Casinha de boneca em tamanho real, suíte de hotel cinco-estrelas só para eles, casaco de pele de grife e um quarto dos sonhos que custa US$ 750 mil. Ser criança nunca foi tão sofisticado
Por Bruna BORELLI
Assista à reportagem sobre o Fashion Weekend Kids 2013, realizado na Ilha de Comandatuba
Quando a charmosa Suri Cruise ganhou de presente de Natal dos pais
famosos, os atores hollywoodianos Katie Holmes e Tom Cruise, uma casinha
de boneca em tamanho real, no valor de US$ 24 mil, foi um auê. Havia um
misto de espanto e indignação por parte da opinião pública que se liga
no assunto celebridades, diante de um mimo tão caro para uma criança de
apenas 6 anos. O que poucos questionaram foi: dá para fazer uma casinha
de boneca tão cara assim? O que tinha lá dentro para valer tanto? A
resposta é: sim, dá. Afinal de contas, em escala reduzida, tudo naquela
construção de 20 m² montada no jardim da casa da mãe é idêntico ao que
se vê em uma residência normal.
Moda mirim: grifes tradicionais de luxo, como a Gucci, apostam no mercado infantil
com peças que ultrapassam o valor de R$ 35 mil, como o casaco de pele da foto
Fogão, pia, móveis, encanamento, um projeto completo assinado pela
empresa Sweet Retreat Kids. Ou seja: trata-se de uma brincadeira que vem
sendo levada a sério por empresas de outros ramos para atender uma
clientela mirim super-rica e cada vez mais exigente. Suri poderia ser
uma exceção. Só de sapatos, por exemplo, ela tem cerca de US$ 150 mil,
boa parte da grife de Marc Jacobs, o estilista recém-saído da maison
Louis Vuitton. Faz algum sentido isso? Para o mundo desses pequenos
magnatas, faz. E o mercado de luxo, com suas marcas, sensível a isso,
oferece grande variedade de produtos e serviços a eles. O cenário
econômico da década parece positivo.
Apesar da crise econômica mundial em 2008, que desacelerou o
crescimento do setor, a categoria destinada aos abonados de nascimento
deve fechar este ano com US$ 10,1 bilhões em receita, segundo a
consultoria britânica Ibisworld. Seja com lojas destinadas às crianças,
seja apenas com espaços exclusivos para a linha infantil, marcas como a
francesa Dior e as italianas Armani e Gucci apostam nesse nicho para
incrementar o faturamento. Esta última, por exemplo, oferece casacos de
pele para as meninas por R$ 35 mil e smoking para os rapazinhos por R$ 3
mil.“É uma maneira que as grifes encontraram para crescer sem perder o
posicionamento premium”, diz Luciano Deos, CEO da consultoria
GADLippincott.
Miniatura de luxo : a construção de 20 m2 funciona como uma casa de verdade,
com eletricidade, encanamento e móveis projetados
“Quando uma marca quer se expandir, ou ela aumenta a oferta, baixando o preço médio, ou estende o portfólio de produtos.”
Grifes brasileiras de moda e acessórios também têm se movimentado
nessa direção. A Trousseau, de roupas de cama e banho, por exemplo,
está com a linha Petit há cinco anos. “Ela já representa 12% da nossa
receita”, afirma Adriana Gasparian Trussardi, sócia e diretora de
criação da marca. Um dos hits da coleção é uma manta para recém-nascidos
que custa R$ 350. Hoje, com três das 28 lojas físicas da marca, a
Trousseau Petit pretende investir cada vez mais no público infantil.
Com menos de dois anos de existência, a Enfance, de roupas,
brinquedos e enxoval para crianças de até 6 anos, virou sucesso na
internet e efetua 90% de suas vendas online. O que começou com soft toys
(nome dado a brinquedos feitos com materiais confortáveis e
antialérgicos) acabou transformando-se em linhas de enxoval e roupas
infantis. Os bichinhos da Enfance – o ursinho sai por R$ 260 – podem ser
personalizados com o nome ou inicial do petiz e também trocam de roupa,
inclusive combinando o traje com o da própria criança. “O nosso
público-alvo também são os pais, pois eles sempre querem o melhor para
os seus filhos”, diz Lia Cintra, proprietária da Enfance.
Um possante para pequenos: réplicas em miniatura de carros Audi
e Mercedes-Benz, que atingem 4 km/h, saem por R$ 2,1 mil
“Querem o melhor pediatra, a melhor escola e também os melhores
produtos.” Entre os brinquedos (sim, são crianças e ainda gostam disso),
as maiores novidades também reproduzem o mundo dos adultos. As réplicas
em miniaturas de carros Audi, Mercedes-Benz e Mini Cooper, fabricadas
na China, fazem sucesso na BB Trends, revendedora de brinquedos, com
lojas em São Paulo e Rio. O preço para levar um possante deste para
casa, que é equipado com controle remoto de segurança para os pais, é de
R$ 2,1 mil.
Cinco-estrelas A hotelaria de luxo no Exterior é outro setor que
tem olhado com atenção para o mercado infantil de alta renda. Com
diárias de até R$ 12 mil, o The Ritz London, localizado no centro de
Londres, mima seus pequenos hóspedes com o cartão Very Special Kids
(“crianças superespeciais”, em inglês), que dá direito a mimos como
roupões, pantufas, presentes, cosméticos personalizados e um concierge
exclusivo, que leva guloseimas até o quarto toda noite, como milk-shakes
e sorvetes, sem nenhum custo adicional. Com diversas unidades nos
Estados Unidos, outro grupo, o Trump Hotel Collection, do magnata
americano Donald Trump, também faz de tudo para deixar os clientes
mirins satisfeitos.
Estratégia: a brasileira Enfance, de soft toys, oferece roupas infantis que combinam com as dos bichinhos
As regalias vão desde um “simples” cardápio com gosto de infância
(um bom hambúrguer não tem preço...) até opções exclusivas nos spas de
seus hotéis, além de babás e aulas de natação. Os valores mudam de
acordo com a localização do hotel.
Quem também tem se preocupado com o conforto dos babies – e a
tranquilidade dos pais – é a companhia aérea Etihad Airways. Em
setembro, a empresa lançou o programa “Flying Nannies” (babás voadoras,
em inglês). A ação pioneira não tem nada a ver com Mary Poppins, do
filme infantil de 1964. A ideia da companhia aérea dos Emirados Árabes é
“deixar a viagem mais agradável”, segundo Aubrey Tiedt, vice-presidente
de serviços da empresa.
“Isso inclui servir refeições para as crianças antes dos adultos e
entretê-las para que o voo não se torne maçante”, diz a executiva. As
500 babás que dão início ao programa foram treinadas por meses pela
companhia aérea e só não vão poder trocar fraldas ou levar as crianças
ao banheiro, por uma questão legal. De resto, os pais podem relaxar à
vontade, certos que seus filhos estarão entretidos com truques de
mágica, teatro de fantoche e até aulas de origami e artesanato. “Essas
exigências partem muito mais dos pais do que dos próprios filhos”, diz
Deos.
Babás voadoras: a Etihad Airways, dos Emirados Árabes, lançou o programa "Flying Nannies",
que prioriza o conforto dos clientes mirins em todos os seus voos
Em terra firme, os mini-milionários podem ter um quarto dos sonhos
para chamar de seu. Entre os projetos recentes do escritório de
arquitetura Chris Pollack, de Nova York, está, por exemplo, a renovação
de uma mansão em Manhattan para comportar uma suíte de 100 m² destinada
ao filho pré-adolescente do casal proprietário. Lá, o garoto terá à sua
disposição mesas de pingue-pongue e sinuca, estúdio de música, uma sala
de cinema e videogame e até uma cozinha própria, tudo isso pela bagatela
de US$ 750 mil.
“Nossos clientes estão cada vez mais atentos a isso”, diz Pollack
ao diário de economia e negócios The Wall Street Journal. Essas alas
projetadas para agradar aos pequenos chegam a ter mimos como passagens
secretas inspiradas na saga do bruxinho Harry Potter, fliperamas,
estação de DJ e outros equipamentos eletrônicos da mais alta tecnologia.
E ainda ficam implicando com a singela casinha de boneca da Suri.
Sonho de criança : o Ritz londrino oferece aos hóspedes de até 12 anos vários mimos,
como roupóes, presentes e milk-shakes, sem custo adicional
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