quarta-feira, 15 de abril de 2026

Queda de Orbán na Hungria impõe novos arranjos na Europa Central

 Peter Magyar, líder do partido da oposição Tisza, discursa durante uma coletiva de imprensa no dia da eleição parlamentar, em Budapeste, Hungria, em 12 de abril de 2026. — Foto: REUTERS/Leonhard Foeger

 

Péter Magyar promete romper legado antiliberal e se aproximar das pautas da União Europeia. Aliados regionais, República Tcheca e Eslováquia calculam impactos políticos e geopolíticos.Péter Magyar conquistou os eleitores húngaros com o discurso de combate à corrupção e crescimento da economia, mas se fincou no cenário internacional com a promessa de reverter o sistema antiliberal e a orientação anti-União Europeia da Hungria nos 16 anos do governo de Viktor Orbán.

O partido de centro-direita Tisza, liderado, por Magyar, acabou obtendo dois terços das cadeiras do parlamento nas eleições de 12 de abril, o que sinaliza, num primeiro momento, caminhos abertos para o novo governo emplacar reformas e se descolar da órbita de Moscou.

Os aliados mais próximos de Orbán, contudo, ainda não deram mostras contundentes de que irão acompanhar o movimento, caso ele se concretize.

Braço-direito de Orbán, o primeiro-ministro Robert Fico, da Eslováquia, conhecido por divulgar longas mensagens em vídeo e extensos comunicados à imprensa, manifestou-se de forma concisa, por meio de um e-mail para jornalistas. “Respeito plenamente a decisão dos eleitores húngaros”, disse, acrescentando estar pronto para uma “cooperação intensa” com o novo governo em Budapeste.

Líderes nacionalistas e populistas

Andrej Babis, primeiro-ministro da República Tcheca, conhecido como o “Trump tcheco” pelas semelhanças ideológica e de conta bancária, fez questão de mencionar seu velho aliado em sua mensagem de felicitações para Magyar.

“Enfrentar um adversário tão forte como Viktor Orbán nunca foi fácil, mas ele conquistou a confiança da maioria dos húngaros e carrega grandes esperanças e expectativas”, escreveu Babis no X. “Ele não deve decepcionar.”

Babis fundou, ao lado de Orbán, o grupo eurocético Patriotas pela Europa, em 2024.

Tanto Babis quanto Fico acompanharam a posição de Orbán de usar seu poder de veto na União Europeia para bloquear ajuda à Ucrânia, que se defende dos ataques massivos russos desde 2022.

As respostas cuidadosamente calibradas de Bratislava e Praga refletem tanto a magnitude da mudança política em Budapeste quanto a incerteza que agora paira sobre a Europa Central, onde Orbán há muito tempo era a figura central de uma aliança informal de líderes nacionalistas e populistas.

Ameaça para Fico

Fico afirmou que as prioridades da Eslováquia não se alteram com a derrocada de Orbán.

Entre elas estão o renascimento do Grupo de Visegrad – uma aliança informal entre a República Tcheca, a Hungria, a Polônia e a Eslováquia. Ele citou ainda a proteção dos interesses energéticos comuns e a restauração do fornecimento de petróleo russo à Eslováquia e à Hungria por meio do oleoduto Druzhba.

Esse fornecimento está suspenso desde janeiro, após o que Kiev descreveu como ataques de drones e mísseis russos a um trecho do oleoduto na Ucrânia. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, afirmou recentemente que os reparos podem começar nas próximas semanas.

“A maior ameaça para a Rússia é uma Ucrânia livre, independente e democrática”, disse Martin Poliacik, ex-deputado eslovaco filiado ao partido de oposição Eslováquia Progressista. “Por extensão, a maior ameaça para Fico é uma Hungria pró-europeia, porque os eslovacos viriam que isso é possível”, disse Poliacik à DW.

A derrota de Orbán também priva Fico de um parceiro-chave no cenário europeu. O líder húngaro era visto como um interlocutor tanto de Moscou quanto de Washington.

Fico agora é o homem de Putin na Europa?

Alguns acreditam agora que a Rússia, pelo menos, voltará toda a sua atenção para a Eslováquia. Poliacik, no entanto, expressou dúvidas de que Fico pudesse assumir o lugar de Orbán como o homem de Putin na Europa. “Ele está cansado”, disse ele, acrescentando que Fico também carece de uma equipe forte de executores capazes e combativos, ao contrário de Orbán.

O líder eslovaco havia ameaçado bloquear o empréstimo de 90 bilhões de euros da UE para Kiev caso Orbán fosse derrotado, mas alguns duvidam que ele esteja realmente pronto para desafiar o resto da UE sozinho.

Eleição de Magyar trará estabilidade?

Mesmo com Orbán fora do poder, analistas alertam que a mudança na Hungria pode não levar a uma estabilidade de longo prazo. “Acho que é realmente difícil permanecer no poder na Europa neste momento”, disse Poliacik. “Todo status quo é difícil de manter. É como um pêndulo oscilando.”

Essa volatilidade é bem compreendida em Praga.

Andrej Babis voltou ao poder no final de 2025 à frente de uma coalizão que inclui seu movimento Ano, o partido conservador Motoristas por Si Mesmos e o SPD, de ultradireita e anti-imigração.

Críticos argumentam que o governo já está buscando reformular elementos-chave do sistema democrático liberal da República Tcheca, incluindo a mídia pública e o papel da sociedade civil, seguindo à risca o manual de Orbán. Os apoiadores – assim como o próprio Babis – rejeitam essa definição.

Desafios para Babis

Analistas apontam que há limites estruturais ao que Babis pode alcançar no contexto tcheco. “Babis percebeu durante seu primeiro mandato como primeiro-ministro que não pode controlar o país da mesma forma que Orbán”, disse o comentarista político tcheco Jindrich Sidlo.

“Orbán governou por muito mais tempo, teve resultados eleitorais muito diferentes, não há Senado na Hungria, e ele conseguiu moldar o sistema eleitoral a seu favor”, disse ele à DW.

“Isso é algo que Babis talvez tenha invejado, mas acho que ele agora entende que não é realista na República Tcheca. Até mesmo mudar a lei eleitoral requer acordo entre a Câmara e o Senado – não dá para forçar a aprovação”, disse ele. “Portanto, Babis é, nesse sentido, uma versão muito mais fraca de Orbán.”

Nova ordem regional

Além da política nacional, a derrota de Orbán também pode afetar uma rede mais ampla de alianças construída ao longo da última década.

Andras Lederer, do Comitê Húngaro de Helsinque, argumenta que a Hungria desempenhou um papel central no apoio a atores com ideais semelhantes em toda a Europa. “Orbán ajudou seus aliados política e financeiramente”, disse ele.

Esse apoio incluiu financiamento para think tanks, grupos de defesa e iniciativas de mídia alinhados com uma visão mais soberanista da Europa, segundo o especialista. “Com Orbán fora do poder, essa rede provavelmente diminuirá significativamente ou até desaparecerá”, acrescentou Lederer.

Especula-se que o novo cenário político na Europa Central pode impactar também os modelos de cooperação regional, como o grupo de Visegrad, praticamente inativo desde que a invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia expôs profundas divisões entre seus membros.

A Polônia e a República Tcheca têm sido fortes apoiadoras de Kiev. A Hungria, sob Orbán, e a Eslováquia, sob Fico, assumiram posições muito mais hostis.

Babis sinalizou interesse em reviver o grupo de Visegrad, e seu governo já tomou medidas para melhorar as relações com Bratislava.

Mas sem Orbán, com um novo líder húngaro buscando melhorar os laços com Bruxelas, e a Polônia sob um governo liberal-conservador aparentemente desinteressado no formato Visengrad – pelo menos até novas eleições em Varsóvia –, o bloco parece mais moribundo do que nunca.

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