
Com a Selic cravada em 14% e mais de 81 milhões de CPFs negativados, balanços de Itaú e Bradesco evidenciam o contraste entre a forte rentabilidade do setor e a crise estrutural de crédito no Brasil.
O que aconteceu
Pressão de Juros e Calote: O Brasil atingiu a marca histórica de 81,7 milhões de adultos inadimplentes em 2026, reflexo direto do elevado custo de vida e do aperto monetário provocado pela taxa Selic, atualmente fixada em 14% ao ano.
Resultados do 2T26: Enquanto o Itaú apresentou forte lucro de R$ 12,4 bilhões com risco controlado, o Bradesco (lucro de R$ 7,05 bilhões) viu sua inadimplência acima de 90 dias sofrer ligeira elevação para 4,3%.
Perspectiva do Setor: Executivos das grandes instituições mantêm postura restritiva no apetite ao risco, descartando qualquer melhora estrutural rápida na capacidade de pagamento das famílias ao longo deste ano.
Intervenção Governamental: O Novo Desenrola Brasil, viabilizado por Medida Provisória, libera repactuações com descontos de até 90%, mas levanta alertas sobre o risco de reincidência de dívidas no médio prazo.
O ambiente de crédito no Brasil em 2026 solidificou-se como um dos mais desafiadores da história recente para o varejo. Na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do início de agosto, o Banco Central manteve o tom austero e cravou a taxa básica de juros (Selic) em 14% ao ano. Esse patamar, necessário para ancorar a economia, asfixia o orçamento familiar e impulsiona a inadimplência, que atingiu o impressionante teto de 81,7 milhões de adultos negativados no país.
Para efeito prático, metade da população maior de idade do país convive atualmente com alguma conta em atraso. O endividamento severo passou a comprometer, em média, mais de 31% da renda mensal dos lares, atingindo picos de 50% entre os cidadãos vulneráveis. O rotativo do cartão de crédito, com sua dinâmica impiedosa de juros, permanece como principal catalisador desse sufocamento.
O choque do superendividamento refletiu-se de maneiras distintas na recém-encerrada temporada de balanços financeiros referentes ao segundo trimestre de 2026 (2T26). Fica clara a adoção de estratégias altamente conservadoras pelas instituições, que lucram enquanto fecham a torneira de dinheiro novo.
O Itaú Unibanco, por exemplo, reportou lucro recorrente gerencial de R$ 12,4 bilhões, ostentando um invejável Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) anualizado de 24,3%. O banco destacou que seu índice de inadimplência consolidado permaneceu blindado nas mínimas históricas, fruto de uma originação de crédito focada em clientes de alta resiliência e produtos com garantia colateralizada.
Na outra ponta, o Bradesco consolidou seu décimo trimestre consecutivo de recuperação do lucro — somando R$ 7,05 bilhões —, porém com sinais claros de que a ponta do varejo segue espinhosa. A inadimplência da instituição referente a atrasos acima de 90 dias marcou uma leve alta trimestral, cravando 4,3%. A liderança corporativa indicou que a deterioração refletiu o aperto sobre carteiras de Micro e Pequenas Empresas (MPMEs) e operações de capital de giro. Em uníssono, a alta cúpula dos grandes bancos adota tom de extrema precaução: o freio na concessão de crédito massificado será mantido e não existe otimismo para uma queda autônoma da inadimplência sem alívio macroeconômico forte.
Como válvula de escape à falência do cidadão comum, o governo interveio por meio da Medida Provisória (MP) 1.355/2026, reativando o Novo Desenrola Brasil desde maio. A mecânica é desenhada para limpar passivos de pequeno porte: pessoas com renda bruta mensal de até R$ 8.105 podem refinanciar débitos bancários de até R$ 15 mil (por instituição financeira) pagando juros máximos de 1,99% ao mês.
O programa força os bancos parceiros a oferecerem abatimentos significativos, que vão de 30% a 90% do valor da dívida. Apesar do respiro, senadores e economistas alertam para as estatísticas desfavoráveis. Nas rodadas primárias deste formato de renegociação, o mercado aferiu que houve crescimento de 15% na reincidência de calotes nas faturas repactuadas. A leitura central em 2026 é que programas governamentais oferecem um alívio pontual, mas são incapazes de resolver o problema basilar causado por estagnação de renda e uma Selic a 14% ao ano.
Guia do Investidor / Guia do Beneficiário: Orientações Práticas
Para o Investidor da B3 (Ações do Setor Financeiro):
Filtro pela Qualidade da Carteira: Com os juros em 14%, o driver principal para quem investe em ações como ITUB4, BBDC4 ou BBAS3 é a blindagem do crédito (NPL acima de 90 dias). Instituições com crescimento focado em linhas consignadas e operações colateralizadas de grandes empresas estão menos expostas ao calote surpresa.
Foque nos Dividendos: A expansão acelerada das carteiras abertas não é viável nesse momento do ciclo. Dessa forma, as ações funcionam como grandes geradoras de caixa (“vagas leiteiras”). Atente-se à regularidade da distribuição de Juros Sobre Capital Próprio (JCP), estratégia amplamente utilizada pelos bancos no 2T26 para otimizar tributos.
Para o Consumidor Endividado (Novo Desenrola Brasil):
Critérios de Inclusão: A sua dívida elegível ao Novo Desenrola precisava ter sido formalizada como empréstimo ou crédito até o dia 31 de janeiro de 2026, encontrando-se atrasada no prazo entre 91 e 720 dias.
Saque do FGTS como Trunfo e Armadilha: A atual MP permite utilizar o montante resgatado do Fundo de Garantia para pagar a dívida negociada à vista. Caso opte por usar valores provenientes do “saque-aniversário”, esteja ciente de que novas movimentações nesta modalidade ficarão travadas até o momento em que haja a recomposição devida do saldo.
Evite Golpes: As renegociações devem ser conduzidas diretamente com a instituição credora (em seus canais e aplicativos oficiais), e não devem ser pagas taxas a terceiros ou prefeituras para “acessar” o desconto do Governo.
https://istoedinheiro.com.br/crise-de-credito-selic-recorde-negativados
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