O
Brasil, apesar de sua estagnação econômica, ganhou influência na
política internacional. A Alemanha, ao contrário, perdeu. Mas em Berlim
parece que ainda não entenderam isso.Há exatos oito anos era publicada
aqui minha primeira coluna Tropiconomia. Ela falava sobre como o Brasil
formava muito poucos engenheiros – e, pior ainda, nem mesmo precisava
deles. Havia escassos postos de trabalho para eles na pesquisa e
desenvolvimento do setor privado. Quase nada mudou desde então.
Em
retrospecto, posso afirmar: infelizmente poucas mudanças fundamentais
ocorreram na economia brasileira como um todo nesses oitos anos. Com
raras exceções, as empresas brasileiras fora do setor agrícola não estão
na primeira divisão mundial.
Há
dez anos que a economia brasileira quase não cresce, e ela está muito
distante da euforia que predominava há 20 anos. Você se lembra de Eike
Batista? Ele já foi um dos homens mais ricos do mundo. Hoje dá cursos
para pequenas empresas e conta sobre os tempos passados – isso me parece
sintomático dos problemas da economia brasileira.
Em Berlim, ainda vivem no passado
Mesmo
assim, a relação entre a Alemanha e o Brasil mudou nesses oito anos. O
Brasil é, hoje, apesar de sua estagnação econômica, mais influente na
política internacional do que era então. A Alemanha, ao contrário,
perdeu influência. Mas parece que essa valorização política da América
do Sul e do Brasil nesses oito anos ainda não foi percebida em Berlim.
Oito
anos atrás, a situação era completamente diferente: Angela Merkel havia
sido reconfirmada chanceler federal pelo Parlamento alemão (Bundestag).
A Alemanha parecia ser mais forte do que nunca: ocupação recorde,
superávits orçamentários, boom das exportações. A Alemanha era a âncora
de estabilidade econômica na Europa. Merkel chegou a ser considerada a
mulher mais poderosa do mundo, e a autoestima da nação estava em alta.
Na
Alemanha, muitos ainda vivem nesse mundo – sobretudo na relação com a
América do Sul. Na verdade, a Alemanha passa hoje por uma grave crise
estrutural.
Com a pandemia de covid-19, a invasão da Ucrânia pela
Rússia, a alta da energia e dos custos de produção locais e a fuga da
indústria, a Alemanha nunca esteve tão desorientada como hoje, desde a
criação do país após a Segunda Guerra Mundial. Em consequência, a
influência alemã no mundo diminuiu.
Mas,
em Berlim, age-se como se a Alemanha continuasse sendo, na América do
Sul, tão influente, respeitada e atraente como oito anos atrás.
Punição coletiva para a América Latina
Se
forem considerados os pontos altos das relações bilaterais desde 2018, a
agenda conjunta parece pálida e sem ambição. Após a eleição de Jair
Bolsonaro, em 2018, as relações exteriores com toda a América do Sul
foram inicialmente colocadas em compasso de espera. A América Latina
foi, por assim dizer, punida coletivamente por causa do presidente de
extrema direita do Brasil.
A aproximação mais importante só
ocorreu em 2023, quando o então chanceler federal Olaf Scholz visitou
Chile, Argentina e Brasil para firmar parcerias energéticas. Em
Brasília, a delegação alemã percebeu, surpresa, que o então
recém-empossado presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, tinha uma visão
completamente diferente sobre a guerra na Ucrânia (“Se um não quer, dois
não brigam”, disse ele na época). O chamado Sul Global não demonstrou
interesse pelas preocupações da Alemanha em relação à guerra às suas
portas.
O acordo comercial entre a União Europeia (UE) e Mercosul é
mais um desses projetos conjuntos que o bloco europeu vem conduzindo
sem ambição. Não são apenas os franceses ou os poloneses, como se gosta
de dizer na Alemanha, que dificultam o avanço, mas também – por meio da
UE – políticos e políticas alemães.
Até agora, o chanceler federal
Friedrich Merz ainda não deixou claro que uma América do Sul
democrática seja importante para ele. Seu comentário infeliz sobre
Belém, no entanto, revelou qual é a importância que a América do Sul tem
no horizonte político dele.
O que a Alemanha tem a oferecer?
E
a Alemanha, hoje, depende mais do que nunca do Brasil e da América do
Sul: ela precisa de energia (petróleo e gás, etanol e, em breve,
hidrogênio verde) e das matérias-primas (terras raras, cobre, lítio, mas
também produtos agropecuários) vindas da América do Sul, mas não está
disposta a investir dinheiro para garantir esse acesso no longo prazo.
Se
todos os outros mercados do mundo desmoronarem, a Alemanha precisará do
mercado de 660 milhões de habitantes da América Latina. Se a economia
alemã quiser voltar a crescer, trabalhadores qualificados e
especialistas latino-americanos serão necessários.
O inverso,
porém, não é verdadeiro. A América do Sul precisa cada vez menos da
Alemanha. Em Berlim, ainda não caiu a ficha de que o interesse das
pessoas na América do Sul pela Alemanha está diminuindo.
Além de
palavras calorosas (“uma relação em pé de igualdade”) e críticas à falta
de padrões ambientais, a Alemanha tem pouco a oferecer. Uma exceção são
as universidades alemãs, que continuam atraentes para os estudantes
latino-americanos.
Acredito que existe o risco de esse
desequilíbrio se agravar ainda mais. Pois, devido à guerra no Oriente
Médio e ao aumento da polarização entre os EUA e a China, a América do
Sul ganhará importância geopolítica. Para a Alemanha, o futuro é
incerto.
Com isso, me despeço das leitoras e dos leitores. Foi
para mim, ao longo dos anos, um prazer acompanhar os inúmeros
comentários e discussões sobre minhas colunas.
—
Há mais de
25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul
do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário
Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher
Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e
política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São
Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.
O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.
https://istoedinheiro.com.br/coluna-e-a-alemanha-que-precisa-do-brasil-e-nao-o-contrario