é apenas estratégia de marketing, é engenharia de memória.

A neurociência comportamental tem um conceito preciso para o estado em que o cérebro se encontra diante de excessivas alternativas: esgotamento do ego — termo cunhado pelo psicólogo Roy Baumeister na década de 1990. A premissa é que a capacidade de tomar decisões é um recurso finito, análogo à energia muscular: quanto mais é exercido, mais se esgota. O presidente Barack Obama articulou intuitivamente esse princípio ao explicar por que usava apenas ternos azuis ou cinza: "Preciso reduzir a fadiga de decisão. Tenho decisões demais a tomar." Esse comportamento se popularizou com o conceito de uniform dressing — a adoção de um guarda-roupa cápsula padronizado. A lógica é idêntica à das marcas: a clareza libera capacidade cognitiva para o que realmente importa.

A Apple, sob Steve Jobs, reduziu radicalmente o portfólio de produtos ao retornar à empresa em 1997 — de mais de 350 itens para menos de uma dezena. A decisão foi considerada suicida por analistas na época. Em retrospecto, foi o fundamento sobre o qual uma das marcas mais valiosas da história foi reconstruída. A Netflix introduziu sistemas de curadoria progressiva que reduziram o tempo médio de busca por conteúdo. Menos escolha visível, mais satisfação percebida. A empresa entendeu antes de muitos que o produto não é o catálogo — é a facilidade de decidir o que assistir. O erro estratégico de muitas empresas hoje é continuar operando com a lógica da abundância como vantagem competitiva.

Querem oferecer mais portfólio, mais mensagens, mais atributos, mais caminhos. Mas, ao fazer isso, criam confusão. E confusão não gera decisão. Gera adiamento. Em um ambiente saturado, ser mais uma opção é, na prática, desaparecer. Além de tudo isso, um capítulo inédito do paradoxo da escolha está sendo escrito agora com a popularização dos sistemas de inteligência artificial generativa. O ChatGPT, o Gemini, o Claude, o Copilot e dezenas de outros assistentes passaram a tomar decisões por consumidores — curadoria de conteúdo, sugestão de compra, personalização de feed, somente para citar alguns exemplos — em uma escala sem precedentes históricos.

Escala sem precedentes históricos: sistemas de IA generativa tomam decisões pelos consumidores

 

A promessa é a resolução definitiva do paradoxo: se o algoritmo conhece suas preferências melhor do que você mesmo, por que enfrentar a paralisia da escolha? A IA simplesmente escolhe por você. Relatórios da McKinsey apontavam que 71% dos consumidores esperavam que as empresas entregassem interações personalizadas e que 76% ficavam frustrados quando isso não acontecia. Mas esse aparente paraíso cognitivo esconde um novo paradoxo: a escolha delegada ao algoritmo é, ainda, uma escolha: a alternativa de confiar no algoritmo. E essa fidúcia é, ela própria, uma questão de marca. Os consumidores que confiam no Spotify para curar sua playlist, na Netflix para recomendar o próximo filme ou no iFood para sugerir o restaurante estão, na prática, terceirizando seu Sistema 2 para plataformas que se tornaram suas marcas de confiança.

A implicação estratégica é clara: no futuro próximo, as marcas não competirão apenas pela preferência do consumidor, mas pela preferência dos algoritmos que recomendam às pessoas. O paradoxo da escolha migra de nível: não é mais só o humano que paralisa diante das opções, mas o algoritmo que precisa ser convencido de qual marca recomendar. Quem não for citado, sugerido ou reconhecido pelos sistemas de IA simplesmente não existirá no momento da decisão, da mesma forma que não existia a marca que ficava fora da gôndola no século XX. Isso significa que construir autoridade para ser citado por sistemas de IA — o que já se chama de Generative Engine Optimization (GEO)— tornou-se uma frente estratégica real. As grifes que dominarem esse terreno nos próximos anos estarão, literalmente, se tornando o atalho cognitivo dos algoritmos. E, por consequência, dos consumidores que os seguem.

A neurociência do consumo oferece, assim, uma perspectiva que transcende o marketing convencional: construir uma marca forte não é um exercício de comunicação, mas de arquitetura cognitiva. É, literalmente, esculpir caminhos no cérebro do consumidor, caminhos que serão percorridos automaticamente, antes que a consciência tenha a chance de intervir. Seja na polêmica de uma camisa de futebol, na provocação de um urso que troca de time, na recomendação de uma IA ou em uma refeição entregue em minutos, o princípio é o mesmo: em um mundo de ruído infinito, o que o cérebro busca — compulsivamente, evolutivamente — é o familiar, o confiável, o que já processou antes sem decepção.

Marcas que simplificam


A ideia de que "menos é mais" deixou de ser apenas um conceito criativo para se transformar em uma necessidade estratégica. Reduzir não significa perder valor, mas organizá-lo e priorizá-lo. Em resumo, assumir um posicionamento claro. E, acima de tudo, respeitar o limite cognitivo de quem precisa decidir. As marcas mais relevantes do futuro não serão aquelas que oferecem mais. Serão aquelas que eliminam fricção, orientam escolhas, geram confiança instantânea e simplificam o mundo ao redor. Porque, no fundo, o consumidor não quer mais opções. Ele quer menos esforço e segurança de fazer as escolhas certas.

E, no fim, a escolha não é um processo puramente racional. É um ato emocional, seguido de uma justificativa racional. E, em um mundo de excesso, a emoção dominante não é entusiasmo, é a exaustão. Por isso, a marca que vence não é a que impressiona, é a que alivia. A confiança não é construída somente em campanhas, mas em seguidas experiências positivas. Cada entrega no prazo, cada embalagem correta, cada reembolso sem burocracia é um depósito na conta corrente cognitiva que o consumidor mantém com a marca. No paradoxo da escolha infinita, a clareza tornou-se o ativo mais raro e mais valioso. As marcas que compreendem essa necessidade neurológica não apenas vendem produtos ou serviços. Elas oferecem algo muito mais precioso, e muito mais escasso: a paz de uma decisão tomada e sem arrependimentos.

 

 https://amanha.com.br/categoria/marketing/o-paradoxo-da-escolha-infinita

MP/SP processa empresas por coleta de íris e pede indenização de R$ 240 milhões

Da Redação 


Ação também mira a Amazon AWS e pede exclusão dos dados biométricos já coletados, além da suspensão imediata de novas captações mediante pagamento. 

O Ministério Público de São Paulo ajuizou ação civil pública contra a Tools for Humanity Corporation, responsável pelo Projeto World ID, e a Amazon AWS Serviços Brasil, acusando as empresas de adotar práticas abusivas na coleta de dados biométricos de consumidores por meio do escaneamento da íris em troca de compensação financeira.

Além de pedir a suspensão imediata da prática, o órgão requer indenização coletiva de, no mínimo, R$ 240 milhões.


Pedidos liminares

Na ação, proposta pela promotora de Justiça Patrícia Leitão, o MP/SP solicita que a Justiça determine, em caráter liminar, a preservação de todos os dados, registros e metadados relacionados ao tratamento das informações biométricas coletadas.

Também requer a apresentação de contratos e relatórios técnicos sobre o armazenamento desses dados, a identificação da empresa do grupo Amazon responsável por sua hospedagem e a suspensão de novas coletas de íris mediante qualquer forma de pagamento, benefício ou recompensa até a realização de perícia judicial.

No mérito, o Ministério Público pede que as práticas sejam declaradas abusivas, que as empresas sejam proibidas definitivamente de oferecer compensação financeira pela coleta de dados biométricos de íris, promovam a eliminação irreversível das informações já obtidas, indenizem a coletividade em ao menos R$ 240 milhões por danos morais e reparem os prejuízos individuais eventualmente sofridos pelos consumidores.

 

 (Imagem: Magnific)

(Imagem: Magnific)
MPSP pede fim da coleta de íris com recompensa financeira e cobra R$ 240 milhões do World ID.(Imagem: Magnific)

 

Relatório da CPI

A ação foi fundamentada no relatório final da chamada CPI da Íris, instaurada pela Câmara Municipal de São Paulo para investigar a atuação do Projeto World ID na capital.

Segundo o Ministério Público, mais de 400 mil pessoas tiveram a íris escaneada em troca de recompensas que variavam entre R$ 300 e R$ 700. As investigações indicaram que os pontos de coleta foram instalados, de forma concentrada, em regiões periféricas e locais de grande circulação, como proximidades de estações de metrô e unidades do Poupatempo, alcançando principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Alegações do MP

De acordo com a Promotoria, mesmo após determinação da ANPD - Autoridade Nacional de Proteção de Dados para interromper a oferta de criptomoedas ou qualquer outra compensação financeira pela coleta da íris, o projeto teria mantido incentivos por meio de benefícios disponibilizados no aplicativo World App.

O Ministério Público sustenta ainda que os participantes não receberam informações claras sobre a finalidade econômica do projeto, os riscos decorrentes do tratamento dos dados biométricos, a transferência dessas informações para o exterior e seu eventual armazenamento em servidores da Amazon Web Services.

Na avaliação da promotora, as condutas configuram publicidade enganosa, exploração da vulnerabilidade dos consumidores e comprometimento da validade do consentimento fornecido para o tratamento dos dados.

Com informações do MP/SP.

 

 link: 

https://www.migalhas.com.br/quentes/460784/mp-sp-processa-empresas-por-coleta-de-iris-e-pede-r-240-mi

"O Brasil é o campeão mundial de inovação de palcos"

 

Silvio Meira, um dos fundadores do Porto Digital, de Recife, alerta as empresas que ideias realmente inovadoras devem ser, no mínimo, testadas  
 
Para Meira, o marketing precisa estar atrelado aos negócios, mas adotando métricas, métodos e processos

 

Diretamente do Recife, Silvio Meira, um dos fundadores do distrito de inovação Porto Digital, argumenta nesta entrevista que a maioria das empresas não pratica marketing, mas sim publicidade e propaganda. Para ele, o marketing atual é muito mais complexo e não deve ser um departamento isolado, mas integrado aos negócios. No livro "Marketing do futuro", escrito em co-autoria com Rosário Pompéia, ele defende que a área adote métricas e processos. "A ideia é alfabetizar o marketing, pois ele precisa de método", pontua. 

Ao longo da conversa de mais de uma hora, Meira também critica o Brasil por sua "inovação de palco", onde ideias são premiadas, mas raramente implementadas no mercado. Com uma demanda contínua e crescente por especialistas em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no país, com um déficit estimado em 500 mil profissionais antes do uso intensivo da inteligência artificial, o Porto Digital pode servir de inspiração para outras iniciativas do gênero em todo o país. Confira.

marketing e os negócios vivem atualmente muito distanciados?
Esse ponto de vista é histórico. Para começar, na vasta maioria dos lugares, não há efetivamente marketing. O que há é publicidade e propaganda. Publicidade é a tentar fazer com que as pessoas saibam uma proposta para o mundo. E propaganda é mudar o comportamento das pessoas. Marketing é uma coisa muito mais complexa. Marketing é tudo que se faz para reduzir os custos de busca, aquisição e determinação de soluções para os problemas das pessoas. E o marketing, estruturalmente, nos negócios, hoje em dia, tem atuado quase sempre, em vender um produto por meio de publicidade esperando que as pessoas cliquem naquele negócio, ou vejam em algum lugar, para comprar, resumindo tudo a uma transação. 

Não é a aquisição de um cliente que recorrentemente vai comprar alguma coisa na vida dele. Ele não vai reconhecer aquele negócio como um resolvedor daquela categoria de problemas. Imagina um comércio que ofereça baterias de reposição para automóveis, algo que tem vida útil de dois anos e meio a três anos. Como se comunicar com alguém que comprou uma bateria sua durante o tempo em que ela não vai necessitar de outra? A empresa deveria conversar com esse cliente sobre viagens, segurança no trânsito, lugares bonitos, engarrafamentos… Ou mesmo oferecer tickets de estacionamentos nos shows, no teatro, no cinema, onde a pessoa vai com o carro dela, mas isso é difícil de fazer.


Existe uma forma mais fácil de colocar isso em prática?
Você tem de montar uma comunidade que tenha um certo contexto para que essa comunicação flua com os clientes, de modo que eles digam o que necessitam para a empresa que fornece baterias possa oferecer outras coisas. Quem compra bateria, compra seguro. Não estou dizendo que uma fábrica de baterias vai virar seguradora, mas ela pode virar uma intermediária. O marketing não é um departamento. Ao mesmo tempo, marketing não tem canais. O marketing é uma distribuição de funções orquestradas dentro da organização. 

Uma construtora de grande porte, por exemplo, tem um banco de terrenos para futuras contruções. O ato de alguém comprar um terreno para construir passa pelo marketing entender se é viável tentar vender uma coisa que vai ser construída ali. Por isso o marketing tem de estar no ambiente de negócios discutindo os cenários de competição, como resolver os problemas das pessoas, as regras dos mercados onde elas estão envolvidas, de modo a checar se a empresa fará algo competitivo. Porém, o marketing normalmente pega uma bola quadrada. Alguém faz um produto e entrega para o marketing e diz: "Agora vende isso aqui". Aí o resultado é acabar vendendo aquele negócio com 30% ou 50% de desconto, com prejuízo. Aí dizem que o marketing é ruim quando, na verdade, o convocam na última hora para resolver o problema.

No livro "Marketing do futuro", você defende o método AEIOU como uma estratégia para os negócios. Como as empresas poderiam aplicar esse processo?
A ideia é alfabetizar o marketing, pois ele precisa de método. O marketing tem de ser tratado como se fosse uma engenharia social. Em um hospital, por exemplo, ninguém opera as pessoas aleatoriamente, pois existem processos, técnicas e métricas de resultado. O marketing não tem nada disso. O A da sigla é para o ambiente. Afinal, onde estou competindo? Quais são as regras do mercado? Quais são os fatores competitivos? Já o E é para estratégia. Quais são as aspirações que eu tenho no mercado? Quais hipóteses vou testar pra saber se essas aspirações são verdadeiras para que eu crie as capacidades de entregar as soluções? O I usamos para interações. 
 
O resultado é vender o produto com prejuízo: ”Aí dizem que o marketing é ruim quando, na verdade, o convocam na última hora para resolver o problema”

 

Em vez de pensar em canais, desenhamos fluxos dirigidos às comunidades onde há conexões, relacionamentos, significados, entendimentos comuns daquele contexto. Para quê? Para entregar narrativas que sejam acolhidas por aquele grupo. A letra O diz respeito às operações, pois não adianta ter uma narrativa se não entregar problemas resolvidos ao mercado e isso se faz com experiências. A empresa tem um produto fantástico, o processo de aquisição é bom, mas se o comprador receber uma caixa rasgada ou mesmo o item errado ou quebrado, isso destrói uma experiência de forma definitiva. Por fim, depois do O, de operações, que usam algoritmos para criar processos que entregam experiências, temos o U de unificação, onde é desenhada uma arquitetura de valor. 

Uma coisa que pouca gente do marketing percebe é que uma empresa não existe de forma isolada. Elas existem em rede. É preciso ter em mente que existe uma rede que faz coisas. Não preciso fazer todo um item para vendê-lo. Se você é uma empresa média ou pequena não faz sentido ter um banco necessariamente só porque você faz transações financeiras. O U entrega a sua organização articulada na rede, orquestrando tanto quanto seja possível. Isso, às vezes, e em alguns mercados quase sempre, cria mais valor do que o produto oferecido para o cliente final como solução. O AEIOU é uma espécie de realfabetização do marketing, pois há método, há processo e é basedo em uma plataforma com métricas de qualidade e de impacto.

Hoje a tecnologia tem mais ajudado ou atrapalhado o marketing? Ou os profissionais, ou mesmo agências, não sabem utilizá-la corretamente?
Vou contar o caso da LeFil [rede de empresas de marketing detentora de cinco negócios especializados e com foco em transformação digital], companhia liderada pela Rosário Pompéia e pela Socorro Macedo. Do lançamento do livro para cá, nós redesenhamos completamente a LeFil. Hoje ela é uma das poucas agências de marketing estratégico do Brasil que tem um grupo inteirinho de tecnologia que faz plataformas tornando-a quase indistinguível de uma empresa de tecnologia. Quase mais nada no mundo será feito sem envolver Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) de alguma forma. 

Meu pai, que tem 101 anos, é aficionado por automóveis. Dia desses encontramos um veículo que estava sendo vendido por R$ 800 mil que tinha um interessado que já havia checado tudo sobre o carro na internet. Essa pessoa disse ao vendedor que só precisava testar uma coisa. E não era o motor, o conforto, absolutamente nada. Era ver a velocidade que o Bluetooth do celular ia entrar no painel do carro, se o aparelho entraria imediatamente, se a tela era boa. Estou falando nessa dimensão, mas se você for para qualquer outra, o cenário se repete. Imagine a Receita Federal, ou mesmo hospitais, sem tecnologia. O marketing vem de uma formação de comunicação, que sempre olhou para a tecnologia historicamente como algo que veio para atrapalhar. 

Quando todo mundo está usando Inteligência Artificial (IA) para fazer quase tudo e ouço jornalistas que pregam que não se use essa tecnologia. É a mesma coisa que ocorreu em 1470, com a imprensa de Gutenberg, ou seja, que o livro impresso em uma prensa era ruim, pois tinha de ser escrito à mão. Em 1550, um século depois da invenção de Gutenberg, era rejeitar o livro integralmente, por exemplo, na escola. Somente por volta de 1750, 300 anos depois, adotamos o livro. Veja, tem uma coisa que tecnologia faz: se for revolucionária, ela destrói mercados. Mas é um processo de destruição criativa que, aliás, ganhou o Prêmio Nobel do ano passado. 

A IA destrói muitos mercados e cria novos mercados. Eu não estou dizendo, obviamente, para as pessoas pegarem qualquer tecnologia que aparecer, saltar e esquecer tudo que estavam fazendo. O Brasil está cheio de gente fazendo publicidade, mas tem pouquíssimas agências de marketing. Nas agências há pessoas negando a realidade ao dizer que, se tiver de usar tecnologia, não prestam o serviço. Porque se tem alguma coisa revolucionária, tem um problema, pois é preciso estudar para aprender. E tem uma condição ainda mais complexa do que o aprendizado: é desaprender um bocado de coisa, pois não serve mais. Isso é muito caro para nós, humanos. Sabe aquela graduação? Ela não serve mais para nada porque apareceu algo aqui que é preciso conhecer para continuar competitivo daqui para frente, mas as pessoas negam a realidade. O fato de o jornalismo ter negado a internet durante 25 anos acabou com esse ecossistema quase integralmente.

 

Um processo de destruição criativa: “A Inteligência Artificial destrói muitos mercados e cria muitos mercados”

 

Havia uma crença que as pessoas sempre continuariam lendo em papel, mas a internet causou o fim do papel como meio de transporte de informação. Mas ele continua essencial, para mim, como livro. Publicamos "O marketing do futuro" somente impresso no início. As pessoas perguntavam sobre a versão digital e eu respondia que era em papel para que a leitura fosse feita atentamente. É um livro para ir folheando, é grande, não é fácil de ler. Sugeríamos que a leitura fosse feita página a página para a pessoa refletir sobre o que está escrito.

A tecnologia pode substituir um profissional criativo?
A criatividade é um dos últimos domínios onde temos maturidade humana quase que insubstituível. A criatividade depende de risco e de tempo no sentido da vida humana. Quando publico um texto, coloco a minha reputação em risco. Quando lançamos "O marketing do futuro", que é contra tudo que está escrito por aí, colocamos em risco a nossa competência percebida pelos outros, ou seja, a nossa reputação. Ao mesmo tempo, havia um tempo para escrever aquilo. Se escrevêssemos o livro daqui 15 anos, e não em 2024, de nada adiantaria. A pandemia havia mudado tudo e apresentamos um método testado e que tinha dado certo. No entanto, as pessoas atingidas pelo livro tiveram um choque e reagiram.

Uma frase que se ouvia vinda das agências de publicidade, essas analógicas do passado que sobreviveram hoje, era que o marketing do futuro não tinha futuro. Insistimos e depois outras agências passaram a aplicar a teoria do livro, mas muitas ainda não mudaram a atitude. Em muitas empresas o vice-presidente de marketing tem sido substituído por seu equivalente em tecnologia, pois é um perfil de profissional que entende de comunidade, de relacionamentos, de interações, de plataformas, usa métodos e processos. 

Achamos que o livro que lançamos é um dos caminhos que levam ao marketing do futuro. Não é o único, obviamente. Mas sem métricas, sem processos e sem método, o marketing não vai entregar o que se exige dele hoje, que é muito mais do que publicar um anúncio de um produto e vender esse produto de alguma forma sem nenhuma responsabilidade. As pessoas querem performance, querem saber qual é o seu custo de aquisição e de retenção do cliente, qual é o lifetime value [métrica que estima o total de receita ou lucro que um cliente gera para uma empresa durante todo o relacionamento] do cliente. A conta não fecha sem o uso de métodos e métricas. 

 

"O Brasil é o campeão mundial de inovação de palcos. Aqui as empresas fazem um concurso de ideias premiando a melhor delas, mas a melhor ideia não é implementada" realmente funciona"

Silvio Meira, fundador do Porto Digital


Qual sua opinião sobre as empresas que se dizem inovadoras no Brasil? Elas são realmente inovadoras? Ou há muito discurso e pouca prática?

O Brasil é o campeão mundial de inovação de palcos. Se a gente tivesse um Oscar para isso, o Brasil ganharia de quase todo mundo. Aqui as empresas fazem um concurso de ideias premiando a melhor delas, mas a melhor ideia não é implementada para ver se realmente funciona, pois o marketing e a inovação devem andar juntos. Essas são as duas únicas coisas que uma empresa tem de saber fazer, mesmo que ela não faça, segundo Peter Drucker. Ele define a inovação como a mudança do comportamento de agente no mercado, como fornecedores e consumidores de qualquer coisa. Então, inovação é mudança. Por essa definição, se eu inventei uma nova tecnologia, por melhor e por mais fantástica que ela seja, do ponto de vista da tecnologia, se ela não mudou o comportamento de ninguém no mercado, não é inovação. Fazer um concurso de ideias para saber quem tem a ideia mais inovadora é uma farsa de partida porque uma ideia não é inovadora. O que é inovador é a execução da ideia no mercado enquanto ela muda a cabeça das pessoas do mercado.

Há um caso concreto do que seja realmente inovação?
A inovação em carros elétricos mudou o comportamento de muitos agentes do mercado. Um posto de gasolina armazena líquido vindo de uma refinaria. Uma recarga elétrica é um conjunto de cabos de eletricidade que recarregam as baterias do posto e as baterias do posto recarregarem as baterias dos carros. O ecossistema é completamente diferente. Algumas fábricas tiveram dificuldade muito grande de entender e aceitar a mudança dramática apresentada pelos veículos elétricos. Um carro com motor a explosão tem cerca de 4 mil partes e peças. Um carro elétrico tem 400, ou seja, 10%. Consequentemente, um carro elétrico que tem muito menos partes e peças, vai quebrar muito menos. 

Hoje existem modelos que rodam 200 mil quilômetros sem nenhuma vez ir a uma oficina. Isso mexe com o ecossistema de manutenção, mexe com o ecossistema de garantia. Estou falando de uma mudança em todo o ecossistema de mobilidade. Não é uma coisa que só mudou o motor, pois houve redução de 90% das peças alterando o ecossistema de energia do carro. Isso é inovação. A ideia do carro elétrico, por si só, não é inovadora. Ele, no mercado, mudou a manutenção, a recarga, o combustível e assim por diante. O Brasil se acostumou com o negócio que chamo de ecossistema industrial de inovação de palco. Alguém sobe no palco e adota um discurso de autoajuda: "Não, porque nós vamos mudar, vamos ser mais competitivos." O que torna alguém mais competitivo é conseguir mudar o comportamento dos potenciais clientes no mercado. Se não cumprir com esse propósito, não há inovação.


Para Meira, poucas empresas conseguem competir no exterior, como a WEG

 

No seu ponto de vista, como o Brasil está em se tratando de incentivo à inovação e ao empreendedorismo?
Olha, acho que tem mais dinheiro do que projeto. O dinheiro que há no Brasil para investir em inovação e empreendedorismo não tem a densidade de projetos que ele deveria ter para você escolher entre os melhores. Tem muita coisa que é hiperfinanciada, que é basicamente slide e PowerPoint. Não tem nada errado em financiar slide e PowerPoint, mas não na escala que a gente faz no Brasil. O Brasil tem um problema estrutural, do ponto de vista da percepção brasileira do mundo. Por causa do tamanho do nosso mercado interno, quase todos os negócios do mundo estão no Brasil competindo aqui, de todas as áreas, de farmacoquímica ao agronegócio, na saúde etc. Eles competem aqui e não dependem de pesquisa, desenvolvimento e inovação, pois nem contam com isso no Brasil. Eles têm isso em outros lugares do mundo. E você tem pouquíssimos negócios brasileiros que estão competindo no exterior e dependem de pesquisas de desenvolvimento de inovação, nem no Brasil. Os exemplos são tão poucos que a gente consegue puxar pela memória. Por exemplo, a WEG, a Embraer, a Petrobras. Aí você vai procurando mais e vai tendo dificuldade em dizer quais são as outras. 

O Brasil não tem nenhum negócio de tecnologia que faça sistemas, que resolva problemas de classe global. Não tem nenhuma plataforma brasileira de classe global. Tudo bem que não é fácil de fazer, porque se tomarmos como exemplo a Europa tem quatro, cinco plataformas. Tem Spotify, tem SAP, não tem muitas mais. Mas o ponto é que o país deveria tentar obter maiores retornos de investimento e agregação de valor. A gente tem coisas fantásticas, tipo, o ecossistema brasileiro de informação e tecnologia financeira é seguramente um dos melhores do mundo. Mas só fazemos para dentro. Não fazemos para fora. Não tem nem um banco brasileiro que é global. Porque o Brasil é um mercado de juros tão estruturalmente estratosféricos que os bancos brasileiros não precisam competir fora daqui. Se o mercado brasileiro de juros fosse muito mais apertado, os bancos nacionais teriam de competir fora daqui e teríamos plataformas financeiras globais. Há um conjunto de coisas torna o Brasil um pouco essa jabuticaba do ponto de vista de inovação e empreendedorismo, que não deveria ser, pois quando a gente vai competir em mercados globais, a gente consegue com engenharia, com ciência, com tecnologia, com método, com processo, com marketing brasileiro.

 

Embraer como exemplo: "Os aviões da classe E2 da Embraer são imbatíveis, ninguém consegue fazer um igual"

 

Qual empresa brasileira estaria nesse patamar?
A Embraer é um exemplo. Ela é o maior fabricante global de jatos executivos e líder do segmento de transporte aéreo de médio custo e médio porte. Os aviões da classe E2 da Embraer são imbatíveis, ninguém consegue fazer um igual. Boeing não consegue, Airbus não consegue, ninguém consegue. A gente está muito na frente nesse negócio. Mas leva tempo. A primeira turma do ITA, que foi criada para criar engenheiros para a Embraer, para o que viria a ser a empresa anos depois, foi formada em 1950. A Embraer chegou na Bolsa de Valores no ano 2000. Foram 50 anos desde a sua fundação. Para ter empreendedorismo e inovação de classe global precisamos de tempo também. Não é tempo sem fazer nada. É tempo somado à estratégia, tentando fazer alguma coisa de classe global também. Todo mundo cita o Vale do Silício. Sabe quando foi criada a primeira empresa do Silicon Valley? Em 1948. De 1948 até 1995, são 50 anos, mais ou menos o mesmo tempo que levou para a Embraer aparecer na bolsa. Ninguém sabia nem onde era o Silicon Valley, certo? O Vale do Silício surge para o mundo por causa da internet. Claro, muita coisa já tinha acontecido antes com uma Intel na década de 1970 e assim por diante. Mas se verificarmos o tempo entre a criação da Hewlett Packard, que foi a primeira empresa do Silicon Valley, e a Intel, são 30 anos. No Brasil temos uma certa pressa. Se não acontecer agora, é porque não vai acontecer.

O Porto Digital recém completou 25 anos…
Exato. É uma operação que tem 25 anos, mas é um projeto de 50 anos. Como é que se faz um projeto de meio século? É simples. Você desenha um projeto, ele dá certo depois de você morrer. Quando comecei o Porto Digital, eu já tinha 45 anos. Alguns dos cofundadores eram bem mais idosos do que eu. Muitos de nós que fundamos o Porto Digital já faleceram. O esforço dura 25 anos e a gente está na metade desse caminho. O Porto Digital tem quinhentas e tantas empresas, 25 mil pessoas empregadas, uma coisa fantástica. Não, não é fantástica não. É método, processo, métrica, determinação, foco, tempo, engajamento contínuo. Precisamos aprender a fazer isso no Brasil. Você não cria uma Embrapa do dia para a noite. Como nos tornamos líderes globais em grãos e proteína animal? A Embrapa criou o contexto para esse negócio operar. Isso foi ciência, tecnologia e informação. 

Se você for, por exemplo, para o Oeste da Bahia, não são os baianos que estão lá. São os brasileiros de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo, do Rio Grande do Sul, de Pernambuco, de todo canto, aquela terra não existia. A Embrapa redesenhou como se planta, o que se planta, o que se colhe. A Embrapa redesenhou tudo, criou o espaço e inovação cria espaço. Foi isso que a gente fez aqui. O centro do Recife, onde fica o Porto Digital, tinha virado uma Cracolândia e daí nos propomos a redesenhar o espaço. E para isso precisa de tempo. Hoje temos metade dos problemas na área do Porto Digital, ou mais, que tínhamos quando o fundamos. Mas, para alcançar esse objetivo, fizemos estratégia combinada com marketing, combinada com tecnologia, com gente, com atração de negócios, com inovação, com empreendedorismo, com investimento de risco, com financiamento público, com recuperação do prédios, com mudança da perspectiva da cidade sobre a sua realidade e assim por diante. Resultado? Nada menos que 25 mil pessoas trabalhando no Porto Digital em um lugar onde não tinha ninguém há 25 anos.

 

Tecnologia é gente: "O Porto Digital é literalmente um ecossistema de valor amplo, pois ele cria um valor muito maior do que a soma das partes"

 

Como o Porto Digital pode servir de inspiração para outros distritos de inovação?
Os centros das grandes cidades brasileiras colapsaram. Foi isso que ocorreu em Barcelona, em Londres, em todo canto. E no Recife também. Trouxemos para o Porto Digital creche, academia, UPA, são 119 bares, restaurantes e cafés. Em suma, é como recriar ou criar do zero. Se fizer em um lugar onde não tem nada, você cria vida urbana. O principal Carnaval do Recife é no Porto Digital. O fato de ser um agregador humano faz com que a cidade comece a se reconhecer nele. Tem de ter um pensamento de longo prazo e 360 graus, não é somente atrair empresas.

O Porto Digital criou, junto com a prefeitura da cidade, o maior processo de formação de capital humano do Brasil em tecnologia. Por quê? Porque tecnologia é gente. O Porto Digital é literalmente um ecossistema de valor amplo, pois ele cria um valor muito maior do que a soma das partes. Ou seja, não é a soma das 549 empresas que estão dentro do Porto Digital, mas a multiplicação delas pelo capital humano de cada uma delas. As pessoas que passam por aqui saem com uma visão de mundo diferente. Se um gerente da Accenture decide ser sócio de uma startup no Porto Digital, ela muda de patamar imediatamente. Para criar algo como o Porto Digital é como fundar um país que vai ter uma Constituição minima. Tem de atrair um núcleo mínimo de pessoas, de empresas, e assim por diante, que vão investir no negócio no longo prazo. O que é o longo prazo? Décadas. Em menos do que décadas não vai acontecer nada.

 

Mudança em todo o ecossistema de mobilidade: “O carro elétrico mudou a recarga, o combustível e assim por diante”

 

O Brasil tem capital humano suficiente para tecnologia?
Só 40% dos engenheiros químicos no país conseguem emprego. Já um especialista em TIC, formado ou não, tem emprego à disposição. Aqui no Brasil, antes da IA, havia um déficit estimado de 500 mil especialistas em TIC. Se a pessoa sabe programar está empregado. Demanda por capital humano é uma coisa multifacetada, pois existe a área de especialização, como robótica, onde falta gente, mas, ao mesmo tempo, há uma mudança substancial no mercado pelo fato de uma parte significativa da escrita de código ja poder ser feita por sistemas inteligentes. 

Isso muda a característica essencial do "programador" que é levado a especificar o tipo de programação que está apto a fazer. E, ao mesmo tempo, tem de entender outras coisas extremamente complexas, pois ficou mais fácil escrever código, mas ficou muito mais difícil pegar o código, escrever e botar para funcionar. Capital humano que entende o que faz ainda é um grande diferencial sustentável dos distritos de inovação no mundo inteiro. 

Hoje nos Estados Unidos se a pessoa sabe fazer "qualquer coisa relacionada à Inteligência Artificial", ganha um prêmio de salário que pode chegar a 300%. Um privilégio que o setor de TIC tem é que esses profissionais escrevem programas, mas é difícil de fazer. Aplicações como o Nubank, o Spotify e o Waze são extremamente complexos não só de fazer, mas de manter funcionando à medida que o mundo muda ao redor. Por isso que o software digital é tão complicado. Ele tem de atender todo mundo e tem de ser naturalmente universal. É muito difícil de fazer. Ou seja, a demanda vai continuar. O fato é que evoluímos nessa área e vamos evoluir cada vez mais rapidamente. Vamos precisar redesenhar todas as áreas e quem não fizer isso, ficará para a história.