No
encerramento de viagem de Lula à Alemanha, presidente brasileiro e Merz
reforçam necessidade de estreitamento de laços e cooperação em meio à
turbulência mundial e política de poder de Trump.Mais comércio, mais
cooperação e mais laços políticos. O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva e o chanceler federal Friedrich Merz propagandearam ao longo de
uma agenda de dois dias o desejo de estreitar ainda mais as relações
entre Brasil e Alemanha diante dos desafios provocados pela deterioração
da ordem mundial e a intensificação da política de força dos Estados
Unidos.
“Multilateralismo” foi a palavra mais repetida após a
série de encontros travados por Lula e Merz em Hannover, na Alemanha,
onde os dois líderes abriram a tradicional feira industrial da cidade e
realizaram uma reunião de trabalho que contou com mais de uma dezena de
ministros dos dois governos.
“Brasil
e Alemanha querem paz, querem o multilateralismo, querem o
desenvolvimento, e não a destruição. Queremos vida e não morte”, disse
Lula nesta segunda-feira (20/04) na reta final da agenda – o presidente
desembarcou no domingo e deixa a Alemanha na terça-feira.
Em
sintonia com Lula, Merz afirmou que não vê a parceria com o Brasil
apenas em termos econômicos, mas também como uma cooperação estratégica
na manutenção de um mundo baseado em regras.
“Compartilhamos
com o Brasil um interesse fundamental em uma ordem política na qual
possamos confiar em acordos, possamos contar com tratados, possamos
contribuir para a resolução conjunta de problemas globais e, acima de
tudo, desejemos resolver conflitos somente por meios pacíficos”, disse
Merz durante a abertura do 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, um
dos eventos em Hannover que contou com os dois líderes.
“Os laços
estreitos entre nossos dois países são mais necessários do que nunca em
um momento em que a ordem mundial passa por mudanças tão fundamentais.”
Acordo Mercosul-UE é celebrado por Alemanha e Brasil
Ao
longo de dois dias, Merz e Lula assinaram acordos de defesa, meio
ambiente, bioeconomia, infraestrutura e inteligência artificial, entre
outros temas.
Os
dois líderes ainda celebraram a entrada em vigor provisória do acordo
de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, um tratado que
foi defendido por décadas pela Alemanha e Brasil, duas economias
fortemente voltadas para a exportação.
Falando ao lado de Lula na
abertura do estande brasileiro na Feira de Hannover, o chanceler federal
Friedrich Merz deixou claro que a Alemanha vê a possibilidade de ganhos
com o tratado e que o enxerga como um contraponto à política baseada em
pressão de grandes potências como os EUA, que sob Donald Trump têm
promovido tarifaços e intervenções militares unilaterais.
“Esta
é a nossa resposta às grandes convulsões que estamos vivenciando. É uma
resposta a todos aqueles que hoje querem substituir a ordem baseada em
regras, tratados e confiabilidade pela política de poder no mundo,
utilizando meios militares”, afirmou Merz.
O alemão também disse
esperar que o volume comercial entre a Alemanha e o Brasil, que
totalizou 20 bilhões de euros em 2024, dobre nos próximos anos.
“Considerando
a dimensão dessas duas economias, esse valor é muito baixo. Queremos
aumentá-lo significativamente e apoio integralmente a meta ambiciosa de
dobrar esse volume comercial nos próximos anos.”
Negociado por
mais de duas décadas, o acordo vai finalmente entrar em vigor de forma
provisória no início de maio e tem o potencial de criar uma zona de
livre-comércio com 715 milhões de pessoas e 20% da produção econômica
global.
Com uma economia exportadora industrial e com peso menor
do setor agrário, A Alemanha sempre foi uma forte apoiadora do tratado,
não compartilhando da posição de países como França e Irlanda, que
explicitaram várias objeções.
No entanto, o tratado só entrará em
vigor de forma provisória a partir de 1° de maio, aguardando ainda a
ratificação do Parlamento Europeu e do Conselho Europeu, um processo que
promete se arrastar. “Continuaremos a trabalhar arduamente para
garantir que o processo de ratificação seja concluído rapidamente”,
disse Merz.
Feira de Hannover como vitrine do Brasil
No seu
segundo dia na Alemanha, Lula participou, ao lado de Merz, da abertura
do estande brasileiro na Feira de Hannover, que neste ano tem o país
sul-americano como parceiro na tradicional feira industrial, o maior
evento do setor no mundo.
“As relações econômicas entre Brasil e
Alemanha não só possuem uma longa tradição, mas também um futuro
promissor”, disse Lula na segunda-feira.
O estande brasileiro na
feira conta com cerca de 2.700 metros quadrados de exposição,
organizados em seis áreas temáticas: transição energética, hidrogênio,
digitalização, indústria avançada, economia circular e inteligência
artificial. A feira propagandeia a presença de 140 empresas brasileiras e
outras 300 apoiadas indiretamente.
Consultas intergovernamentais entre Alemanha e Brasil
Ainda
junto com o chanceler federal alemão, o presidente tomou parte na
terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível entre
Brasil e Alemanha, um mecanismo de diálogo que o governo alemão mantém
com poucos parceiros internacionais e que prevê reuniões regulares entre
ministros.
Oito ministros alemães se deslocaram de Berlim para encontrar sete membros da Esplanada em Hannover.
“É
natural que a Alemanha volte a olhar para o Brasil. Apesar das
múltiplas crises do mundo atual, vivemos um momento econômico muito
favorável”, disse Lula. “A Alemanha é um parceiro indispensável para o
Brasil. Não tenho dúvidas que a Alemanha pensa o mesmo sobre o Brasil.”
Como
parte dos encontros, o governo alemão confirmou uma contribuição de 500
milhões de euros (cerca de R$ 2,94 bilhões) ao Fundo Nacional sobre
Mudança do Clima, instrumento financeiro federal brasileiro que financia
projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Já um
aporte de 1 bilhão de euros (R$ 5,8 bilhões) prometido pela Alemanha
para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) – um projeto
formalizado por Lula na COP30 – deve ficar para o ano que vem, segundo
declaração do governo alemão, e ainda vai depender de aprovação
orçamentária e parlamentar.
Lula defende biodiesel brasileiro
Ao longo da viagem à Alemanha, Lula só demonstrou contrariedade quando o tema dos biocombustíveis foi abordado.
Falando
a uma plateia de empresários brasileiros e alemães em Hannover, Lula
advertiu contra o que chamou de “mitologia” contra biocombustíveis.
“Há
muito mito criado entre os países desenvolvidos e os em via de
desenvolvimento. A Alemanha conhece o Brasil mais que qualquer outro
país. Os alemães não podem acreditar na mitologia dita por alguns que
são contra a inovação tecnológica na área de biocombustíveis, de que o
biocombustível brasileiro atrapalha a produção de alimentos. Se alguém
quiser acreditar nisso, eu convido a conhecer o Brasil”, disse Lula.
A
fala ocorreu após alguns movimentos de restrição na União Europeia, que
tem se intensificado com a proximidade em vigor provisória do acordo de
livre-comércio Mercosul-União Europeia.
Em janeiro, a Comissão
Europeia divulgou a intenção de reclassificar o biodiesel feito de soja,
que poderia perder a partir de 2030 o status de recurso renovável na
UE, e, portanto, não poderia ser mais usado por companhias de
combustíveis para cumprir metas de redução de carbono. Tal medida
impactaria diretamente a importação de biodiesel produzido no Brasil e
na Argentina.
Uma restrição similar já atinge o óleo de palma, que
é cultivado principalmente na Ásia. Defensores da restrição argumentam
que o biodiesel de soja é tão nocivo para o meio ambiente quanto o
petróleo e que a expansão do produto estaria sendo feita às custas de
florestas e da produção de alimentos.
“Não há hipótese de o
Brasil deixar de produzir alimentos para produção de biocombustível”,
disse Lula, apontando para a quantidade de terras degradadas que,
segundo ele, poderiam ser recuperadas para a produção de
biocombustíveis.
Merz, que procura diversificar as fontes de
energia da Alemanha após sucessivas crises de fornecimento na esteira
das guerras na Ucrânia e no Irã, disse que seu país tem o que aprender
com o Brasil nessa área.
“Há um caminhão no estande da feira [de
Hannover] movido a biocombustível. Sabemos que, no Brasil, essa
tecnologia avançou muito e demonstra que nós podemos aprender com o
Brasil também”, disse.
Recados a Trump
No domingo, Lula mandou recados indiretos ao governo do presidente Donald Trump, sem mencionar nominalmente o líder americano.
“Nós
não podemos permitir que o mundo se curve ao comportamento de um
presidente que acha que por e-mail ou por Twitter pode taxar produtos,
pode punir países, e pode fazer guerra”, disse Lula.
Ele ainda
chamou a guerra no Irã, iniciada pelos EUA e Israel, de “maluquice”. “O
Brasil é um dos países menos afetados pela maluquice da guerra feita com
o Irã”, disse Lula.
Já sobre Cuba, Merz afirmou que a Alemanha não vê nenhuma base legal para qualquer intervenção no país caribenho.
“Não
vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não
sei por que seria necessário haver uma intervenção. Poder se defender
não quer dizer poder interferir em outros países que têm sistemas
políticos que não nos agradam”, acrescentou.
Recepção com pompa em solo alemão
Lula chegou no domingo (19/04) em Hannover, após cumprir uma etapa anterior na Espanha.
Na
cidade alemã, o presidente brasileiro foi recebido com pompa pelo
chanceler federal Merz, com direito a uma cerimônia militar no palácio
Herrenhausen e um jantar privado na antiga residência dos reis de
Hannnover. Tal protocolo no local só havia sido estendido ao então
presidente americano Barack Obama uma década atrás.
Ainda no
domingo, Lula e Merz participaram de uma cerimônia que marcou a abertura
da Feira de Hannover 2026. Já o final da agenda de Lula na
segunda-feira previa uma visita à sede mundial da montadora Volkswagen,
em Wolfsburg, a cerca de 70 quilômetros de Hannover.
Ainda na
segunda-feira, Lula se atrasou para a chegada na feira, deixando Merz
esperando por pouco mais de 20 minutos na porta de um dos pavilhões.
Parte da logística do encontro foi afetada por uma greve no transporte
público em Hannover, que provocou engarrafamentos na cidade.
A
viagem também marcou a terceira vez que o chanceler federal e Lula se
reuniram. Também foi o primeiro encontro que não ocorreu à margem de uma
cúpula internacional.
Os dois já haviam se encontrado no ano
passado na COP30, em Belém, e na reunião do G20, na África do Sul. À
época, os dois encontros foram ofuscados por um comentário desabonador
de Merz sobre a cidade de Belém, mas desde então tanto o chanceler
federal quanto Lula minimizaram o incidente. Na segunda-feira, durante a
abertura do estande brasileiro na Feira de Hannover, Merz agradeceu a
Lula pela acolhida em Belém.
A imprensa alemã tem destacado a
visita de Lula, com vários jornais apontado que o estreitamento de laços
com o Brasil promovido por Berlim pode trazer potenciais ganhos para o
país europeu, que passa por um momento de estagnação e ansiedade
econômica.
Lula lamenta que não conseguiu comer salsicha na rua
Nesta
segunda-feira, durante um último pronunciamento ao lado de Merz em
Hannover, Lula lamentou de maneira bem-humorada que durante sua estadia
na cidade não conseguiu comer uma salsicha alemã em alguma barraquinha
de rua.
“Só lamento que vou sair de Hannover sem comer a linguiça
frita no carrinho. Talvez, quando você me visitar no Brasil, você pode
me trazer salsichão”, disse Lula ao chanceler federal da Alemanha.
Mais
cedo, Merz ofereceu uma seleção de salsichas para Lula durante uma
pausa no palácio Herrenhausen, com as iguarias fatiadas e com palitos.
Mas aparentemente a disposição “gourmet” das salsichas não era o que
Lula tinha em mente quando manifestou anteriormente sua vontade de
provar a comida típica durante a viagem.