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Consultoria multidisciplinar, onde desenvolvemos trabalhos nas seguintes áreas: fusão e aquisição e internacionalização de empresas, tributária, linhas de crédito nacionais e internacionais, inclusive para as áreas culturais e políticas públicas.
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Os candidatos de Lemann
Eles se formaram nas
melhores universidades do mundo com a ajuda do homem mais rico do Brasil
e poderiam trilhar carreiras prósperas no mundo corporativo, mas
preferiram mudar a política do País. Conheça os jovens políticos que
podem tornar real o sonho do bilionário brasileiro de ver um de seus
pupilos na Presidência da República
Olhar adiante: inicialmente
avesso à política, o empresário Jorge Paulo Lemann despertou para a
necessidade de formar líderes para transformar o modelo de atuação dos
parlamentares e chefes do Executivo (Crédito: Divulgação)
O cientista político e economista Renan Ferreirinha encara a
sua ocupação atual como a de uma startup. Tem um desafio enorme para
realizar mudanças de impacto, precisa de criatividade para vencer
barreiras históricas e conta com escassos recursos pelo caminho. Há um
risco alto de insucesso. A descrição poderia ser tranquilamente a de uma
jornada no Vale do Silício, para onde o jovem de 25 anos foi convidado a
ir após deixar a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. A
empreitada, porém, é no quintal de sua casa, em São Gonçalo, no Rio de
Janeiro, e tem como pano de fundo um dos ambientes menos inovadores de
que é possível se imaginar: a política brasileira. Em campanha para
deputado estadual, ele recebe hoje um salário de R$ 5.000 mensais, muito
abaixo dos empreendedores de sucesso do polo tecnológico americano e
menos de um quinto do que lhe foi oferecido em outra proposta
apresentada ao fim da graduação, para ocupar uma vaga num banco de
investimento em Nova York.
Ferreirinha tem plena consciência das renúncias. Uma das formas de
explicar o desejo pelo caos da política é lembrar um desfile do qual
participou aos cinco anos, em que se orgulhou de representar o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Sonhar grande e sonhar pequeno
dá o mesmo trabalho”, afirma o candidato pelo Rio de Janeiro. “Por que
não fazer algo maior do que a sociedade impõe e contribuir através de um
mandato?” O mantra da ambição costuma ser repetido pelo empresário
Jorge Paulo Lemann aos bolsistas da Fundação Estudar, criada por ele
para formar lideranças no País.
Nova política:
para mudar os métodos de campanha e do mandato, ex-bolsistas da
Fundação Estudar encontram respaldo de movimentos suprapartidários como o
Renova BR (Crédito:Divulgação)
Curiosamente, o sonho do jovem fluminense representa o início do novo
sonho do homem mais rico do Brasil: a de ver um ex-bolsista da entidade
chegar à Presidência da República. “Eles sabem que vai ser difícil
serem eleitos, mas espero que alguns deles sejam e que isso crie uma
corrente de gente boa no governo também”, afirmou em evento do grupo no
início deste mês, em São Paulo.
Há grandes chances de que o desejo comece a sair do papel nestas
eleições. Sete profissionais que passaram pela fundação concorrem a
cargos eletivos. Há desde candidatos a deputado estadual até a
governador (conheça os perfis ao final da reportagem). Em comum, os
novos políticos – não, eles não se incomodam com o rótulo de políticos –
ostentam formação nas melhores universidades do mundo, dividem a
decisão de renunciar a carreiras prósperas na iniciativa privada, além
dos anseios de mudança na gestão pública e de renovação na política. Nas
campanhas, eles empregam métodos corporativos aprendidos no ambiente da
rede Estudar. São os mesmos atributos que levaram muitos que lá
passaram aos postos mais altos de empresas por todo o globo.
Não é à toa que Ferreirinha, assim como os outros ex-bolsistas, chama
sua campanha de startup. Trata-se de um esforço coletivo, composto de
10 pessoas que trabalham em tempo integral, com salários, e outros 20 em
tempo parcial. Há integrantes até de fora do País. Um dos principais
desafios é levantar recursos e quebrar as barreiras criadas pela
política tradicional. Os diferenciais vão desde jingles inspirados em
séries do Netflix até o plantio de árvores para compensar o gasto com
papel nos panfletos. O grupo estima em 30 mil votos o total necessário
para se eleger. A ideia é defender propostas claras, mas sem promessas.
Uma delas é a de trabalhar para elevar de 5% para 50% o alcance do
ensino técnico no Estado.
Na
disputa por um cargo de deputado estadual em São Paulo, Daniel José
Oliveira, de 30 anos, também cita a cabeça de startup. Filho de uma
diarista, ele cresceu ao lado de dez irmãos e só cursou economia no
Insper graças à fundação criada por Lemann. Trabalhou no banco JP
Morgan, de onde saiu para ser voluntário na Jordânia. Foi de uma posição
no braço de educação da Falconi Consultoria que ele decidiu “pular o
balcão” . “A escolha de entrar para a política é a menos óbvia
que alguém pode ter, envolve muitas perdas”, diz o jovem. “Mas percebi
que várias iniciativas que são muitos simples não aconteciam com a
velocidade devida.” Para atingir os 30 mil votos que precisa
para se eleger pelo partido Novo, ele dividiu a campanha em sete
projetos, como o de distribuição de kits, enviados aos seguidores mais
engajados para espalhar aos seus conhecidos.
Se eleito, ele pretende defender a cobrança de mensalidade das
universidades estaduais para quem tem condições de pagar e a adoção de
vouchers para o ensino técnico. Assim como Oliveira, a maioria dos
egressos da fundação enfrentou resistências de familiares e amigos para
ingressar na política, tenta lutar para vencer as barreiras de entrada
(todos repetiram o jargão corporativo) do sistema político, tem como
pauta a educação e procurar focar a campanha em qualidade em vez de
quantidade. “As regras do sistema funcionam para não te deixar ser
competitivo”, afirma Oliveira.
Um levantamento do Departamento Sindical de Assessoria Parlamentar
(Diap) apontou o risco de o índice de renovação do Congresso ficar
abaixo da média histórica, de 49%, nesse pleito, pela necessidade de
alguns parlamentares de manter o foro privilegiado e pela vantagem que
eles levam de já estar no cargo. Contra essa perspectiva de
continuidade, alguns grupos vêm se engajando para quebrar a inércia da
política, caso dos movimentos suprapartidários Renova BR e Acredito, do
qual fazem parte a maioria dos candidatos que passaram pela iniciativa
de Lemann. Por meio desses coletivos, os jovens podem se escorar em
cláusulas de independência ao ingressar em partidos tradicionais e
encontram uma via formal ao sentimento de despertar para a causa de
renovação. “Fiz de tudo que era possível na área de educação fora da
política, mas é frustrante”, afirma a cientista política e astrofísica,
Tabata Amaral, candidata a deputada federal por São Paulo, pelo PDT.
“Chegou a hora de pessoas comuns, que não são ricas entrarem para a
política.”
Filha de uma diarista e de um cobrador, Amaral, de 24 anos cresceu no
bairro de periferia Vila Missionário, na capital paulista. Passou em
seis universidades de ponta dos Estados Unidos. Em Harvard, foi bolsista
da Estudar. Chegou a trabalhar na Ambev, mas se evolveu rápido com
educação, área em que ganhou notoriedade. Agora, decidiu largar tudo
pela tentativa de chegar ao Congresso. Os conceitos aprendidos graças à
Estudar são incorporados na campanha. Há metas desdobradas para os
integrantes do time, todos da periferia, a aplicação do conceito de
Orçamento Base Zero e um apreço pela boa gestão. Para atingir a meta de
110 mil votos, ela conta com uma rede de 1.000 voluntários. “O nosso é
um trabalho de formiguinha, enquanto os políticos tradicionais pagam
líderes”, afirma a candidata. “Só que nós entramos nas casas, os
políticos da velha política, não.”
Velha política:
o deputado Paulo Maluf, cassado por denúncias de corrupção. Desafio dos
novos candidatos é vencer o desgaste associado aos vícios do processo
eleitoral tradicional (Crédito:Pedro Ladeira/Folhapress)
A formação de uma rede de voluntários engajados, ao lado de presença
nas redes sociais, é o trunfo dos jovens para vencer o sistema. Eles,
porém, são muito realistas quanto à necessidade de recursos.
O
engenheiro Felipe Rigoni, 27, que acaba de voltar de um mestrado em
Políticas Públicas na Universidade de Oxford, com apoio da Estudar,
começou a sua campanha ainda do exterior. Ele calcula um custo de R$ 10
por voto e a necessidade de levantar R$ 800 mil para chegar aos 80 mil
votos que estima precisar para se eleger. Já arrecadou metade disso e
não sabe se conseguirá o resto. “O sistema é todo desenhado para
beneficiar quem está lá”, afirma o candidato a deputado federal pelo
Espírito Santo, pelo PSB. “Estou competindo com gente que já está com R$
2,5 milhões depositados pelo partido.” Rigoni sabe bem o que é
enfrentar dificuldades. Aos 15 anos, perdeu completamente a visão.
Agora, luta para manter vivo o sentimento de esperança nos que acreditam
no seu trabalho. “Eu não brinco com a esperança dos outros.”
Uma das suas propostas para inovar na forma de fazer política é um
mandato coletivo. A ideia é criar um conselho parlamentar formado por
cem pessoas, de representantes da sociedade civil, com poder de
deliberar. “O distanciamento é um dos principais problemas dos políticos
hoje”, afirma Rigoni. O jovem capixaba é um exemplo da mudança de
perfil nas pretensões de Lemann com a Fundação Estudar. No processo
seletivo, o engenheiro já havia tentado ser vereador e deixou claro suas
ambições políticas. Enquanto Lemann sempre buscou se afastar do mundo
da política em sua carreira, percebeu que precisaria abrir o leque da
fundação se quisesse de fato ter um impacto maior sobre o País. Aos
poucos, o escopo dos cursos foi se ampliando e o empresário passou a
falar abertamente do sonho de que seus pupilos contribuíssem mais
diretamente com a gestão pública.
Na turma atual, 19% dos bolsistas estão focados em cursos de gestão
pública. Não era assim no passado. Nos 27 anos de existência, a fundação
formou 673 líderes. Até 2007, eles eram voltados majoritariamente para
as áreas jurídica, de administração, negócios e finanças. A partir dali,
foi feito um esforço para incorporar mais o tema do empreendedorismo e,
desde 2010, a ideia passou a ser de quebrar quase todas as barreiras,
incluindo a ciência e a gestão pública. “Há uma valorização dessas
pessoas que estão arriscando a carreiras delas e abrindo mão de algo no
curto prazo, de algo financeiro, para resolver os problemas do Brasil”,
afirma Anamaíra Spaggiari, diretora-executiva da Fundação Estudar. “A
gente espera que se repita. Vai depender do sucesso deles nesta eleição”
Se os resultados seguirem roteiro semelhante às conquistas de Lemann no
mundo corporativo, o Brasil tem muito a ganhar.
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