Presidente
vai a Hannover com agenda econômica e de reforço de laços políticos,
mas encontrará um governo alemão que sofre com impopularidade. Já líder
brasileiro tem se deparado com reeleição cada vez mais desafiadora.O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca na Alemanha neste fim de
semana para cumprir uma agenda que combina encontros políticos e
reuniões empresariais para reforçar a relação bilateral entre Brasília e
Berlim.
Na agenda está a participação de Lula na Feira Industrial
de Hannover, que neste ano terá o Brasil como país homenageado, e a
terceira rodada das chamadas consultas intergovernamentais de alto nível
Alemanha-Brasil, um mecanismo de diálogo que o governo alemão mantém
com poucos parceiros internacionais e que prevê reuniões regulares entre
os países.
Como
parte da agenda, Lula terá reuniões com o chanceler federal da
Alemanha, Friedrich Merz. Esse será o terceiro encontro entre Lula e
Merz, mas o primeiro que não ocorre à margem de uma cúpula
internacional. Os dois já se encontraram no ano passado na COP30, em
Belém, e na reunião do G20, na África do Sul.
Embora os dois
governos tenham propagandeado o encontro como uma reafirmação dos laços
econômicos e políticos, a cúpula ocorre em meio a crescentes desafios
internos para Lula e Merz em seus respectivos países.
O
cenário não é inédito e já tem virado uma espécie de “tradição” do
mecanismo de consultas intergovernamentais, que pela terceira vez têm
ocorrido em uma conjuntura de dificuldades para pelo menos um dos
governos participantes.
Em 2015, a primeira edição das consultas
intergovernamentais ocorreu em um cenário de crescente crise econômica e
política no Brasil, que poucos meses depois acabaria por sepultar o
governo Dilma. Já o segundo encontro, em 2023, ocorreu em um momento de
reaproximação entre o Brasil e Alemanha após a era Bolsonaro, mas também
em meio à erosão do governo do então chanceler federal Olaf Sholz, cuja
coalizão desmoronaria menos de um ano depois.
Merz: economia e popularidade em baixa
Sem
ainda completar um ano à frente do governo alemão, o chanceler federal
Friedrich Merz, da conservadora União Democrata Cristã (CDU), nunca foi
tão impopular.
Uma
pesquisa divulgada na primeira quinzena de abril apontou que 70% dos
eleitores alemães estão insatisfeitos com a atuação pessoal do chefe de
governo. Só 21% se mostram satisfeitos. Já os números da coalizão de
governo, que conta com o bloco conservador CDU/CSU de Merz e o Partido
Social-Democrata (SPD), são ainda piores, com 73% dos eleitores se
mostrando insatisfeitos.
Sob Merz, a Alemanha continua a patinar
economicamente. Após dois anos de recessão, relacionados principalmente à
invasão da Ucrânia pela Rússia e o consequente aumento dos preços da
energia, a maior economia europeia teve um crescimento pífio de 0,2% em
2025. E as previsões inicialmente mais otimistas para 2026 vêm sendo
agora reduzidas por causa dos efeitos da guerra no Irã, com a projeção
de crescimento de 1,3% caindo para 0,6%, segundo o Fundo Monetário
Internacional (FMI).
Em
março, o país também registrou mais de 3 milhões de desempregados, com a
taxa chegando a 6,4% e com a série mostrando poucos sinais de mudança.
Nos últimos meses, o noticiário do país também passou a ficar repleto de
anúncios de planos de demissão em massa em grandes empresas, incluindo
gigantes como a montadora Volkswagen.
A insatisfação dos alemães
com o governo Merz também se refletido no fato de que 66% dos eleitores
se sentem sobrecarregados por impostos e contribuições para a
previdência social. A mesma pesquisa mostrou que 70% dos alemães não
acreditam que o governo será capaz de implementar medidas para melhorar a
situação econômica.
Merz ascendeu ao governo alemão em maio do
ano passado prometendo uma série de reformas estruturais, que incluíram
estímulos bilionários para os setores de infraestrutura e de defesa,
numa tentativa de reposicionar a Alemanha econômica e politicamente. Mas
até agora os efeitos têm sido modestos, enquanto projetos envolvendo
saúde e previdência ainda nem saíram do papel.
Dentro da coalizão
de governo, também há sinais de disputas internas, com cada pacote de
reformas sendo encarado mais como um teste de estresse para a coalizão
entre o bloco CDU/CSU e o SPD do que demonstrações de unidade.
Em
fevereiro, numa rara autocrítica, Merz admitiu algumas das dificuldades.
“Talvez não tenhamos deixado claro com rapidez suficiente, após a
mudança de governo, que não seríamos capazes de realizar esse enorme
esforço de reforma da noite para o dia”.
A má avaliação do governo
tem se refletido em pesquisas eleitorais. No momento, o bloco CDU/CSU,
que ficou em primeiro lugar na última eleição federal, tem perdido e
apoio e aparecido regularmente tecnicamente empatado na preferência do
eleitorado com o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha
(AfD), que também tem crescido em eleições estaduais.
Já o
parceiro SPD tem visto sua preferência continuar a diminuir, ficando
abaixo até mesmo do histórico mau resultado da eleição de 2025. Embora
as próximas eleições só estejam previstas para 2029, no atual cenário, a
soma de preferências do bloco CDU/CSU e SPD indica que os partidos não
seriam capazes de assegurar uma maioria no Parlamento alemão.
O
cenário externo também tem se revelado desafiador para Merz, com a
continuidade da guerra da Ucrânia, a nova turbulência do conflito no Irã
e a dificuldade de lidar com o governo do americano Donald Trump, que
tem ameaçado retirar os EUA da Otan, o principal pilar da segurança
alemã.
Lula: busca pela reeleição tem se mostrado mais desafiadora
Embora
a situação de Lula seja menos turbulenta que a de Merz, o presidente
brasileiro também se vê em um momento de crescentes desafios.
Candidato
declarado a reeleição em outubro, Lula, que deve disputar sua sétima
eleição presidencial, tem visto nos últimos meses o que parecia ser um
cenário bastante favorável a uma nova vitória ser pouco a pouco ameaçado
pela pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro, filho
mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Pesquisas tem mostrado
que a pré-candidatura de Flávio, que inicialmente foi encarada no fim
do ano passado como um artifício para servir de moeda de troca política,
tem se mostrado cada vez mais viável, pressionando as chances de Lula.
Nesta
semana, uma pesquisa Genial/Quaest apontou que Lula ainda tem vantagem
num primeiro turno, mas que Flávio já aparece tecnicamente empatado com o
presidente numa eventual segunda rodada.
A menos de seis meses do
primeiro turno, uma pesquisa Datafolha também indicou na semana passada
que a avaliação negativa do governo Lula permanece em 40%, enquanto a
positiva caiu de 32% para 29% frente a um levantamento de março,
enquanto 29% classificam a gestão como regular.
Mesmo com o
desemprego atingindo mínimas históricas e inflação dentro da meta,
especialistas em opinião pública apontam que persiste entre parte do
eleitorado a percepção de dificuldade econômica, alimentada pela
precarização de certas categorias de trabalho e forte endividamento.
No
Congresso, o governo também tem acumulado dificuldades, com o governo
tendo que pagar preços altos para conseguir a aprovação de projetos e
tendo que lidar regularmente com “pautas-bomba” apresentadas nas duas
Casas.
Alguns aliados têm reconhecido as dificuldades, apontando
para problemas de comunicação. No fim de março, o ministro da Casa
Civil, Rui Costa, mandou indiretas para o ministro da Secretaria de
Comunicação Social, Sidônio Palmeira, dando a entender que o governo não
está sabendo propagandear suas realizações.
Apesar das
dificuldades, especialistas destacam o fato de a campanha eleitoral
ainda não ter efetivamente começado, apontando que o governo ainda tem a
possibilidade de reagir mostrando realizações de forma mais sistemática
e atuar mais abertamente para desconstruir candidaturas rivais.